CARTA DE ADELINDO KFOURY – “…PALAVRA DE VERDADE OU DE LÚPI !”

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia… Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente…  A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda parte: o país está perdido!”

BRASÍLIA – O texto da tarja, de gritante atualidade em relação aos nossos dias brasileiros, foi escrito em 1871, pelo pioneiro da literatura realista portuguesa Eça de Queiroz, nascido em 25 de novembro de 1845 que, se vivo fosse, nesta sexta-feira estaria completando 166 anos de idade. Havia escolhido trazer-lhes comentários sobre sua figura, porém uma frase escutada instantes atrás, dentro do metrô, fez-me mudar de idéia. Duas jovens estudantes papeavam descontraídas até quando uma delas chegou à sua estação de destino. Pelo sentido da despedida, deveriam estar assumindo algum compromisso, pois já na porta aquela que saltava gritou: “por mim, tá tudo OK. Quero ver se tua palavra é de verdade ou de lúpi!…Tchau.” Naquela simples frase, um tremendo neologismo identificador dos sinais da catástrofe que ameaça destruir a sociedade brasileira, sobretudo porque já contaminando o verdadeiro esteio de uma nação que são os jovens. Será que nossas autoridades, sobretudo a ilustre presidente presidida pelos partidos políticos integrantes da “sua base de sustentação”, não estão percebendo que o acoitamento a mentiras ministeriais corrompe de maneira irreversível o sentimento mais caro de um povo que é o respeito às instituições públicas? Diante do que lhes relato, tomado por uma inquietação irreprimível, prefiro buscar nos escaninhos do conhecimento humano um derivativo para estas maltraçadas quinzenanas.

A  Mitologia Grega é povoada por deuses e lendas, que desafiam a argúcia da Humanidade através dos séculos. Diz uma delas, ter sido em Tebas que Édipo encontrou a Esfinge, monstro híbrido de mulher e leão cuja distração era apresentar enigmas aos mortais desgraçadamente encontrados pela frente. Devorava quem não soubesse decifrá-los. Como o herói grego respondeu acertadamente todas as tais perguntas que ela lhe fez, o monstro irado e envergonhado pela derrota sofrida, lançou-se do alto de um rochedo desaparecendo para sempre. Os tebanos para demonstrar gratidão a Édipo, além de elegerem-no rei deram-lhe por esposa Jocasta, lindíssima viúva do Rei Laio. A tragicidade da história meus quasenenhum leitores conhecem: Édipo não sabia que Laio a quem abatera em duelo alguns anos atrás, durante uma viagem, era seu pai e, portanto, Jocasta sua própria mãe…

Nós, “tebanos brasileiros” neste século XXI, estamos a buscar desesperadamente um herói para livra-nos, à semelhança de Édipo, do poder da Esfinge (claro que sem desejar que ele se deixe envolver em incestos). Tão estranhas associações de idéias, só invadiram minha cabeça porque constrangido pelo que relatei mais acima. Vou contar para vocês que através de leituras, encontrei personagem capaz de fazer inveja a muitas excelências em Brasília, sobretudo àquele referido pelas mocinhas (que se existisse nos tempos da Esfinge grafaria seu nome como Caius Lupius…)

Para não perder tempo, gostaria de apresentar-lhes Marcus Licinius Crassos, cidadão romano que viveu alguns anos anteriores ao aparecimento de Jesus Cristo, sendo contemporâneo de Júlio César e de Espartaco (o primeiro morreu recebendo uma facada nas costas e o segundo lutando com uma espada na mão). O distinto cavalheiro usava e abusava de dinheiro e presentes para comprar favores e poder. Possuía minas de prata, dominava o comércio de escravos, entretanto seu negócio mais rendoso era uma espécie de corpo de bombeiros. Vocês leram certo: um corpo de bombeiros. O pequeno detalhe é que aqueles bombeiros de Seu Marcus Crassus só combatiam e apagavam qualquer incêndio, quando o proprietário do local em chamas aceitava pagar enormes quantias. E as tratativas (para usar um termo da modernidade) eram feitas ali mesmo, junto às labaredas que ameaçavam destruir o patrimônio da vítima. Detalhe curioso: quando o incêndio ocorria em casa residencial, uma das primeiras condições após debelar o sinistro era tomar posse da mesma, apenas permitindo ao ex-proprietário permanecer morando ali, desde que pagando aluguel.

Contam historiadores que não satisfeito em tornar-se o maior proprietário de imóveis em Roma, mordido pela mosca azul sucumbiu ao desejo de assumir altos postos políticos. Sua cartada inaugural foi derrotar violentamente a revolta dos escravos liderada por Espartaco, depois mandando crucificar centenas deles ao longo de 150 quilômetros da Via Ápia, mal comparando uma espécie de “Eixo Monumental” da Roma Imperial. Sedento de fama e poder contratou mercenários e partiu à frente de grande exército particular para uma guerra contra os partos na Síria, com o intuito além de agradar Júlio César, aumentar sua fortuna saqueando os derrotados. Estrepou-se aí, porque morreu em combate. E paira no ar uma lenda de que os partos ao saberem que mataram o homem mais rico de Roma, cuja sede por dinheiro não tinha limites, derramaram ouro derretido pela sua garganta, como irônica demonstração de satisfazer sua última vontade com aquilo que ele doentiamente mais ambicionara.

Desculpem, por ter buscado um pouco de lenitivo para tanta decepção trazida pelas notícias de corrupção que hoje grassa na capital de meu país. Pelo menos restará o consolo se saber que isso é coisa que vem de longe, não sendo uma invenção dos tempos modernos nem de muitos de nossos homens públicos patrícios…

Adelindo Kfoury Silveira é Historiador, Escritor e Jornalista grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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