CARTA DE ADELINDO KFOURY – NA ESPERANÇA DE SER OUVIDO…

Sempre tive com nossas autoridades uma relação respeitosa por dever de cidadão e cooperativa pela disponibilidade em servir nas causas comunais, isso algumas vezes até evoluindo para amizade pessoal.  Bom frisar, entretanto, em se tratando de prefeitos nunca foi meu hábito frequentar seus gabinetes, durante toda minha vida só o fazendo apenas oito vezes nas seguintes datas: 9-2-54 (despedidas de meu tio Miguel Moreira); 6-10-59 (pedindo tombamento da primeira casa de Itabuna, construída por Felix Severino); 1-4-60 (reunião sobre Cinquentenário, com José Alcântara); 1-2-73 (posse do compadre Dr. José Oduque). Quanto ao atual prefeito a primeira visita fui levado pelo caro amigo Walmir Rosário então Secretário Municipal, porque sua excelência desejava conhecer-me e, em 29-7-2010, na inauguração da galeria com fotos de ex-prefeitos.  Jamais permiti que eventuais divergências ideológicas impedissem qualquer diálogo e o faço por ética, supondo que ninguém é dono da verdade, muito menos este macróbio escrevente. Sempre manifesto o prazer que tive em conhecer pessoalmente o Capitão Azevedo, cativando-me como pessoa simples e cordial. Também a partir daqueles dias fui premiado pela oportunidade de conhecer e – permitam o vanglorio – somar às minhas amizades mais caras, dois cidadãos de virtudes positivas: professores Ivann Montenegro e Gustavo Lisboa, ambos secretários municipais, creio que ainda exercendo o munus público.

O desprezo aos valores domésticos produz decomposição da História que é tecido fiado pela vida comunal. Permitir esgarçá-los resulta prejuízo irreparável. Daí o atrevimento de usar deste espaço, único meio que disponho para tentar seja ouvida minha voz. Não teria cabimento fazer rol da permanente prontidão sempre que sou acionado, mas poderá valer como emblemático o nosso Centenário. Os queridos quasenheum leitores testemunharam o que fiz a partir desde alguns anos antecedentes buscando contribuir para uma comemoração a altura de tão marcante evento. E até aproveito para uma pequena reflexão sobre isso, embora coisa já do passado. Fui muito cobrado para integrar a Comissão Oficial (e até mesmo presidi-la…). Questão de ética fez manter-me à distância, pois sempre entendi o assunto pertinente exclusivamente à Prefeitura. Por amor à Itabuna, escondi de mim mesmo as rejeições subterrâneas ao meu nome por parte de alguns membros, alguns até velhos amigos… Entretanto, quando convocado formalmente apresentei-me porque minha terra é maior que todos nós e cargos, como mandatos, são transitórios. Durante toda semana festiva, colaborei como pude e por opção própria sem receber um centavo de remuneração (ao contrário de muitos que “trabalharam” nos diversos eventos).

Todos esses prolegômenos acima estão servindo para conversar um pouco sobre assunto que parece não estar despertando (como devia!) a atenção dos itabunenses: demolição do prédio construído à custa da algibeira de nosso povo, pela respeitável e veneranda Sociedade São Vicente de Paula, para abrigar o Ginásio Divina Providência, caso que não deve ser encarado apenas pelo seu aspecto material, mas também se levando em conta o imaterial.

Sem falsa modéstia  – que todos sabemos ser a nulidade dos talentos e o talento das nulidades, como ensinam os grandes filósofos – se existe uma história de Itabuna consolidada, em boa parte é resultado dos mais de 50 anos que a ela dediquei exaustivas pesquisas absolutamente por conta própria e sem ajuda de quaisquer entidades oficiais ou particulares. Daí que eu mesmo “outorgo-me” o direito do esperneio…

Estas maltraçadas são digitadas com certa antecedência, daí quando (se) por acaso Sua Excelência estiver lendo-as, muito provavelmente só restem poeira e escombros do prédio. Naturalmente que isso não será nenhuma novidade, pois o exemplo vem de longe. A administração pública através do tempo tem fechado os olhos à destruição do que nas cidades civilizadas chama-se patrimônio histórico. Lembro da minha primeira “intervenção” na tentativa de preservar inestimável relíquia que era a primeira casa desta terra, construída pelo desbravador Felix Severino, existente no bairro Góis Calmon, início da avenida Félix Mendonça e visitei o Prefeito de então lhe suplicando fazer seu tombamento, porém possivelmente imaginando que tombar seria derrubar (!) o imóvel foi destruído em nome do progresso… Daí para frente, a lista tem crescido: púlpito público na praça Adami (réplica de um existente em Paris); prédio residencial de Basílio Oliveira; “castelinho” da praça Olinto Leoni; antigo depósito de Cel. Firmino Alves e depois primeira Agência dos Correios; prédio onde foi instalada a Comarca de Itabuna; Padaria Universal; casa da primeira Prefeitura e ali realizada sessão solene de instalação do Município, etc. Seria cansativo ficar relacionando ou relembrando atos tão constrangedores, que apenas magoa quem aqui nasceu ou adotou esta terra como sua pátria grapiúna.

Constantemente tenho alertado (possivelmente em vão) que uma cidade se faz com trabalho e muito amor. Sei que recebo muitas críticas porque não escondo meu receio de que Itabuna embora uma comunidade progressista, de gigantismo crescente, está perdendo as características especiais que a humanizam, perigosamente correndo risco de tornar-se uma espécie de Cartago e virar apenas um próspero mercado de compra e venda, onde os interesses materiais e políticos esmagam os fiambres da comunidade ligada por laços afetivos que herdamos de nossos antepassados.

De minha parte, garanto que estou pingando o ponto final no assunto.

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Walmir Rosario

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