CARTA DE ADELINDO KFOURY – QUERIDA SOBRINHA KITIANA

CARTA DE ADELINDO KFOURY – QUERIDA SOBRINHA KITIANA

…a folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais frágil. Havia sempre frio e a neve pesava sobre ela. E quando amanheceu veio o vento que arrancou a folha de seu galho. Não doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito serena.E, enquanto caía, viu a árvore inteira pela primeira vez.Como era forte e firme! Teve a certeza de que a árvore viveria por muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida. E isso deixou-a orgulhosa. A folha pousou num monte de neve.Estava macio e aconchegante.Naquela nova posição, a folha estava mais confortável do que jamais se sentira. Fechou os olhos e adormeceu. Não sabia que a folha que fora, seca e aparentemente inútil, se ajuntaria com água e serviria para tornar a árvore mais forte. E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas na primavera.”

Carta de jornalista é o espaço onde escreve. Peço licença ao mestre Rosário, competente “xerife” deste Blog, para dirigir minha coluna de hoje à querida sobrinha KITIANA CARVALHO PACHÊCO, concluinte do Curso de Enfermagem pela Uesc. Porque momentânea impossibilidade física impede-me presenciar sua formatura, busquei para levar meu beijo e paternal abraço o belo trecho transcrito acima (hoje encontrado entre os e-mails recebidos dos queridos quasenheum leitores).

Confesso que sinto grande dificuldade para expressar aquilo que gostaria. Sua formatura tem um significado muito especial, porque encerra episódios de grandeza humana. Todos testemunhamos a maneira heroica como sua mãe Cristina, enfrentando as agruras de uma viuvez precoce, exercendo atividades honestas -mesmo que humildes- mercê de Deus soube conduzir você e seus irmãos pelos caminhos do bem.

Este seu velho tio entre orgulhoso e alegre atreve-se a conselhos que talvez nem precise, consciente como é da seriedade do múnus que vai exercer. Você, assim como seus colegas, estão trocando os ruidosos e alegres corredores da Faculdade, pelas silenciosas e austeras alas dos nosocômios. Nelas haverá de deparar-se com a realidade dos sofrimentos e das esperanças. Muitos seres humanos certamente dependerão dos seus cuidados completando a ação profissional dos médicos. Em algum momento haverá de deparar-se com a cruel face de uma realidade que infelizmente existe no Brasil de hoje: irmãos nossos amontoados nas dependências das emergências, verdadeiros excluídos que não vêem diferença com o lixão onde vivem, mas ali permanecem na esperança de socorro, tentando fugir da morte. Sei que eles contarão com sua compaixão e fraterno atendimento. Você e seus colegas, nas austeras salas de cirurgia, diuturnamente também serão partícipes colaboradores da luta ingente dos médicos pela salvação de vidas. Veja em cada paciente, um ser criado por Deus e nesses momentos confiado aos seus cuidados. Jamais faça distinção entre pacientes ricos ou pobres, porque na acepção do sentido, somos todos irmãos. Tenha sempre consciência de que sua profissão, sendo um verdadeiro sacerdócio, exige a mais absoluta conduta ética. Uma coisa é discussão acadêmica e filosófica sobre ética; outra é a responsabilidade moral de praticá-la na inteireza de nossos atos. Não se deixe abater pelos tristes noticiários recorrentes, quando são flagradas verdadeiras quadrilhas desviando fabulosas somas de recursos financeiros que saem dos cofres públicos e deveriam ser destinados à saúde. Um dia isso haverá de ter fim. O que jamais poderá desaparecer é a prática heroica –divina, até!- da Enfermagem, verdadeiro sacerdócio ao qual você e seus colegas acabam de assumir. Vejo-os como aquelas folhas saídas da árvore, que ao contrário de morrer se transformam em seiva contributiva ao surgimento de novas vidas.

Assim, deixo aqui o melhor presente que poderia lhe oferecer usando matéria-prima que uso no labor diário, retirado do âmago de meu coração (e que na Bíblia encontramos grafada por 1.346 vezes, desde o Gênesis até o Apocalipse): a palavra.

Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor Grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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