CARTA DE ADELINDO KFOURY – ATROCIDADES COM A HISTÓRIA

Jamais escondi aos queridos quasenheum leitores, qualquer sentimento em relação à nossa terra. Bons ou ruins. Um longo e-mail recebido instantes atrás, embora que raivosamente discordando de posicionamento deste macróbio escrevente em relação ao que denomino “destruição de patrimônio histórico urbano” (Divina Providência e Casa de Saúde Alberto Barreto) deu-me assunto para estas maltraçadas que por benevolência do Mestre Walmir Rosário aqui aparecem quinzenalmente.

Sobre ambas “atrocidades” manifestei-me recentemente. E para provar que minhas intervenções não obedecem qualquer conotação política ou sentimento pessoal em relação a esta ou aquela administração municipal, permito-me relembrar episódio igualmente triste acontecido em tempos passados.

Por volta de 1881 quando o fundador de Itabuna Coronel José Firmino Alves casou-se com Dona Lucrecia Selman, linda moça descendente de dinamarqueses, resolveu presenteá-la com uma casa em forma de castelo medieval, réplica dos muitos existentes na Dinamarca. E assim fez. A joia arquitetônica chegou aos nossos dias, encastoada bem no centro da cidade, mais precisamente junto à Igreja Matriz de São José, na Praça Olinto Leoni. A igreja desabou por defeitos de construção e voraz ação de cupins, obrigando então a comunidade buscar outro local (hoje erguida na Praça Laura Conceição). Quanto ao castelinho que chegou até nossos dias, foi destruído pela insensatez humana, sob as vistas complacentes das autoridades municipais que sequer tomaram conhecimento de meus constantes apelos em favor do seu tombamento. O saudoso compadre Dr. Corbiniano Alves de Souza Freire, seu ocupante (junto com a família) por muitos anos -também descendente de Coronel Firmino e figura das mais respeitáveis de nossa terra- sempre me prometeu influir junto à família para instalarmos ali o Museu da Cidade, porém a fatalidade o levou prematuramente e não tive mais interlocutores. Sentindo-me sozinho na luta para transformar aquele imóvel num sonhado repositório físico de nossa História, lembro que em ofício à Prefeitura cheguei a expor o resultado de pesquisas que fiz pessoalmente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no sentido de reforçar os argumentos, terminando por inquirir ao chefe de nossa Comuna se um palácio do governo federal foi transformado em museu, o que impediria nosso castelinho ser desapropriado para tal fim? No documento, relembrei aquele prédio ter sido construído pelo Barão de Nova Friburgo para sua residência na metrópole, cujo projeto de linhas clássicas foi feito em 185, pelo arquiteto Carl Friederich. A conclusão de sua construção ocorreu no ano de 1866. Para quem gosta de detalhes, será bom dizer que os proprietários pouco usufruíram, pois o Barão morreu em 1869 e sua esposa no ano seguinte. Passou por herança ao filho Antonio, Conde de São Clemente, que o vendeu em 1890 para a Companhia Grande Hotel Internacional, mas cinco anos depois essa empresa faliu e seus títulos foram adquiridos pelo Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, que posteriormente usou o imóvel para quitar uma dívida com o Banco da República do Brasil (atual Banco do Brasil). Aí sim, nessa época (1897) a sede do governo era no Palácio do Itamaraty no centro do Rio de Janeiro e o então Presidente Prudente de Morais tendo adoecido passou o cargo para o Vice-Presidente Manuel Vitorino que logo tomou a iniciativa de comprar o imóvel por cerca de mil contos de réis e transferiu a sede do governo para lá (e como não era bobo nem nada, mudou-se também…) Assim, no período de 1897 até 1960, ali funcionou a sede de nossa República. O último presidente a ocupá-lo foi Juscelino Kubitscheck que no dia 21 de abril daquele ano transferiu para Brasília a Capital e o Distrito Federal, sendo o prédio transformado no Museu da República como existe até hoje.

Sei que nos tempos presentes não adiantará mais chorar por leite derramado ou a derramar…. Sem querer meter-me em assuntos sobre os quais tomei a decisão de equidistância, apenas a título de instigação aos novos historiadores (que na atualidade são tantos…) permito uma pequena divagação: ali na Rua Miguel Calmon existe uma das poucas construções ainda em pé que também se prestaria a um bom museu…

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Walmir Rosario

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