CASAMENTO DE COBRA COM JACARÉ

Walmir Rosário*

O Partido dos Trabalhadores (PT), antes uma agremiação integrada por vestais políticas, finalmente foi desnudado e expulso, sem nenhuma cerimônia, do paraíso político e jogado ao purgatório, se aquecendo com o que sobra do fogo dos infernos. Os mais experientes articulistas políticos não conseguem entender as bruscas mudanças tomadas pelos petistas após a tomada do poder, obedecendo ao caminho das urnas, como requer a democracia.

Os pruridos de antes foram apagados da cartilha petista com a maior desfaçatez, eliminando até mesmo um estágio centrista do tipo neoliberal praticado por Fernando Henrique Cardoso e criticado por eles. Não havia tempo para essas formalidades e a guinada foi de 360 graus, até se chegar aos pés do Partido da Frente Liberal, o nefasto PFL de antes, satanizado antes e depois das eleições pelos “companheiros barbudinhos”.

A bem da verdade, Lula e os petistas não conseguiram nem mesmo se juntar ao PFL (a não ser na eleição de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro), mas a um grupo liderado pelo senador Antônio Carlos Magalhães, um tipo de político que depende do poder para viver, como o peixe da água. Os meios utilizados para isso não importam, e sim os fins: promover uma ditadura civil no País, oprimindo a oposição, calando a voz de instituições, prevalecendo o absolutismo.

Aos eleitores resta saber quais os tipos perigosos de vírus ou bactéria que habitam o Planalto Central e contaminam um partido à primeira sentada no Trono Presidencial do Palácio da Alvorada. Em quem o eleitor vai agora acreditar? Nos partidos dos dogmas, da mentira, do esqueçam o que eu disse? É uma dúvida para ser tirada ainda nestas eleições de outubro próximo.

Como acreditar num partido como o PT, que diz explicitamente na sua propaganda eleitoral gratuita que, reeleito Geraldo Simões, a Fundação Marimbeta não vai acabar? Todos sabem que todos os cinco sítios do Menor Trabalhador foram implantados na administração de Ubaldo Dantas, quando era filiado ao PMDB. Durante esses anos nenhum sítio foi incorporado, apesar de a miséria ter sido acentuada na periferia de Itabuna. Portanto, mais uma falácia, como também o é as três ambulâncias do Samu, cujas despesas da festa de entrega, com a presença do ministro da Saúde, Humberto Costa, daria para comprar mais outras 10 ambulâncias.

Outra tática utilizada pelo PT, tanto nos governos como nas campanhas eleitorais é sair na frente atacando pessoas e partidos, sem ética ou piedade, e ainda por cima entulha a Justiça Eleitoral com ações deslavadas e descabidas contra os adversários. Com isso, tenta impedir o trabalho da Justiça, para tentar sair incólume das agressões praticas. Não é honesto, não é ético.

Um partido não pode ter donos, mas perseguir posições definidas. Não deve ser hegemônico e cooptador, mas capaz de fazer alianças visando o benefício da população, governar com os coligados. Um das maiores demonstrações de desprendimento e espírito público foi dado pelo PMDB em Itabuna, ao se coligar com o PSB, mantendo Renato Costa na liderança da chapa, viabilizando uma candidatura com possibilidades reais de vitória.

Exemplos como esse são cada vez mais raros na seara política brasileira, onde os compromissos com a cidade, o estado, a nação, são relegados a segundo plano. Aliás, não é de hoje que o PMDB dá uma aula sobre convivência democrática partidária, abrigando na agremiação filiados das mais diversas tendências – esquerda, centro e direita, com suas subdivisões –, sem a prática de canibalismo entre as determinadas facções.

Na Bahia, o PMDB segue seu rumo, fazendo acordos políticos transparentes, defendendo a moralidade, chegando ao ponto de ter a coragem de cortar a própria carne quando atos espúrios contrários à sua filosofia, como os corriqueiros adesismos. Agir com pragmatismo não é vender a “alma ao satanás”, mas atuar de acordo sua capacidade de liderança na promoção do bem-estar social do povo.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 20-09-2004

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