CARTA DE ADELINDO KFOURY – “PUBLIUS  SULPICIOS  QUIRINOS”

Graças ao milagre da Internet, minhas insossas maltraçadas chegam a todos quadrantes do Planeta Terra, aumentando o número de queridos quasenheum leitores. Mercê de Deus, muitos se transformam em amigos. Poderia citar, entre tantos, conterrâneos residentes em Dallas (USA) denominados “The itabunense brazilian’s colony”; Carlyon Smitht, (Londres); Jornalista Kárlory (Hungria); Ernesto Sandenelli (Serra da Leoa); Emmanoel Oliveira (Lisboa); etc. e muito especialmente Luiz Amaral, grapiúna de Ilhéus, famoso jornalista com passagem pelos maiores jornais brasileiros além de Voz da América (Washington), Emissora Nacional Suíça (Berna), autor de obras sobre jornalismo adotadas em vários países, atualmente gozando merecida aposentadoria lá nos States…cujos habituais comentários trazem-me grande estímulo.

Não seja tomada como gabolice a revelação acima, pois minha intenção é apenas justificar o não atendimento a sugestão da “turminha de Dallas” para fazeruma retrospectiva dos principais fatos aqui ocorridos em 2011.

Espero não frustrá-los. Em matéria de jornalismo, considero o fim-da-picada. Para que retrospectir aquilo já batido e repisado durante os 365 dias do ano que se foi?  No aninho de 2011 só faltamos ver chover para cima, pois aconteceu de tudo, confirmando a proficiência brasileira em três coisas: futebol (jovens das favelas dividindo sua admiração entre os líderes do tráfico e os do futebol), carnaval (escolas de samba cada vez mais exuberantes (que triste espetáculo na apuração de São Paulo!) e escolas primárias cada vez mais deficientes) e busca de bodes expiatórios para as safadezas políticas (de bengaladas cívicas invocando Friston de Cervantes até juramento de inocência sobre tudo que se passa em sua volta por aquele que não é portador de polidactilia –como diria minha judiciosa madrinha Mãe Zeca, “pra bom entendedor meia palavra basta”)  e nem adianta querer tapar o sol com a peneira pois a culpa é nossa mesmo, quando exaltamos os bady-boys e suas atividades, que terminam vistos como heróis, impunes e sedutores vilões.

Em meados do século passado – nada como de ter vivido em dois séculos, como eu que passei pelo XX e continuo no XXI – fazia estágio no “Jornal de São Paulo”,  pertencente à família do governador Adhemar de Barros, quando na reunião de pauta para a edição de 31 de dezembro de 1949 fui escalado para redigir uma parte da retrospectiva geral daquele ano. Após meu turno, deixei sobre a mesa do Redator -Chefe uma crônica intitulada “Publius Sulpicius Quirinus” na qual relembrava que no ano 12 AC foi proclamado Cônsul da cidade de Sentio Saturnino então ainda legado da Síria, aquele soldado vigoroso, disciplinado e portador de coragem fora do comum, tendo se distinguido na luta contra os homonadenses na Cilícia, lá pelas bandas do sudeste da Ásia Menor. Fato curioso de tal episódio é que ele venceu após cortar toda possibilidade de recebimento de mantimentos pelos adversários fazendo cerca de quatro mil prisioneiros, todos homens, logo deportados como escravos para seu rei, ficando assim as mulheres daquela região sem nenhuma possibilidade de procriar. Também passou à História como responsável pela conclusão do apotímesis tou desmou, ou seja, censo de pessoas para exigência do serviço militar e de propriedades para cobrança de impostos, iniciado 14 anos antes por Saturnino. Sabemos que o primeiro recenseamento de César foi em 28 a.C, após 749 anos da fundação de Roma. A baboseira que produzi como uma espécie de protesto carregado de ironia ia mais longe, mas vou poupá-los da transcrição que ainda guardo junto aos documentos da minha iniciação no jornalismo. Para encurtar a conversa, posso apenas lembrar-lhes da “frase de fechamento” que escolhi para a matéria: “não são os fatos em si que perturbam o ser humano, mas a interpretação que ele faz dos fatos como deixou dito Epictetus. Aqui prá nós, copiada do “Almanack Capivarol 1949”, oferta da Botica Ao Veado de Ouro, centenária farmácia localizada na Rua São Bento e providencial fonte do miraculoso polvilho  exterminador daqueles incômodos anopluros pediculídeos, cientificamente denominados de Phthirius pubi, que nós jovens chamávamos mesmo de “chato”.  Vocês perceberam que, mesmo ainda um frangote metido a idealista, recusei repetir tal pantomima tautológica como faziam (continuam fazendo) jornais e revistas. Sabia que outros anos chegariam aos seus 31 de dezembro, mas as coisas continuariam na mesma. No mínimo, imaginava já naquela época, que em algum tempo no futuro como pequena novidade de fim de ano, se poderia relembrar que na América do Sul existiu um país independente, próspero e dono da mais bonita e rica floresta do mundo, conhecida por Amazônia… Dia seguinte, ainda na Portaria recebi ordens para devolver o crachá e passar direto pelo Departamento do Pessoal. Essa, como foi a primeira derrapada, contei com a compreensão de Seu Cardoso (velho baiano manso e paciente chefe de reportagens). Na segunda que aprontei, e ainda relatarei para vocês não houve perdão: a porta da rua foi mesmo serventia da casa.

Decorridos cinco anos, mais precisamente em fevereiro de 1954, já atuando nos Diários Associados da Bahia, tive oportunidade de ler um documento histórico que em certo trecho clamava contra “o clima de negociatas, desfalques e malversações de verbas vem, nos últimos tempos, envolvendo o país”. Era o famoso Manifesto dos Coronéis. Seis meses depois Vargas se matou…

Sessenta e dois anos se passaram e no dia 31 de dezembro de 2011 li na capa de uma revista que “Descoberta de Ministros desonestos, corrupção oficial e falcatruas enlamearam o país neste ano que termina”. A única diferença de uma notícia para outra, de um tempo para o outro, é que desta vez ninguém será punido e muito menos se matará…

Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor Grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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