CRÉDITO DE CONFIANÇA

Walmir Rosário*

Não existe a menor sombra de dúvida que a mudança da diretoria da Ceplac trará resultados positivos para a instituição e para a lavoura cacaueira do Brasil, sobretudo a baiana. Meu raciocínio parte do princípio de que toda mudança, quando bem-feita, é benéfica. No caso da Ceplac, a expectativa é que o novo diretor acabe com o marasmo que tomou conta da instituição, reconduzindo aos trilhos a locomotiva da produção de conhecimento.

Como diz o ditado popular, pior não pode ficar. Portanto, basta traçar um programa de trabalho mínimo, um simples feijão com arroz, para que os primeiros resultados sejam notados. Exemplo disso é o que não falta. E a estratégia do momento parece-nos ser a elaboração de projetos e programas possíveis de serem executados a médio e curto prazo.

Principalmente quando se trata de órgão público, cujas metas normalmente fazem parte de um programa de trabalho e um orçamento prévio devidamente aprovado, não há muito segredo em termos de administração. As invenções não fazem sentido, até porque a administração pública é feita dentro de limites bem definidos, a não ser em casos muitos especiais, como calamidades e coisas similares.

E o novo diretor da Ceplac, Jay Wallace, causou boa impressão aos diversos segmentos da cadeia produtiva do cacau do Sul da Bahia. Se antes alguns setores o viam com desconfiança por sua origem fora das fronteiras regionais (é paraense), o conhecimento e a segurança que demonstra em relação aos problemas da Ceplac e da cacauicultura fez ruir barreiras.

É preciso também levar em conta que a indicação de Jay Wallace teve o aval de setores importantes da Ceplac sul baiana e da esmagadora maioria dos políticos do Norte do País, cuja mobilização deveria servir de exemplo para nós (cadê a nossa tão lembrada bancada do cacau?).

E para quem espera uma guinada repentina na atuação da Ceplac, com prioridade maior para médios e grandes produtores (os que restaram), é preciso lembrar que Jay Wallace já teve o cuidado de dizer que a direção do órgão mudou, mas o Governo Federal, não. E disse isso para demonstrar que a instituição seguirá a política agrícola do Governo Lula, fornecendo uma assistência técnica diferenciada à agricultura familiar. Não temos nada contra essa opção, é bom que se diga, mas é preciso entender que a Ceplac, órgão responsável pela extensão e pesquisa do cacau, não pode delegar a renovação da cacauicultura exclusivamente aos produtores.

Competência para isso eles já demonstraram que têm, mas necessitam do desenvolvimento de novas tecnologias, uma atribuição intransferível da Ceplac. Sabemos que as dificuldades enfrentadas pela instituição são muitas: a extensão rural padece de uma crônica escassez de profissionais, sejam eles engenheiros agrônomos, médicos veterinários ou servidores das chamadas atividades-meio. Pela falta deles, inúmeros escritórios locais estão fechados.

O diretor da Ceplac alerta que os métodos de assistência técnica rural mudaram e que hoje não é mais recomendável a forma individualizada de antigamente. Uma realidade já admitida antes, tanto que a própria Ceplac, anos atrás, já adotara essa estratégica criando um setor de comunicação institucional no antigo Departamento de Extensão [hoje Cenex].

À época, destacados profissionais de comunicação do Sul da Bahia foram contratados e formaram, junto com extensionistas, pesquisadores e educadores, a maior rede de comunicação de uma instituição do gênero. Só que o sucateamento do órgão promovido no Governo Collor esfacelou essa importante ferramenta de convencimento e difusão de tecnologia.

Portanto, não há nenhuma novidade nas soluções necessárias para colocar a Ceplac no mesmo nível de eficiência que desfrutou no passado. Mas não bastam apenas bons propósitos e programas factíveis. É preciso, sobretudo, garantir a correta operacionalização dos projetos e programas que vierem a ser elaborados.

Atualmente, talvez a maior carência da Ceplac seja a falta de comprometimento do próprio Estado para com a instituição, renovando seus valores, reativando missões e metas. É o que falta para o órgão atuar eficientemente e voltar a ser visto de forma positiva pela sociedade. Esta não é uma missão impossível e pode ser implementada em tempo relativamente curto, bastando, para tanto, apenas vontade política.

Mas para alcançar tal objetivo é preciso realizar um diagnóstico completo e pôr em prática medidas que contemplem todos os segmentos envolvidos na retomada do desenvolvimento institucional. Não basta privilegiar setores, mas buscar a eficiência de forma holística, através de cada elo da cadeia produtiva.

Uma das primeiras atitudes que deve ser tomada pelo novo diretor é unificar os objetivos e estratégias da pesquisa e extensão rural, principalmente quanto à difusão de tecnologia. Afinadas, por certo as orientações técnicas chegarão ao produtor de forma clara, prontas para serem assimiladas pelos agricultores.

Outra atitude imprescindível é a revitalização da instituição, através de contratação de profissionais para a pesquisa e extensão, o que até agora parece não ter merecido atenção especial do Governo Federal. Sem profissionais com experiência comprovada, não há como executar os programas.

Outro importante ponto, a valorização profissional, não deve se restringir apenas aos pesquisadores e extensionistas [fiscais federais], cuja situação salarial foi revista recentemente e colocada em parâmetros aceitáveis (embora o mesmo não se possa dizer quanto aos profissionais de outras graduações, também imprescindíveis à geração e difusão de tecnologia).

A verdade é que os funcionários da chamada atividade-meio, essenciais para o funcionamento do órgão, ainda não mereceram a devida atenção por parte da direção da Ceplac, permanecendo como uma espécie de “sub-raça de ceplaqueanos”, digamos assim, cujas agruras salariais não sensibilizam ninguém. É preciso que os dirigentes da Ceplac reconheçam que sem o jornalista, o contabilista, a bibliotecária, o motorista, a secretária, o escriturário ou o operário de campo não há pesquisa que apresente resultado, muito menos assistência técnica que atinja o produtor rural. É inadmissível constatar que vários desses funcionários de nível intermediário e auxiliar, mesmo sofrendo de doenças graves como o câncer, sejam obrigados a abrir mão do plano de saúde e mendigar a ajuda de terceiros por não poderem arcar com as mensalidades cobradas pelas seguradoras.

Voltando ao novo momento vivido pela Ceplac: ultrapassada a barreira do regionalismo exacerbado e a condição alienígena do diretor, resta apenas e tão-somente a ele a incumbência de pacificar os ânimos, escolher colaboradores comprometidos com a Ceplac e que não rezem pela cartilha de políticos nefastos. Ao mesmo tempo, espera-se dele a competência para aglutinar apoios políticos dos mais diversos partidos, inclusive da bancada baiana do cacau, a fim de materializar os planos que certamente tem para mudar a Ceplac.

* Radialista, jornalista e advogado

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