CARTA DE ADELINDO KFOURI – PALORANDO DE MULHER

Maldosos nós homens, haverá quem vá ao dicionário buscar algum sentido pejorativo no título, porém sei que as mulheres, gênero humano bem mais centrado, captarão que usando o transitivo indireto do verbo palorar, estou desejando homenageá-las pelo 8 de março, embora que para mim sejam merecedoras todos os dias, semanas, meses, anos, séculos, milênios etc. Extraordinária é a historia da Mulher. Nos primórdios da Humanidade, apenas fêmea destinada a conceber,
parir, alimentar e criar filhos. Começos do Século XVII, as mulheres baianas sofriam das mesmas restrições impostas às europeias, sobretudo portuguesas, resguardadas de tal maneira que aquelas de famílias nobres só saiam de casa três vezes durante a vida – casamento, batismo e enterro – embora quando casadas abrindo-se uma exceção: poderiam ir à missa, porém tendo a cabeça e o
rostos cobertos por véus pretos, transportadas pelas serpentinas ou cadeiras fechadas.

Foi na cidade de Salvador que as primeiras mulheres brancas chegaram ao Brasil, destinadas a constituir lar do modelo português nos trópicos, atribuindo-se aos esforços de Manoel da Nóbrega. Índias e escravas foram primeiras mulheres do Brasil, consideradas seres inferiores, simples amásias dos homens de armas, desprotegidas, sem nenhuma troca social ou econômica que não o seu corpo e a faina doméstica. O escritor Miguel de Cervantes comparou a “América espanhola” aos primeiros colonizadores da “América portuguesa” …“ali é o santuário dos falidos, a salvação dos assassinos, a saída para os trapaceiros, a terra prometida para as senhoras de virtude fácil”… Graças aos esforços do jesuíta Manuel da Nóbrega começaram chegar as primeiras donzelas portuguesas “com pequenos dotes mas já se configura a importância social e econômica do matrimonio”. Quem conhece História sabe quem foram as “órfãs da Rainha” (moças pobres acolhidas pela Rainha de Portugal, que após prepará-las para casa, entregava-lhes pequenos dotes enviando-as para o Brasil afim de formar famílias bem estruturadas). Já em fins do Século XVII o volume de donzelas casadoiras excedia o número de homens disponíveis. Ainda naquele tempo, uma das “prendas” que filhas de família abastada levavam ao casar, consistia em algumas escravas para trabalhos caseiros, cujos filhos eram tratados como animais domésticos. A mulher de elite paradoxalmente integrava uma das camadas da sociedade mais cerceadas em vários aspectos, pois até seu casamento era instrumento negociável. Só o patriarca da família escolhia noivo, impondo condições, seguindo ditames da religião católica aos quais ela jamais poderia fugir. Outro detalhe triste: nem precisaria ler e escrever sendo obrigatório apenas lidar na cozinha, conhecer receitas de doces, bordar, coser, podendo completar com o pendor para canto e música… Eram proibidas de aparecer às visitas masculinas feitas ou recebidas pelos maridos. Só assistam missa através de treliças. O maior dote registrado em escrituras da época colonial na Bahia foi o recebido por Gonçalo Marinho Falcão, da parte de seu tio Antonio Marinho Falcão, para casar com sua prima Maria Ana Rita de Menezes. De certa forma, isso tem um pouco a ver com a história nossa cidade…

Graças a Deus em nossos dias tem prevalecido a idéia da igualdade dos sexos, embora que necessários alguns séculos para chegarmos à conclusão de que a Mulher não é inferior nem igual ao Homem, mas sim diferente. A beleza masculina é um elemento capaz de despertar o interesse das mulheres, mas é fato também que existe enorme diferença entre despertar interesse e provocar desejo. É Freud quem explica: isso é de natureza biológica, transportando para a zona de visão aquilo que nas outras espécies de mamíferos seria da olfação… Não vejo necessidade de estudar a Mulher tomando como referência nós homens. Um detalhe interessante é que todas as idéias sobre as mulheres foram através de séculos elaboradas por homens, daí que muitos conceitos estarão eivados de parcialidade e se por muitos anos sempre coube aos homens a iniciativa da abordagem, na atualidade estamos vendo completa inversão de ação, sendo comum mulheres partirem para conquistar aqueles que lhes despertam o desejo. Saindo do campo biológico, veremos que aquelas condições humilhantes de submissão cederam espaço para conquistas extraordinárias: existem mulheres médicas, cientistas, astronautas, presidentes de república, senadoras, embaixadoras, prefeitas, vereadoras, juízas, jogadoras de futebol, boxeadoras… Na guerra igualam-se aos soldados em atos de bravura, coragem e… até crueldades. Onde se fizer necessária presença da ação de um ser humano, sempre poderemos encontrar mulheres competindo com os homens, mais das vezes até superando-os. Causa-me espanto, entretanto, ainda não existirem mulheres papas, padres ou maçons…

E para concluir lembrarei que por ser tão especial, a Mulher foi escolhida por Deus para oferecer Seu Filho ao mundo.

Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor Grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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