COMPETÊNCIA E MARKETING

Walmir Rosário*

Estatísticas e indicadores forram os jornais ao longo dos últimos dias, ao lado das anunciadas medidas de aumento da arrecadação da Previdência, via cobrança de aposentados e de instituições filantrópicas e de novos impostos à vista, inclusive a transformação da CPMF em imposto permanente. Chegam também informações sobre a redução da atividade industrial, da ordem de 9,7% em São Paulo, queda nas vendas, aumento do desemprego e ampliação do deficit externo, que alcança hoje 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior desde a implantação do Real.

Os primeiros estudos sobre as novas regras arrecadadoras, o projeto de reforma tributária que chegou ao Congresso nesta semana, indicam, por exemplo, que a gasolina poderá aumenta em até 26% e lubrificantes em geral em mais de 10,9%.

Diante do cenário pouco animador do país e das perspectivas de forte recessão em 1999, o jornalista Aloysio Biondi indagava na última quinta-feira, por que grande parte da imprensa, ao comentar a saída de parte da equipe econômica, responsável pelo programa de privatização, continuar rasgando elogios aos “técnicos de altíssimo nível” que o governo perdeu por causa dos grampos telefônicos?

Pergunta, Biondi: “Pois aqui vai um desafio a esse colunista. Favor citar um único, unzinho só exemplo de previsão da equipe FHC que se cumpriu, ao longo de quatro anos. Queda das importações? Aumento das exportações? Queda da inadimplência? Redução do desemprego? O Brasil não é a Ásia? Safra agrícola recorde? Crescimento da economia no segundo semestre de 1998? Ora, ora. Os erros da equipe econômica, mês a mês, colocaram o Brasil no buraco. Que ‘competência’ é essa? Qual o objetivo dessa louvação?”, finaliza.

De fato, a mídia brasileira em geral não se cansa em repetir a qualidade e competência da equipe econômica de FHC. Mas, na prática, os fatos demonstram que o buraco em que o país está se metendo é muito preocupante. Tanto pelo crescimento do deficit público quanto pela redução geral da atividade produtiva. Visivelmente, de estagnado, o Brasil caminha para trás. Inclusive tendo que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e armar ajuda internacional de US$ 41 bilhões. Isso é competência?

No Brasil, desde o advento do Real e do surgimento de Fernando Henrique Cardoso como autor da proeza, a mídia – com uma ou outra exceção isolada – sempre esteve em lua de mel com o presidente. Mesmo assim, há poucos dias FHC reclamou da imprensa no episódio dos grampos, e recebeu então, da chamada grande imprensa, forte reprimenda, não sem esta reconhecer que nunca um presidente no Brasil teve tanto apoio e elogios da mídia em geral, quanto ele.

É inegável que o fim das taxas elevadas de inflações e a inserção no mercado consumidor de duas dezenas de brasileiros que se mantinham à margem do processo social provocaram mudanças positivas. Mas o impulso do Plano Real, em vez de proporcionar à equipe econômica a realização das outras etapas – redução do tamanho do Estado, controle de gastos e redução dos deficits públicos, externo e interno – não foi aproveitado. Ou seja, a chamada lição de casa nunca foi feita. De novo o governo anuncia, através do plano de estabilização fiscal e da reforma tributária, disposição em fazê-la.

O que tivemos, portanto, foi uma estratégia de marketing que ocupou o governo em tempo integral. Garantiu a reeleição, mas com os efeitos da crise financeira internacional, jogou o Brasil no buraco. Que se reconheça, todavia, que no buraco e à beira do precipício o país sempre esteve.

Mesmo assim, apesar dos deficits e dos desajustes, o Brasil avança e recua. Se o brilhantismo e a competência do governo fossem o que apregoam, certamente o cenário hoje seria outro. Bem outro.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 05-12-1998

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