CARTA DE ADELINDO KFOURY – HISTÓRIA DE NOSSA PRIMEIRA ESTRADA

Deus concedeu ao ser humano o livre arbítrio que lhe permite acender tantas velas que desejar, porém elas que são de parafina não têm capacidade de sozinhas, acenderem outras. Nós temos possibilidade infinita de multiplicar a luz convidando outros servirem a Comunidade, ação conhecida como “proatividade”. Cidadão proativo é aquela vela acesa por alguém consciente de que não sendo de parafina, diante dos apelos da comunidade onde vive busca desenvolver sua capacidade de ser útil. Sozinho e empunhando uma vela pouco clareamos, porém quando nos juntamos para “acender muitas velas” certamente produziremos um oceano de luz!

Cabelos embranquecendo nas dezenas de anos nesta labuta pela preservação de nossa História, desde quando era coisa vaga ou simplesmente tema para pequenas composições escolares no mês de julho, não oferecendo nenhum retorno em forma de “títulos ou enriquecimento curricular”, eis que recebo convocação do jovem Companheiro Tarso, irrequieto Presidente do querido Rotary Clube de Itabuna, para ajudar na luta para duplicação de nossa BR-415. Sou do milênio passado e sei que envelhecer foi o único meio encontrado para viver mais tempo, porém não me garante “viver por todo tempo”. Muito provavelmente não desfrutarei do que tal obra trará para nossa Região, mas me considero alistado e disposto ao que couber de trabalho. Acredito que inicialmente poderei contribuir revelando um pouco da história dessa que foi nossa primeira estrada regional, construída praticamente pela iniciativa privada, quando o tráfego entre as duas cidades era feito por uma trilha dentro da floresta, utilizada por tropas de animais de carga ou montaria de Coronéis, jagunços, mascates e trabalhadores rurais, além dos andarilhos. Daí que numa conversa entre o advogado itabunense José Nunes da Silva e o Coronel Virgilio Amorim, de Ilhéus, surgiu a idéia de uma estrada ligando o litoral ao interior. Numa reunião em 21 de setembro de 1921 que contou com bom número de convidados, foi decidida a sua execução. Os primeiros trabalhos foram iniciados na Rua da Gameleira, subindo pelo Carrilhos e contornando o morro do Fundão, ao pé do qual foi necessária construção de uma ponte de cimento armado sobre o rio, seguindo traçado até Banco da Vitória. Os recursos financeiros arrecadados entre os fazendeiros, mesmo somados ao despendido pelo Coronel Virgilio Amorim, mostraram-se insuficientes. Foi decidido enviar memorial ao Governo Federal solicitando autorização para fundar uma empresa para assumir a obra. Uma comissão composta pelos dois idealizadores, mais Manoel Fonseca Dórea, Carlos Cavalcante Silveira, Edmundo Vieira, Ilídio Castro, João Garcia e Jaime Pacheco viajou para o Rio de Janeiro (então Capital Federal). No Ministério da Viação e Obras Públicas. Na proposição foi posto que, concluído o trecho ligando as duas cidades, a empresa teria “o privilégio por 50 anos, para ampliação de uma rede rodoviária em toda Região, onde tivesse lavoura cacaueira cultivada”. Após aprovação, lá mesmo na Capital Federal no dia 14 de setembro de 1922, num sobrado à Rua 1º de Março nº29, fizeram uma reunião preparatória para chamada de capital destinado à fundação da S/A Auto Viação Sul Bahiano. Dia 30 daquele mês e no mesmo local foi legalmente constituída, sendo Coronel Virgilio Amorim subscritor do maior número de cotas. Mesmo ainda enfrentando dificuldades, as obras foram reiniciadas. Registram-se várias interrupções, muitas vezes perdendo-se aterros que não resistiam aos pesados aguaceiros comuns nesta região. Veio socorro do Poder Público de Ilhéus, porém alegando 80% do traçado passando pelo seu território, exigia além da sede administrativa na cidade, mais o direito de cobrar pedágio aos veículos que por ali trafegassem no futuro. Em Assembléia Geral realizada dia 13 de setembro de 1925 no prédio de Prefeitura de Ilhéus, foi aprovada a fixação da sede naquela cidade. Também foi eleita a seguinte Diretoria: Presidente: Virgilio Amorim; Secretário, Aureliano Brandão; Gerente: Ilídio Castro; Membros Efetivos do Conselho Fiscal: Tertuliano Guedes Pinho, Antonio Portela e Sabino Costa; Suplentes: João Pedro Leão, Martinho Conceição e Nicodemos Barreto.

Eis que no dia 1º de março de 1928, em meio à grande festa, foi inaugurada pelo Governador Francisco Marques de Góes Calmon que se fez acompanhar de numerosa comitiva. Vale aduzir, por interessante, que naquele dia também foi inaugurada a Ponte Góes Calmon que, embora ligando o centro ao Bairro Conceição, na verdade era o marco zero da futura rodovia Itabuna-Macuco (atual Buerarema). Espaço tivesse, poderia trazer aos queridos quasenheum leitores relatos de extraordinários sacrifícios e atos de heroísmo vividos pelos grapiúnas durante a construção dessa estrada, bem podendo servir como o maior símbolo da união que deverá existir para sempre entre ilheenses e itabunenses!

O “Jornal de Itabuna” na primeira página de sua edição de quarta-feira, dia 4 daquele mês, noticiou “… às 12 horas de segunda-feira desta semana, deram entrada nesta cidade, os primeiros caminhões conduzindo mercadorias para esta praça, pela estrada de rodagem há pouco inaugurada. Foram seis caminhões de propriedade da firma Chagas Martins e Silva, empreza de transportes terrestres. Os carros tinham os seguintes nomes: Jabú, Savois, Pax, Junker, Argos e Gobhan, voltara à tarde levando vários volumes desta cidade”. Bom lembrar que antigamente os caminhões traziam escrito em ambas laterais da carroceria o respectivo “nome” pelo qual se tornavam popularmente conhecidos…

É longa e cheia de muitos episódios edificantes, a história desta rodovia que nós do presente iniciamos uma luta para duplicar. Não tenho a menor dúvida em afirmar que o bom termo desta missão, será a mais eloqüente prova de reconhecimento àqueles heróis que no-la deixaram.

Adelindo Kfoury Silveira, Historiador, Escritor e Jornalista, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador da Fundação Jupará

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Walmir Rosario

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