CARTA DE ADELINDO KFOURY – AINDA SOMOS UM IMPÉRIO?

Sempre de quinze em quinze dias gozo momentos de alegria, pois que recebo com pontualidade britânica o exemplar do TABU editado em Canavieiras pelos queridíssimos amigos (mestres com os quais sempre aprendo) Wallace e Tyrone Perrucho e como garantem no frontispício “UM JORNAL SEM PRECONCEITOS”. No seu número mais recente, deparo com transcrição de uma frase do escritor português Eça de Queiroz “os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão”. Como estou justamente dentro do covil onde eles existem, permito-me a ilação das maltraçadas para hoje.

BRASÍLIA:- Uma das primeiras coisas que aprendi nos cursos superiores foi que nossas cidades, na acepção da palavra, surgiram durante o absolutismo. Como então não existiam eleições livres, seus governantes não tinham porque dar satisfações ao povo. Naturalmente que,  et pour cause (como dizem os queridos quasenheum leitores eruditos), o Brasil em seus primórdios foi administrado segundo a igualdade de todos diante do Rei. Praticamente em sua maioria os cargos públicos eram alugados ou vendidos, ao sabor dos interesses da Corte. Sendo nosso território de imensas proporções e porque os meios de transporte e comunicações mostravam-se absolutamente precários, era difícil qualquer forma de fiscalização eficiente, obrigando serem nossas cidades e vilas administradas à distância. Tais óbices, porém, não impediam que os impostos seguissem diretamente para Lisboa, mas se tornava “justificativa” ao não retorno em forma de quaisquer benefícios para nós tupiniquins.

Somente após o advento da Independência, o Rio de Janeiro tornou-se lugar para onde convergiam os impostos cobrados nas cidades. Naturalmente que para as cidades geradoras só aconteciam pequenos retornos em formas de serviços, mediante interferência pessoal das oligarquias regionais. Isso mostra-nos sobejamente a História, fez com que as comunidades longe da “Corte” penassem por séculos (desgraçadamente até hoje ainda existam exemplos…) sem elementares serviços públicos.

Ontem na Biblioteca de Brasília, passei a vista num interessante trabalho de M. S. Carvalho Franco tratando de mistura de recursos públicos e privados, sob o título “Homens Livres na Ordem Escravocrata” onde faz citações sobre vereadores que em determinada época do passado emprestavam dinheiro para as obras das cidades, chamando-me atenção quando afirma: … “se retiram do bolso ajuda para os cofres oficiais, eles imaginam ter autorização ética para subtrair dos mesmos cofres o socorro para seus apuros”. Não sei se é o clima aqui da Capital Federal, mas saí dali meio zonzo.

Quando Chefe de Relações Públicas da Ceplac, gastei muitos anos perlustrando aqui corredores e gabinetes ministeriais ou de congressistas, buscando ou levando informações sobre projetos e conceitos no interesse das regiões cacaueiras da Bahia e Amazônia. Foi um grande aprendizado. Entre tantos conceitos, um deles vigente até os dias de hoje, o famigerado “é dando que se recebe”, confesso que não deixa de causar-me incontida revolta. Graças ao Grande Arquiteto do Universo, permaneceu dentro de mim a forte convicção de que a democracia só vinga num país onde os cidadãos informados vigiem os administradores, porém desgraçadamente a falta de uma livre autonomia financeira dos Estados e Municípios é a principal fábrica de corrupção que grassa em nosso país. E agora, pelo que tenho ouvido ou lido, parece que têm sido ouvidos alguns murmúrios oriundos das suntuosas janelas do Palácio Alvorada, sobre a necessidade da criação de um órgão para disciplinar a imprensa. Deus meu! Só faltava isso. Já vou afiando meus teclados, para guerra na qual todos nós jornalistas livres temos o dever de lutar pela defesa do postulado inalienável.

Quem anda por estas ruas brasilianas, respira insuportável ar de conformismo, que para mim beira até um cinismo consensual.

Assusta o quanto cargos nos três poderes, passam de pai para filho, de marido para esposa, de irmão para irmão, criando dinastias de natureza imperiais hereditárias. Daí, a confusão mental que se apoderou deste humilde escrevente grapiúna sexagenário: ainda somos um império?

Adelindo Kfoury Silveira é Historiador, Escritor e Jornalista grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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