CARTA DE ADELINDO KFOURY – MARCO FUNDAMENTAL

Quarta-feira, 18 de janeiro, fui até Planaltina no entorno do Distrito Federal, para visitar um marco talvez desconhecido pela maioria do povo brasileiro. Noventa anos atrás, Presidente Epitácio Pessoa assinou o Decreto 4.494 que previa colocação de pedra fundamental numa área no interior do país, onde deveria ser construída a nova e definitiva capital do país. Uma comitiva liderada por Ernesto Balduíno saiu de Araguari (MG) gastando três dias de caminhada, carregando cinco toneladas de material enquanto que a placa de bronze ali afixada veio posteriormente de São Paulo. Inaugurado em 7 de setembro de 1922, o obelisco tornou-se um símbolo perene e anunciador da exuberante metrópole da Brasília de nossos dias, graças a firme determinação e  descortino de outro Presidente chamado Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Certamente que as crônicas sobre essa já cinquentenária cidade, retratam uma vida buliçosa, prenhe de acontecências fantásticas desde o heroico trabalho dos milhares de operários que a construíram, passando por episódios grandiosos protagonizados por homens e mulheres idealistas e patrióticos, mas infelizmente na atualidade escancarando abomináveis chagas produzidas pelos crescentes malfeitos de algumas autoridades ocupantes do poder, que sucumbiram à tentação de acreditar, eles próprios e pessoas do seu círculo, estarem acima da Lei, lamentavelmente desatentos aos exemplos do próprio Século XX –ainda tão perto de nós- quando aqueles que se afastaram do correto agir sofreram consequências terríveis, pois como lembra o historiador inglês Richard Overy tanto Hitler na Alemanha Nazista, quanto Stalin na União Soviética embriagados de desdém pelo império das Leis, erigiram ditaduras (“A lei e a vontade do Fhürer são uma e a mesma coisa” e também “ a revolução bolchevique não significa a vitória das leis socialistas, mas o triunfo do socialismo sobre todas as leis” , expressões respectivamente de Werner Best, chefe da divisão jurídica da Gestapo e Peter Stuchka conhecido filósofo russo.

Confesso aos queridos quasenenhum leitores, circulando pelas suas imensas vias urbanas onde pontuam obras arquitetônicas surrealistas, sinto o coração cheio de orgulho, aquele orgulho tão próprio da gente simples nordestina, em cujas veias corre o nobre sangue dos grapiúnas descendentes ou integrantes dos primeiros senhores destas terras brasilinas (povos indígenas cuja verdadeira língua nacional seria o nheengatu, empregada até o século XVIII quando foi proibida pelos portugueses…) E sábado, o episódio que apresso contar-lhes, produziu em meu coração a maravilhosa sensação de que ainda existem indivíduos honestos em nosso país, inclusive aqui mesmo em Brasília. Isso se tratando mais de uma constatação do que simples juízo de valor.

O enfrentamento de uma grande fila no check-in do balcão da Gol,  obrigou-me chegar ao portão de embarque quando o autofalante avisava ser “ultima chamada”  no procedimento de fechar  as portas. Na pressa, vasculhei os bolsos sem conseguir encontrar os tíquetes de embarque.  Nessa “agonia” peguei minhas duas carteiras contendo talão de cheque, cartões de crédito, dinheiro, etc. colocando sobre a mesa do funcionário encarregado do controle de entrada. Ele vendo meu quase desespero, gentilmente autorizou descer a rampa até o avião. Já sentado, observei a Comissária de Bordo abrindo a porta que acabara de fechar, logo entrando aquele funcionário para devolver-me as duas carteiras, absolutamente intactas, que eu desastradamente esquecera lá fora sobre sua mesa. Ali estava um patrício anônimo, que na simplicidade de um gesto certamente corriqueiro em sua vida profissional acabara de proporcionar-me extraordinário sentimento de euforia, perplexidade e também orgulho em ser brasileiro.

Escrevi à Diretoria da Gol, relatando o fato que para Empresa poderá ser uma rotina, mas para este macróbio escrevente tão calejado no acompanhamento e relato das acontecências cotidianas –muitas até originadas da própria Brasília e maioria das vezes carregadas de escabrosidades- trata-se de indiscutível exceção.  Ficarei imensamente grato a quem possa passar-me o nome dessa pessoa que por enquanto batizo como “O Homem Honesto de Brasília”. Informo que ele estava de serviço na entrada do Portão 3, controlando acesso ao Voo Gol G3, 1612, no horário das 15h48min, sábado passado dia 21 de janeiro.

Caso alguém use o direito de entender como exagerada esta catilinária quinzenona de hoje, peço apenas fazer um exercício de imaginação de como se sentiria: sumidos todos os documentos pessoais, extraviados todos os cartões de crédito e ainda perdido razoável quantia em dinheiro vivo… após uma viagem de férias.

Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor Grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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