COMO ERA BONITA A MINHA ITABUNA!

Walmir Rosário*

Praças bem cuidadas e funcionais. Era assim a Itabuna de antigamente, com logradouros públicos dignos de cartão postal. E eram mesmo e não eram poucas. Essas praças eram retratadas por fotógrafos famosos, a exemplo de Carlos Almada, o conhecido Maxwell, ou ainda, Buião; Alemão; Emerson; J. Carlos; Sabino Primitivo, dentre outros, e enviadas para o mundo inteiro.

Tínhamos orgulho em enviar um cartão postal de Itabuna com a praça Olinto Leone (Jardim da Prefeitura), com sua área pergolada, seus longos bancos em cimento em formas curvilíneas, fonte luminosa com luzes de cores diferentes e jatos d´água em diversas formas de desenho. Orgulho maior, ainda, era participar do passeio nas tardes de sábado e domingo, ou o trottoir, como se falava no bom e costumeiro francês de an

Praça João Pessoa, hoje José Bastos

tigamente.

Como um bom passeio não se faz só com uma boa conversa, poderíamos dar uma chegadinha na Sorveteria Pérgola, de paredes espelhadas e sofás aveludados e macios, dando voltas por todo o espaço. Ali era servido do bom e do melhor, para atender aos mais exigentes paladares, dos itabunenses acostumados aos constantes passeios pelo Rio de Janeiro (capital da República), visitando as badaladas boates e sorveterias de Copacabana.

E o cacau nos proporcionava todas essas condições. Estávamos acostumados a viver do bom e do melhor. Com o passar dos anos, fechou o Itabuna Clube. Mas nem chegou a ser um “choque” para os que dividiam o Jardim da Prefeitura com as bebidas servidas no clube, pois se inaugurou o “Barroco”, que logo se transformou o bar da moda que acomodava a elite e servia chopp bem gelado e petiscos dos mais variados.

Era chic passar as noites dos fins de semana no trottoir do Jardim da Prefeitura. Era lá que tudo acontecia. As moças mais bonitas e disputadas. Os últimos lançamentos da moda, onde se ouvia os últimos sucessos da música em elegantes vitrolas alimentadas por quatro pilhas grandes, os últimos e mais luxuosos lançamentos da Chevrolet, Ford e Willys. Os primeiros DKW Vemag, Dauphines e Gordines se apresentavam ali dando intermináveis voltas, com intermitentes buzinadas.

Praça Olinto Leone

A praça Otávio Mangabeira, até hoje conhecida como praça Camacã (assim mesmo com til) também viveu seus dias de glória. Antes praça conhecida por sediar parques e circos, deu lugar a sede da cultura, com a implantação do Teatro ABC, responsável pela formação de uma geração nas mais diversas formas de linguagens culturais. Infelizmente, foi demolido para dar lugar a um parque infantil e um bar e restaurante.

A verdade é que a praça Otávio Mangabeira viveu seus 15 segundos de fama. Prefeito vai, prefeito vem, engenheiros e arquitetos apresentam projetos mirabolantes, demolindo os equipamentos existentes para a construção de novos, geralmente de gosto e forma duvidosa. Hoje, a praça Camacã foi transformada numa espécie de “Torre de babel”, onde se oferece e vende de tudo, sem qualquer organização do poder público municipal. Até mesmo a fonte luminosa está esfacelada há duas gestões, servindo de criadouros para o mosquito da dengue (Aedes aegypti).

Sorte menor teve a outrora formosa e famosa praça João Pessoa, atual José Bastos. Localizada em frente a Estação Ferroviária, a feira livre e ao Fórum Ruy Barbosa, a praça possuía uma arquitetura que privilegiava as formas e o verde, com plantas (Ficus) moldadas por podas representando diversas figuras e montagens. A praça era o primeiro cartão postal de Itabuna, aquele que deixava impresso na mente do visitante ou do futuro morador quanto era importante e rica.

E era justamente nas imediações da praça que os chegantes desciam do trem de ferro, dos paus de arara (caminhões que faziam o transporte de pessoas) vindos do “norte” (como se chamava o Norte da Bahia, Sergipe e outros estados nordestinos), ou nos ônibus (ou marinetes, como eram conhecidos). Encanto à primeira vista. Que o diga o diretor do Jornal Agora, José Adervan, ao desembarcar por essas bandas por volta de 1951.

Além de bonitas e bem cuidadas, as praças de Itabuna tinha características funcionais, abrigando serviços, só que de forma organizada. Na praça João Pessoa conviviam sem qualquer tipo de conflito com a paisagem das plantas podadas nas formas diferentes os fotógrafos ou retratistas chamados de “lambe-lambe”, devido à técnica de revelação da época que exigia umidade na reprodução e sopro na hora da secagem.

E a serventia da praça se renovava a cada parte do dia. Desde as primeiras horas da manhã chegavam os vendedores de mingau e café para servir o desejum aos passageiros do trem de ferro, dos caminhões e ônibus. Mais tarde os “lambe-lambe”, os vendedores de cocada, os pedintes e os desocupados. Por ali também eram vistos os amigos do alheio, de olho no menor descuido dos passantes para subtrair qualquer bem à vista ou nos bolsos.

À noite, a praça abrigava outros visitantes, estes, os noturnos, bem divergentes dos diurnos, que vendiam outros tipos de mercadoria. No escuro da noite, sob as fracas luzes das lâmpadas colocadas em cima dos postes de ferro fundido trabalhados com desenho em alto-relevo, eis que chegavam as mulheres de vida fácil, conforme os costumes da época, nem sempre politicamente corretos, em busca do amor de aluguel.

Outros personagens que ocupavam a praça todas as noites eram as empregadas (hoje conhecidas como domésticas ou secretárias do lar), antes chamadas pejorativamente de “graxeiras” devido à gordura usada nas cozinhas. Essas vinham em busca de namorados com intenção de casar, constituir família, criar filhos e deixar o emprego na casa dos granfinos.

Como acontece até hoje e deverá durar per saecula saeculorum, nem sempre essas moças resistiam aos encantos dos “gaiatos citadinos” que se desmanchavam com promessas e juras de amor eterno. As falsas promessas, feitas na calada da noite somente eram descobertas após três quatro meses depois, com a mudanças nas curvas do corpo das singelas sonhadoras.

Daquela época até ao presente momento, de vez em quando conhecemos alguém com saudade da beleza da praça, que perdeu a beleza do paisagismo, a originalidade e seus ocupantes. Os estudantes secundaristas e operários que antes frequentavam a praça deram lugar – quem sabe? – aos possíveis filhos e netos que frequentam a faculdade em frente. E quanto ao amor…mudaram os costumes, a forma, mas continua o mesmo.

  • *Radialista, jornalista e advogado

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