CARTA DE ADELINDO KFOURY – O DIA QUE “INVADI” A COLÔMBIA

Acho que já dei conta aos queridos quasenheum leitores, porém como não tenho certeza, nada custa relembrar. Nas maltraçadas quando cito datas, locais, nomes, horários etc. é porque recorro a minha coleção de jornais antigos (existe testemunho melhor?) ou apontamentos feitos. Quanto a fatos no desempenho profissional, sempre tive o hábito de registrar em minhas “cadernetas de trabalho” o desenvolvimento das principais ações, pois delas tirava conteúdo para os indispensáveis relatórios oficiais. Isso naturalmente também resultado da habitual transumância de “barnabé convicto” com “historiador incurável”…

Ontem à noite, assistindo noticiário da TV Bandeirantes ao ver reportagem sobre os modernos barcos a jato que atualmente trafegam pelos rios amazônicos, resolvi relembrar como “invadi” um país amigo, numa das minhas aventuras naquela região quando chefiava o Setor de Relações Públicas da Ceplac.

Nunca escondi meu fascínio desde quando pisei solo amazonense pela primeira, assim não carecendo maiores detalhes.

Essa aventura que vou relatar começou numa sexta-feira, 12 de setembro de 1978. Terminara um workshop sobre vassoura-de-bruxa, no qual estive coordenando o apoio logístico aos cientistas internacionais e já me preparava para regressar à Itabuna, quando o saudoso José Haroldo, então Secretário-geral, convocou-me ao seu apartamento (no Hotel Tropical de Manaus, onde estávamos hospedados) e mudou meus planos. Encarregou-me de representá-lo numa importante solenidade a ser realizada, dia seguinte, na cidade de Boa Vista, distante dali cerca de 600 quilômetros.

No meio da manhã, a bordo de um pequeno avião que fretei no aeroporto, já sobrevoava o imenso oceano verde de floresta, rumo ao Estado de Roraima. O piloto que era muito gordo, de movimentos lentos, olhar frio e vago, mantinha silencia absoluto, vez por outra puxando um cochilo tão profundo que até roncava. Este pobre macróbio escrevente, que sempre teve pavor de avião pequeno, preferia mesmo permanecer encolhido no assento de trás, com os olhos fechados. Vocês não vão acreditar o que vou revelar: só após algum tempo de voo percebi que uma das portas do aparelho estava trancada simplesmente com.. fio de.arame! Como as distâncias entre as cidades amazônicas são imensas, sempre foi comum utilização de pequenos aviões empregados no serviço de táxi, pois além deles só o transporte fluvial que tem o inconveniente da lentidão. Estradas, naqueles tempos e acho que ainda hoje, nem pensar, porque durante muitos meses do ano se transformam num lamaçal terrível. Talvez por ser uma atividade tão natural, pelo menos naqueles tempos os pilotos relaxavam nas manutenções dos seus aparelhos, muitos comumente até “clandestinos”.

Nas imediações do aeroporto postavam-se muitos agenciadores de fretamento aéreo. Ainda sem muita experiência na contratação daquele tipo de serviço, aceitei a indicação do primeiro que me abordou, após regatear o preço buscando economizar os recursos oficiais (coisa tão fora de moda atualmente…). Fui informado pelo piloto que o voo necessitaria de uma aterrissagem para reabastecimento, após a qual chegaríamos ao destino antes do meio dia. Na verdade, descemos numa pista de terra à margem do Rio Negro que, segundo o piloto, seria perto da localidade de Barcelos. Alguns homens louros se aproximaram do avião e acho que cuidaram do tal reabastecimento. Causou-me uma estranha sensação perceber que todos se comunicavam em alemão, podendo ser vista tremulando no telhado de um galpão uma bandeira da Alemanha.

Detalhe importante precisa ser ressaltado. Naquela região, formam-se grandes tempestades em questão de minutos. Assim que decolamos, entramos em densas nuvens que impossibilitavam totalmente enxergar por onde estávamos indo. Água intensa batendo com força na fuselagem e janelas faziam a pequena aeronave balançar loucamente, subindo e descendo aos solavancos. Muito mais apavorado fiquei quando ouvi o piloto resmungar que a coisa estava preta. Naqueles ermos,uma das maneiras mais habituais de assegurar por onde trafegam, era seguir o curso dos rios existentes. Eu percebia que ele tentava baixar o mais possível, buscando visualizar algum deles. Olhos fechados, encolhido e naturalmente tremendo muito, confesso que não tive qualquer ânimo de estabelecer o tempo, que para mim foram séculos até ouvir o grito do gorducho dizendo que podia enxergar o Rio Uialã, perto do Monte Caburaí. Só que estávamos no extremo norte brasileiro… e então aconteceu o clímax desta aventura. Na verdade ele pensou que estava seguindo o curso do Rio Branco, mas na verdade prosseguia sobre o Rio Negro e só ao conseguir pousar perto de uma clareira, onde estavam pessoas vestindo uma espécie de uniforme militar e falando espanhol, percebeu que simplesmente além de invadir o espaço aéreo da Colômbia sem autorização oficial, aqueles homens eram membros das FARC escondidos…

Felizmente o temporal amainou e levantamos vôo, já agora seguros de estar sobrevoando mesmo o Rio Negro, rumando para a cidade brasileira de Barcelos onde buscamos reabastecimento, porém infelizmente lá não conseguimos. Adiante quando em rápido sobrevôo atingimos uma vila de garimpeiros na confluência dos rios Uracoera e Tacutu, distante uns 30 quilômetros de Rio Branco, onde “pedi um tempo” ao piloto para descer, esticar as pernas e abrir a maleta para trocar de calça… Dali sim, praticamente em linha reta, seguimos para Rio Branco, quando uma noite muito escura cobria a misteriosa floresta amazônica.

Pensam que minha desdita terminou ali? Qual nada. Naquele tempo – bem diferente do agora- dinheiro público era coisa sagrada, sobretudo para nós da Ceplac. Porque contratei (mesmo de boa-fé) serviço de quem não exercia atividade legalmente permitida, o valor do fretamento daquele malfadado taxi-aéreo não foi aceito na minha prestação de contas. Além de tanto sofrimento, ainda “chiei” em três mil cruzeiros e fui gozado pelo querido colega Ornam Serapião, zeloso xerife das prestações de contas do pessoal da Direg…

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Walmir Rosario

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