CARTA DE ADELINDO KFOURY – UM  FATO  REPUGNANTE

Os queridos quasenheum leitores conhecem que o verdadeiro sentido destas maltraçadas sabáticas, além de procurar transmitir na ótica do meu entendimento o resultado de pesquisas sobre a História desta Região, também busco dividir as sensações mais fortes vividas durante a semana. O mais gratificante para compensar todo esforço, consiste imaginar contar com um (ou vários, quem sabe…) pé de ouvido para desabafar, pois nada se compara ao conforto de um interlocutor receptivo. Aliás, tal mania não é apenas minha, pois, como revelam alguns historiadores, também uma das “fraquezas” do General Patton, grande herói americano vencedor de tantas batalhas durante a Segunda Guerra Mundial, que sempre repetia “o melhor da conquista é ter alguém que se disponha ouvir contá-la”. Acostumei meter-me em enrascadas, abordando episódios que mais das vezes chegam produzir dúvidas a ponto de choverem e-mails. Não me acho no direito de enclausurar a História, daí que prefiro falar sobre coisas inusitadas, porque as corriqueiras todos conhecem. Aprendi com leituras do padre italiano Ernesto Balducci que o homem é sempre produto de uma determinada cultura. Somos diferentes conforme as culturas em que nascemos, ou seja, ela é como um segundo útero que nos gera.

Semana passada, dei palestra para jovens em bairro dos mais violentos de Salvador. Quando a platéia é só masculina aproveito tais momentos para reforçar a ideia de que as forças armadas despertam grande sentimento de amor à Pátria e quem já fez o serviço militar pode considerar-se brasileiro de fato… Um rapaz barbudo estranhou “então aqui ninguém é brasileiro nato, professor?” Na verdade, infelizmente nenhum deles tivera oportunidade de passar por qualquer unidade militar. Fiquei triste com a resposta. Claro que usei metáfora de forma um tanto exagerada, apenas porque desejava despertar-lhes interesse pela forja de patriotismo que são as forças armadas, cujo serviço jamais poderá ser confundido como uma “corveia” (trabalho gratuito que no tempo do feudalismo os camponeses eram obrigados prestar ao soberano).

Buscando na televisão um pequeno alívio para as sensações de vômito provocadas pelo atual cenário político-administrativo nacional, infelizmente deparei-me com a divulgação de um dos mais vergonhosos atos que poderia imaginar, praticado por seis cafajestes envergando a farda do Exército Brasileiro!  Ao som do Hino Nacional, contorciam-se de forma obscena como numa dança punk! E pior ainda, dentro de uma dependência militar. Nossa Carta Magna, no Parágrafo 1º do seu Artigo 13, diz claramente que “são símbolos da República Federativa do Brasil a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais”. Quando estudei antropologia, fui ensinado que o “o Homem é um ser inteligente e livre, devendo harmonicamente balizar seus ímpetos, porém a liberdade pode induzi-lo agir irracionalmente”, mesmo assim não aceito que ações tão canalhas possam ser justificadas por tal princípio. Caso venham responder algum processo –coisa que duvido no estágio ao qual nossa pátria foi levada por quem perdeu a guerra na revolução de 64, mas está vitorioso na guerra cultural- certamente aparecerão defensores buscando o tradicional “jeitinho brasileiro” dizendo que não houve intenção de mácula ao nosso símbolo…  mas a História não registra intenções, somente fatos!

Desde cedo convivi com militarismo, sobretudo porque sentia orgulho ao ver meu pai fardado como sargento do Tiro de Guerra 473. Ele e os colegas também sargentos Simões, Habib e Dória (sim, o saudoso Major Dória) sempre se reuniam lá em casa, após os períodos de instrução aos atiradores. Durante toda a vida coloquei o amor à Pátria como absoluta característica de quem deseja ser um cidadão, sentimento  que foi reforçado de maneira definitiva após absorver os ensinamentos emanados da Escola Superior de Guerra.

Aproveito para lembrar episódio ocorrido durante uma parada cívica em comemoração ao Sete de Setembro. Eu ainda criança estava agarrado à corda de isolamento na Rua Seabra, quando o Tiro de Guerra passava tendo na frente garbosa Guarda de Honra conduzindo a bandeira brasileira, Sargento Dória saiu da formação e com um forte golpe de espada derrubou o chapéu que um homem tinha na cabeça, gritando para ele descobrir-se em respeito ao pavilhão nacional.Os circunstantes explodiram estridente salva de palmas.

Vejo com muita inquietude a influência da globalização onde não se delimita pátria, fenômeno de dimensão planetária sendo absorvido incautamente até com certa volúpia por nossos brasileiros jovens.  Não estou declarando guerra ao que é moderno, mas sugerindo prudência diante do descompasso que está existindo entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento humano. Sem pretensão a conselheiro, move-me apenas o desejo de alertar os jovens de meu país para que, diante de exemplos tão indignos como a desastrada “dança” daqueles mamolengos, fiquem sempre em posição de alerta contra atos inadequados à inteligência e dignidade daqueles que somos os filhos de uma nação soberana. Afinal de contas, pátria não é só a extensão de um território, mas –no seu conceito estrutural- nossa família ampliada.

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Walmir Rosario

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