COMENDO A PRÓPRIA CARNE

Walmir Rosário*

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, reclama da pressão democraticamente exercida pelos empresários junto ao Congresso Nacional para que deputados e senadores não aprovem, sem modificações, a Medida Provisória 232. Responde o ministro com outra pressão: a de que será obrigado a fazer cortes no Orçamento caso não conte com os tributos previstos na malfadada MP.

Esses jogos de cena, próprio das negociações palacianas de Brasília, chegam a ser cômicos, caso não tivessem o componente trágico e prejudicial à Nação. Releva-se a interesse do Brasil em benefício dos interesses governamentais. Isso é próprio de governo, não só este como todos os outros, cujos gestores acreditam que a expropriação dos contribuintes, via pagamento de tributos, é coisa normalíssima.

Costumeiramente, temos visto notícias de que o setor público, incluídos aí a União, estados e municípios, registrarem superávits primários, batendo recordes de décadas. Mesmo assim (em que pese o duro sacrifício imposto à população), economizando o equivalente a 7,43% do PIB, o governo não conseguiu pagar os juros do período, equivalentes a R$ 12,3 bilhões, ou 8,02% do PIB.

Não resta dúvida de que o Governo Federal, agindo assim, está na contramão da política pregada há anos, a tão famigerada política neoliberal, à custa do sacrifício de milhões de brasileiros. Apesar de em janeiro ter sido o menor déficit registrado desde 91 (R$ 902 milhões), está fartamente demonstrado que as excessivas taxas de juros cobradas não fazem bem à economia do país.

Além do estrago causado nas contas do governo, as altas taxas de juros também dilapidam a parca economia dos brasileiros, notadamente da classe trabalhadora (formal e informal), que precisam adquirir produtos e serviços através de crediário. Ao tentar contratar um produto ou serviço por esse sistema, o consumidor compra, na verdade, dinheiro, hoje um bem não tão escasso, mas de custo caríssimo.

Se para o Governo Federal o pagamento de juros com base na taxa Selic promove enormes rombos no orçamento, imaginem o que faz junto aos pobres mortais, que não têm a mínima capacidade de negociação junto ao contratado. Cá na ponta, junto aos bancos e as empresas financeiras, conhecidas pela prática da agiotagem, os juros se multiplicam por 10, 15 vezes, comprometendo os parcos salários dos trabalhadores.

Do lado do governo leva grande parte dos recursos destinados aos investimentos, que ao contrário de construir casas populares, saneamento básico e dinheiro mais barato para a promoção do desenvolvimento, aumenta o lucro dos gananciosos banqueiros. Se Governo Federal e dinheiro mais barato para a promoção do desenvolvimento, aumenta o lucro dos gananciosos banqueiros. Se o governo, que tem o poder de negociar não o faz, pouco resta ao coitado que vai a uma loja para comprar um fogão ou geladeira.

Enquanto isso acontece com o beneplácito do governo, os números da balança comercial crescem (ou incham) com o crescente saldo das exportações sobre as importações. Nada mais simples do que fazer essa conta: se importamos menos do que exportamos é porque não estamos tendo condições de compra, pois todas nossas necessidades não estão satisfeitas.

Tudo isso nos leva a crer que exportamos mais porque não estamos tendo demanda no mercado interno, resultado da diminuição do poder de compra dos brasileiros assalariados. Mas os nossos governistas do Palácio do Planalto já estão preocupados com isso e, sem perda de tempo, o presidente Lula enviou (discretamente) uma mensagem ao Congresso para proporcionar um aumento aos funcionários públicos federais ativos e inativos de 0,1%.

Do jeito que vai, daqui a alguns anos teremos que reivindicar apenas ao governo que nos deixem pelo menos vivo, já que faz tempo que estamos comendo nossa própria carne.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 02-03-2005

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