CORRIGIR OS RUMOS

Walmir Rosário*

A denúncia de um pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec) sobre o comportamento das plantas fornecedoras de material genético para o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, localizadas na Biofábrica, é mais um motivo para que sejam corrigidos os rumos desse projeto. Essas plantas, que deveriam se transformar nos clones salvadores da cacauicultura baiana, estão altamente infectados pela vassoura-de-bruxa, conforme comprovou o pesquisador.

Mais uma vez queremos alertar que não temos a pretensão de nos transformar em “arauto do caos”, trazendo o pessimismo e notícias nada alentadoras em relação à cacauicultura. Pelo contrário, sistematicamente, temos procurado mostrar as experiências e os resultados positivos alcançados na clonagem de cacaueiros, no sentido de demonstrar que o cacau ainda é um bom negócio. Disso todos são testemunhas.

Entretanto, não podemos ficar calados – temos compromisso com nossos leitores e a comunidade – e esconder fatos que contrariam o bom andamento da recuperação da cacauicultura, principalmente no que toca à defesa dos cacauicultores, que depositam nesse programa todas as suas esperanças. A denúncia formulada pelo pesquisador da Ceplac é séria e deveria ser tornada pública, para o conhecimento dos interessados – os agricultores –, permitindo que eles pudessem obter material genético de outras fontes que não a Biofábrica, onde o número de vassoura de lançamento chega a 500 em algumas plantas, o que é bastante elevado, conforme avaliação dos técnicos.

O aumento vertiginoso do número de vassoura de lançamento é uma comprovação de que o procedimento normal para a multiplicação de material genético não é o centralizado, utilizado atualmente, privilegiando a Biofábrica na distribuição de mudas e garfos, e sim descentralizado, com a implantação de jardins clonais nas diversas fazendas. É preciso que as lideranças e autoridades tomem providências no sentido de mudar os rumos do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, que privilegia o uso de insumos num “pacote fechado”, como se as condições de todas as propriedades fossem iguais.

Entre os diversos erros cometidos no programa, nós, leigos em matéria de agronomia, podemos destacar a centralização como o pior deles, principalmente se levarmos em conta a base genética estreita em que ainda está calcado o programa. O pior disto tudo é que foram rasgadas todas as recomendações contidas nos manuais elaborados pelos técnicos da Ceplac durante mais de 30 anos. Historicamente, o ensinamento da Ceplac era de que as mudas teriam que ser feitas nas fazendas, para evitar uma série de transtornos, entre eles a falta de aclimatação e a interação ao meio ambiente. Será que teremos que jogar fora todo um cabedal de conhecimento adquirido ao longo desse tempo? Ou os técnicos estavam errados?

Pesam ainda contra o programa de distribuição de material genético centralizado, o aspecto econômico, gerando um alto custo no transporte do material genético, acrescido das perdas causadas pela sua transferência da Biofábrica até as fazendas, algumas delas distantes centenas de quilômetros. No caso do transporte de mudas a situação é ainda mais agravada – no momento não se comporta recuperar através das mudas, pois a resposta é a longo prazo –, pois o ideal é a renovação por garfo para a enxertia, nos cacaueiros existentes, mesmo se levando em conta a baixa densidade das roças da região. O adensamento, sim, que deve ser feito concomitantemente, ou posteriormente, por muda, para posterior enxertia.

Também causa muita estranheza o fato de técnicos experientes – os melhores do mundo em culturas tropicais, a exemplo do cacau – não elaborarem e divulgarem um calendário demonstrando as épocas adequadas para a enxertia. É por demais sabido que nos períodos mais frios as plantas ficam em repouso fisiológico, sem circulação de seiva, ou circulação muito lenta, reduzindo em muito o índice de perda da enxertia. Todo esse processo tem um custo bastante elevado para os agricultores, principalmente se levarmos em conta sua descapitalização.

Nessa história de erros e acertos devemos levar em consideração a posição dos pesquisadores da Ceplac em resistir às constantes pressões feitas para liberar imediatamente os clones, frutos das pesquisas. Não devemos “cortar as cabeças” dos técnicos da Ceplac, que desde 1994 se posicionaram contra a distribuição indiscriminada desse material genético. A estratégia dos técnicos é a liberação gradativa, de acordo com o comportamento no meio ambiente.

Porém, diante da pressão de políticos, autoridades e dos próprios agricultores, desesperados pela ação devastadora da vassoura de bruxa nas lavouras, tentaram se “agarrar à primeira tábua da salvação” que lhe aparecesse, os técnicos se sentiram impotentes e iniciaram a distribuição do material genético para a Biofábrica, contrariando os princípios técnicos que indicavam serem os jardins clonais a forma correta dessa distribuição. Resultado: “Entraram na onda” do Estado e CNPq, desconhecedores da realidade local. Mas ainda há tempo de reverter essa realidade.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 10-07-1999

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