CARTA DE ADELINDO KFOURY – TAMBÉM JÁ PASSAMOS POR ISSO…

Terça-feira da semana passada o Brasil parou para chorar a morte de um homem que extrapolou sua condição de ex vice-presidente da República porque se entranhou no coração de todos, como se fora parte de cada família nossa. A população brasileira sofreu junto com José Alencar acompanhando sua agonia, porém orgulhosa da imensa coragem e fé em Deus que demonstrava.

Guardadas as devidas proporções, aqui em Itabuna já passamos por drama semelhante, vivido por um homem de fibra, que também nos deixou o mais edificante exemplo de bravura diante do inexorável destino que lhe estava reservado.

Eu e Calixtinho nascemos no mesmo ano, no mesmo bairro e brincamos a mesma infância. Sempre fomos como uma espécie de irmãos. Embora seguindo rumos profissionais diferentes, nossos passos sempre cruzavam, ora paralelos, ora entrelaçados.

Graças a capacidade de liderança, dotes de honestidade e coragem moral ocupou espaço próprio na comunidade. O ápice de sua vida foi a investidura como Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna. Todos os que fomos seus companheiros –em qualquer tempo de mandatos- testemunhamos como se entregava por inteiro ao dia-a-dia das ações e assim avaliar o tamanho do sacrifício pessoal que o cargo lhe impôs. Daí por que não revelar também, os reflexos reversivos na sua vida familiar e comercial.

Foi numa madrugada, após cansativas reuniões na Secretaria do Hospital Santa Cruz, que o então diretor-médico Dr. Edmon Lucas (lembro com saudade e tristeza o tempo quando era um fraternal amigo, porque ainda não alçado ao mundo dos grandes cargos públicos), puxando-me pelo braço confidenciou resultado de radiografia recém tirada por Calixto. Confesso, foi um choque terrível. Ficou resolvido entre os amigos mais chegados, guardar absoluto sigilo enquanto novos exames seriam providenciados. Diante da gravidade, logo exigimos fosse cumprido o que aconselhavam todos os médicos: afastar-se do cargo para um rigoroso tratamento. Demonstrando coragem extraordinária, recusou peremptoriamente. E ao contrário, aumentou mais ainda suas jornadas de trabalho, passando praticamente o maior espaço de tempo nas dependências dos hospitais, até pouco indo à sua loja. Como seria natural, a notícia espalhou-se. Posso testemunhar com absoluta sinceridade que uma onda de tristeza tomou conta de todas as camadas sociais de Itabuna, inclusive nas redondezas do município, pois que era uma figura muito conhecida, respeitada e querida por todos.

À exemplo de José Alencar, ela chegava até zombar da enfermidade. Demonstrava uma enorme coragem. Um fato que emocionava aos mais íntimos, era o desejo de concluir todas as obras que sonhara e planejara. Além das reformas de armários e instalações em madeira com as quais “atanazava” Mestre Fausto, ampliação de enfermarias, modernização da cozinha, a maior obsessão foi construir uma moderna e possante lavanderia no Hospital Manoel Novais. Muitas vezes acaloradas discussões madrugada a dentro com meu saudoso compadre Alcides

Bezerra, por muito tempo Tesoureiro (“mão de vaca”, como ele carinhosamente o tratava, pelo rigor na contenção nos gastos) terminavam em minha casa, lá na Rua Miguel Calmon, quando acordávamos Zilda para fazer um café. Após sorver algumas xícaras ele espicaçava minha querida e sonolenta esposa dizendo “êta café frio e ruim!…” Era quando tudo calmo, resolvidas as “questões”, cada um cuidava de ir dormir. Muitas vezes Calixtinho deixava Alcides em casa e ainda “dava uma passadinha pelo hospital”…

Outro aspecto comovente foi a heroicidade como enfrentava o cruel e inexorável avanço da enfermidade. Haverão de lembrar alguns amigos mais íntimos, quantas vezes nos reunimos nas suas residências, em noites de confraternização. Calixtinho ao contrário de abatimento mostrava-se alegre e comunicativo. Confesso, nesses momentos era difícil para todos nós conter as lágrimas. Na verdade, por razões que até hoje buscamos explicação, ele transformou aquele período que seria de tormento e angústia, em demonstrações de conformismo. Quem viveu em Itabuna naquele tempo, certamente guarda lembrança do quanto a população vivia angustiada. Todo mundo torcia pela sua recuperação.

Permito-me agora revelar um fato, cujo segredo guardei até hoje. Acho que poderá servir para aferir-se a dignidade de um homem corajoso, que soube enfrentar a morte com a dignidade dos heróis. Quando na festa de inauguração da Lavanderia no Hospital Manoel Novais, ele já bastante alquebrado, em certo momento chamou-me para baixo da primeira escada, onde estava o comum amigo Antonio –seu leal gerente da Loja Cônsul- e entregou-me um papel. Antonio, que mercê de Deus está aí vivo e forte, ouviu o que me foi dito: “neste papel, está o programa de meu sepultamento!”. Angustiado, a princípio não acreditei, porém diante da seriedade como falou não me contive e abri para ler. Todos conhecemos sua característica marcante, que era a organicidade absoluta em tudo que fazia. Ali estava escrito: “desejo que durante todo o percurso do meu enterro, seja cantada a música “segura na mão de Deus”. Não quero discursos, somente Adelindo poderá falar. O túmulo onde devo ser enterrado já está pronto na ala nova”.

Guardo em meus arquivos aquele papel e uma fita com meu discurso gravado pelo amigo Willy Modesto.

A última vontade de Calixto Midlej Filho foi cumprida, mercê de Deus.

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Walmir Rosario

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