CARTA DE ADELINDO KFOURY – 2012, COMEÇANDO…

De repente, descubro que já estou em 2012. No alvoroço do dia-a-dia, quase nem percebemos o tempo passar, mas “tempo” é coisa muito séria. Nos primórdios da civilização, os povos criavam seus calendários, havendo anos de 12 e até 13 meses. Os babilônios, por exemplo, enxertavam meses apenas para ficarem de acordo com as fases do sol e da lua. Os egípcios até inventaram um calendário no qual o ano tinha 365 dias. O “calendário juliano” foi uma armação dos romanos sob o império de Júlio César, quando se conta aquela história de um tal Sosígenes mudando o mês quintilis para julius (atual julho) puxando o saco do Imperador, não ficando atrás o próprio Senado quando também deu sua “puxadinha” no Imperador Augusto transformando o mês sextilis em augustus (nosso manjado agosto)… Coube ao Papa Gregório XIII, em 1582, corrigir a diferença entre o sol e o calendário juliano, quando decretou a adoção do calendário gregoriano, paulatinamente seguido pelas nações, última das quais a Turquia se não me falha a memória.

Creio pouca gente se importará lembrar que numa conferência mundial realizada em 13 de outubro de 1884 por necessidades políticas e territoriais delegados de 25 nações criaram o Meridiano de Greenwich, oficializado como marco zero do tempo, considerando grande conquista do homem sobre o meio ambiente, ou de acordo com o mancheteado por um jornal londrino “o tempo foi domesticado!”. O Meridiano Zero ficou estabelecido calculando-se a diferença de tempo em longitudes, para Oeste e para o Leste, num arco de 180 graus, com todos os países adotando o Tempo Médio Universal começando à meia-noite em Greenwich e contado num relógio com 24 horas.

A definição foi aprovada com 22 votos a favor, um contra (de São Domingo) e duas abstenções (França e Brasil). Esse fato surgiu em paralelo com a expansão do capitalismo, de necessidade da exatidão, do advento das máquinas, das comunicações e do transporte global. Quatro anos antes, o estatuto de definição do tempo foi lido pela primeira vez na Câmara dos Comuns inglesa, padronizando-o em todo seu território (envolvendo colônias espalhadas pelo mundo, inclusive as Malvinas esta semana fruto de reclamação na ONU pela Argentina…), pois astrônomos “reais” já tinham inventado seu próprio sistema, o GMT, ou Greenwich Mean Time. Não teria este cronista veleidade de enveredar por assunto tão áspero para um começo de ano, senão como forma de forçar um papo sobre nossa mais ouvida queixa nos meios empresariais: falta de tempo. Ano passado, numa palestra lancei ao plenário a simples pergunta: “você é tão ocupado que não tem tempo para nada?” As múltiplas atividades da vida moderna, a necessidade da sobrevivência, fazem com que a cada dia novas cargas nos sejam colocadas sobre os ombros e o tempo vai realmente encurtando. Existem pais que não têm mais tempo de se dedicarem aos filhos, sobretudo aos menores, na fase mais carente de suas vidas, pois lutam na consecução de seus planos econômico-financeiro-culturais que a sociedade de consumo exige. O tempo passará e esses pais verão amanhã, com tristeza, que os filhos cresceram e se foram. E aí sentirão que não mais existe aquele vínculo familiar, já que desde cedo se acostumaram com as contínuas ausências causadas pela falta de tempo!… Desde priscas eras preocupou-se o Homem em medir, em dividir, em explicar, em multiplicar o tempo. Os gregos, através da mitologia nos deixaram a figura do Deus Crónos (ou Saturno, na mitologia romana). Sua figura é a de um velho de expressão tensa empunhando uma foice –símbolo da colheita e também…da morte!- A Natureza nos dá demonstração clara através das estações do ano, do dia e da noite, que há tempo para tudo. Os gregos, ao trazerem do Oriente a arte contemplativa para legarem aos povos ocidentais, em certo momento (já no período da decadência) perderam-se nas indagações puramente filosóficas, sem aplicações práticas. Perquiriram, levantaram hipóteses, discutiram minúcias, esqueceram-se da vida prática e caíram no ócio, a tal ponto que ao chegarem os romanos conquistadores criaram o lema “nec ócio”, isto é, nada de ócio, de onde resultou a palavra negócio que significa atividade, ocupação, progresso, movimento, enfim atitudes contra o ócio. Embora o tempo exista para todos e marque o compasso da vida, ele não é igual para muitas pessoas, principalmente as 24 horas do dia… sendo uma questão pessoal já que dividido em “próprio” e o “alheio”. Alheio é aquele dedicado ao trabalho e porque “vendido” não param para relaxar ou distrair-se. O próprio, não querem gastar à-toa em casa, porém dedicá-lo para “disparar” telefonemas sobre negócios ou ir pessoalmente verificar “como andam as coisas” nas lojas, escritórios ou fazendas… Se alguns dos queridos quasenheum leitores, que não têm tempo para nada, passarem a vista nestas maltraçadas, espero que procurem repensar melhor e compreendam que jamais deveremos nos escravizar ao tempo, mas aproveitá-lo de maneira racional e lógica. Trabalho, família e lazer eis a divisão ideal do tempo para o homem inteligente. Que assim seja em 2012.

Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor Grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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