CARTA DE ADELINDO KFOURY – “HORRIBILE DICTU”

Mês passado, zanzando à-toa pelos corredores de um shopping no Rio de Janeiro ao entrar numa livraria tive atenção despertada para um livro denominado “Por que Mentimos – os fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira”, escrito pelo filósofo americano David Livingstone Smith, nada mais nada menos que diretor do Instituto de Ciência Cognitiva e Psicologia Evolutiva da Universidade de New England.  Apenas por curiosidade comecei folheá-lo, deparando com frases e conceitos tão interessantes que não cedi à tentação de discretamente copiar alguns num pedaço de papel. Hoje encontrando tais rabiscos, vejo-os de certa forma adequados ao que desejo abordar nestas maltraçadas. Em resumo, deixa no ar uma assertiva intrigante, quando afirma a mentira trazer vantagens indiscutíveis, já que se observam os bons mentirosos serem indivíduos mais populares e bem-sucedidos.

Em sua opinião, a Humanidade foi programada para enganar, desde os seus primórdios, seja em defesa própria ou para levar vantagens. E não deixa dúvidas ao citar os políticos como os protótipos mais eloquentes (que realidade triste, meu Deus!) “que mentem por profissão e continuam tendo o ouvido de milhares de pessoas”. Realmente, se dispusermos-nos aprofundar de forma radical, constataremos que vivemos envolvidos num emaranhado de tapeações, onde animais se disfarçam para evitar predadores; vírus enganam sistemas imunológicos, seres humanos escondem-se atrás de falsas aparências; jogadores blefam para vencer seus adversários; combatentes se camuflam para destruir inimigos etc., tudo isso num encadeamento cotidiano. Aliás, nem precisaríamos buscar nos conceitos expendidos em tal livro, para perceber quanto é verdadeira a prática de mentira em torno de nós mesmos. Todos, que somos este ingênuo povão brasileiro, vivemos atolados na mais vergonhosa época de mentiras que, aliás, já vem desde a versão do “descobrimento” do Brasil por Pedro Álvares Cabral, passando pelos relatos sobre o que efetivamente aconteceu às margens do Ipiranga no episódio do grito da Independência envolvendo D. Pedro I, seguindo pela real causa da libertação dos escravos na famosa canetada (com pena de ouro e tudo) da Princesa Izabel, até chegarmos aos tempos dos preclaros presidentes e congressistas que se dizem guardiões da Constituição de nossa Pátria… Até me lembro de já ter lido sobre uma pesquisa feita pelo psicólogo Robert Feldman, lente da Universidade de Massachusetts nos Estados Unidos, provando que as pessoas “contam três mentiras a cada dez minutos”! Claro que eu, pobre escriba grapiúna, posso até avaliar como uma definição muito estreita da mentira, entretanto falha-me autoridade científica onde agarrar. Aliás, nos meus onze anos como Juiz de Paz desta Comarca, talvez tenha sido o período que ouvi maior número de mentiras. Todos os acusados que ali chegavam, via de regra, se diziam injustiçados… Guardadas as devidas proporções, foi uma antecipação das chifrineiras desta negra fase dos mensaleiros, sanguessugas, base-parlamentar-para-governabilidade, etc. da qual somos testemunhas.

No gancho do assunto, meus quasenenhum leitores devem estar curiosos para saber minha opinião sobre quem mente mais, o homem ou a mulher?  Convicto, responderei existir uma perfeita divisão. Ambos se igualam.

Esta conversa toda servirá para esclarecer apenas uma pequena coisa. Soube existirem algumas pessoas, poucas felizmente, que estão se sentindo incomodadas por contestações que venho opondo a versões divulgadas por interessados em se “apoderar” da História de Itabuna, para transformá-la em reserva de mercado destinada a defesa de teses buscando engrossar currículos profissionais. A História não pertence a nenhum de nós, ela é patrimônio da comunidade em geral. Assim, quando alguém busca meus esclarecimentos sobre fatos históricos, invariavelmente faço como Thomas Carlyle: nada de agradar quem quer que seja. Continuarei sentir o dever de combater invencionices, mesmo que de forma “horribile dictu”, ou seja, horrível de dizer.

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Walmir Rosario

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