CARTA DE ADELINDO KFOURY – ESQUECERAM DO VERDADEIRO HERÓI…

Tornamo-nos (ou tornaram-nos?) uma terra árida em relação à sua própria História. Vejo cada vez com maior tristeza um crescente apossamento da autoria de nossas centenárias conquistas, desde quando uma simples clareira, às margens de um encachoeirado rio, até a pujante comunidade do presente. As colunas sociais exaltam personas cujos ancestrais sequer conhecemos e mais que certamente jamais pisaram o visguento barro vermelho das vielas e caminhos de Tabocas. As páginas de nossas gazetas exibem vitoriosos empresários, alguns até ocupando direção de entidades fundadas com sacrifício e idealismo por homens cujos nomes nem sabem. Muitos cargos públicos, via de regra, desfrutados por seres aqui aparecidos sabe-se lá de onde, mas pela “varinha de condão” da política alçados onde o cidadão comum, que moureja anonimamente no trabalho de sol a sol, jamais terá permitido o acesso. Claro que não me falta lucidez para entender que nem “todos daqui” são bons, assim “aqui chegados” necessariamente são ruins. Eu mesmo tenho a satisfação de possuir fraternal amizade com pessoas aqui radicadas, que pelo trabalho e honestidade de propósitos granjearam meu respeito e admiração.

Há poucos dias, através de fartas formas de divulgação tomamos conhecimento da restauração do mural “Saga do Cacau”, concepção plástica do grande artista Genaro de Carvalho, existente numa fachada do Edifício Comendador José Firmino Alves, ou seja, antigo prédio do Banco Econômico da Bahia. Obviamente que não faltaram loas aos responsáveis por tão meritória ação, pois que a isso fizeram jus. Já tratei do assunto por algumas vezes, porém em razão da pequenez do som de minha voz, ninguém levou a sério. O importante é que, graças a São José e ao interesse do conterrâneo Ciro de Matos, a coisa foi feita. E, melhor ainda, usando-se o talento e a perícia técnica de nosso “menino grapiúna” Richard Wagner (ele próprio uma obra prima dos meus sempre queridos amigos Geny e Pedrito Silva…).

Não ouvi – até porque convidado não fui – alguns discursos pronunciados, mas pelo noticiário corrente estou sabendo que graças e louvores foram rendidos ao esperto e competente banqueiro Ângelo Calmon de Sá, bem como autoridades e personas da atualidade, coisa compreensível.

Aquela importante obra de arte, que está ali há 58 anos, segundo bem sentenciou em recente crônica o Mestre Rui Póvoas – contista e poeta dos maiores de nossa geração, a quem admiro muito – “sofreu toda sorte de vilipêndios por mais de 30 anos”. Peço ao ilustre confrade permissão para aduzir ao rol dos tantos vilipêndios mais um, esse na forma de inexplicável omissão… E explico.

Pelo que chegou aos meus cansados ouvidos nenhum dos nobres oradores lembrou contar pelo menos um pedacinho da história daquele painel. Incurável intrometido nas coisas de minha terra, darei algumas pinceladas na esperança de contribuir para conhecimento dos queridos quasenheum leitores.

Nos primórdios da década de 50, mesmo travando contínua “batalha” com o Banco da Bahia, a filial do Banco Econômico liderava o ranking em relação aos muitos concorrentes locais. Aproveitando tal posição, seu gerente em vez de procurar benefícios pessoais buscava junto à Diretoria atrair mais recursos e realizações para Itabuna. Foi assim que aquele estabelecimento de crédito (até desviado da precípua finalidade do comércio de dinheiro) criou o bairro Góes Calmon, inclusive construindo a ponte do mesmo nome. Outra conquista foi o Edifício Comendador José Firmino Alves (com o primeiro elevador em Itabuna) também dotado de painel criado especialmente por Genaro de Carvalho, artista baiano recém-chegado da Europa, sensação na 1ª Bienal de Artes de São Paulo, já consagrado por obras como, por exemplo, um mural em afresco seco no então moderno Hotel da Bahia. Com inauguração marcada para 28 de julho de 1953, em meados de maio as obras estavam praticamente concluídas e porque o material do painel ainda não havia chegado o gerente enviou-me à Salvador para buscar pessoalmente. Viajei num teco-teco pilotado por Fernando Minervino e voltei dois dias depois, trazendo algumas caixas contendo os preciosos azulejos produzidos em seu ateliê de São Paulo pelo famoso ceramista alemão Udo Knoff retratando a obra do grande mestre Genaro, salvo engano na papelada acompanhante batizada como “Saga do Cacau”, fio destas maltraçadas agora.

Logo completada a delicada operação de colocação das peças pelos operários especializados vindos de Salvador, a medieval cabeça deste macróbio ainda guarda lembrança de ter ouvido algumas expressões elogiosas partidas de pessoas eruditas, a exemplo de Dr. Fernando Maron, viajado e culto cidadão itabunense: “não ficamos devendo nada aos murais de Genaro existentes na Fundação Hospital Octávio Mangabeira e no hall da Companhia de Gás da Bahia”.

Depois de tanta conversa, melhor revelar minha verdadeira intenção de fazer justiça àquele que, para este ancião escrevente, foi o verdadeiro herói responsável pela instalação do agora badalado mural, até dispensando a lembrança de outras “benfeitorias” da sua iniciativa pessoal como, por exemplo, a criação de uma linha aérea Itabuna-Salvador-Itabuna (monomotores da Bata); primeiros postos vendendo leite pausterizado na região, etc.

MÁRIO DOS SANTOS PADRE, este o seu nome. Agora descansando nos braços do Senhor, certamente feliz por tudo que realizou aqui, mesmo não sendo filho da terra.

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