CARTA DE ADELINDO KFOURY – PRETÉRITO PRESENTE…

Na última quarta-feira, dia 9, participei de reunião festiva Interclubes de Rotary International no salão nobre do Monte Pascoal Hotel, com direito a excelente palestra do professor José Medrado, junto a Walter e Dalva Santana casal de amigos ao qual atribuo perfeita similitude com os queridíssimos Alcides (saudoso compadre-irmão) e Rita Bezerra. Entre os assuntos das agradáveis conversas, porque lembrei que justamente naquela data 122 anos atrás acontecera ágape famosíssimo na história do Brasil, logo fui “intimado” abordar nestas maltraçadas quinzenais.

O neologismo do título é proposital, pois desejo estabelecer liame entre certas acontecências tupiniquins do passado com outras que testemunhamos na atualidade…

Nos estudos superiores aprendi ser função importante da ciência prever o comportamento futuro dos objetos que são estudados. Caso falhem as pesquisas, torna-se óbvio que não sejam corretas. E muitas vezes, certeza que se imagina possuir não é sinônimo de verdade, até porque a História não é só uma recitação cronológica de ocorrências, mas a dimensão com a qual uma coletividade se defronta. Inexiste história absolutamente fiel aos fatos que lhe deram origem.

Inicialmente conhecida como Ilha dos Ratos (pela infestação de roedores da família dos murídeos ali existentes), só depois de transformada em posto aduaneiro foi batizada como Ilha Fiscal e permaneceria simplesmente como tal pelos tempos afora não fora o inusitado episódio que vamos tratar.

Em 9 de novembro de 1889, sob pretexto de homenagear oficiais chilenos em visita a capital do Império, ali aconteceu um baile jamais visto na Corte do Imperador D. Pedro II. Imagino que se naquele tempo já existissem meus queridos confrades cerimonialista Ramiro e colunistas Charles, Diogo e Antonieta, certamente aos seus respectivos talentos se atribuiria a estrutura e emulação de tão deslumbrante festa, assim como a eles não passaria despercebido a simplicidade do traje da Imperatriz Teresa Cristina: vestido em renda de chantilly preta, guarnecida de vidrilhos, contrastando com a suntuosa toalete da Princesa Isabel pelo luxo e beleza na sua roupa de moiré preta listrada, corpete bordado a ouro e prendendo os cabelos um diadema de brilhantes. Para falar a verdade, por dever de honestidade na descrição dos fatos, vale lembrar também que a imperial esposa do ciumento Conde D’Eu esbanjava vitalidade participando de todas as danças até o momento quando as orquestras silenciaram. D. Pedro II que trajava farda de Almirante, ornada de condecorações, demonstrando certo abatimento permaneceu em um salão reservado, conversando com diplomatas estrangeiros, oficiais graduados chilenos e brasileiros, além de alguns expoentes da alta sociedade carioca. Luiz Viana Filho no seu livro “A vida de Rui Barbosa”, abrindo o Capítulo XV transcreve uma observação feita por ele em relação a D. Pedro II “O espírito do Imperador já não era o mesmo que dantes, nem o alcance de sua visão, nem o vigor moral, nem o domínio sobre a corte e os partidos”.

A ilha estava enfeitada com balões venezianos, lanternas chinesas, além de muitas flores brasileiras em vasos franceses. Moças fantasiadas de sereia ou fada recepcionavam os convidados assim que desciam das barcas a vapor. Nas duas imensas mesas em formato de ferradura, ostentando nas respectivas cabeceiras dois pavões empalhados com enormes caudas coloridas, reluziam louças chinesas e talhares de ouro. À frente de cada prato havia nove copos de feitios diferentes. Quarenta e oito cozinheiros prepararam o cardápio manipulando 800 quilos de camarão, 1.300 frangos, 500 perus, 64 faisões, 600 aves exóticas brasileiras como inhambus, macucos etc. 1.200 latas de aspargo, 20.000 sanduíches, 14.000 sorvetes, 2.900 pratos de doces, 10.000 litros de cerveja, 304 caixas de vinhos, champanhe e bebidas diversas. Cento e cinqüenta mordomos desmanchavam-se em gentilezas. Especulam historiadores, ali compareceram “entre quatro a cinco mil pessoas, onde pontuaram excessos e extravagâncias”.

Duas bandas militares executavam peças selecionadas como valsas, polcas e mazurcas para os convidados dançarem nos seis salões daquele castelo de 2.000m2, estilo gótico, projetado pelo arquiteto Adolpho José Del Vecchio, cuja construção começada em 1881 terminara no mês de abril daquele ano de 1889.

Lá, como cá, as despesas foram bancadas pelo povo pagador de impostos. Segundo propalado à época cerca de 250 contos de réis saiu do Ministério de Viação e Obras Públicas, valor que, representando cerca de 10% do orçamento previsto da Província do Rio de Janeiro para o ano seguinte, estaria destinado socorrer flagelados da seca no Ceará.

Um fato merece registro –para que os queridos confrades já citados não se aborreçam com este macróbio escrevente, porque pela competência profissional o fariam- foi a azáfama provocado junto as socialites do Rio de Janeiro em razão dos preparativos pessoais de cada qual. Garantem memorialistas confiáveis que “as roupas finas das lojas se esgotaram. Estabelecimentos comerciais sofisticados como Casa Wellimcamp, Casa Palais

Royal ou Mme. Roche com matriz na Europa, esgotaram os estoques. Setenta e duas horas antes do baile já não havia vagas nas cabeleleiras. As mulheres lotavam as lojas de roupas finas e os cavalheiros recorriam aos alfaiates  para ajustar suas casacas e às barbearias para cortar o cabelo, aparar bigodes e barbas. Muitas senhoras chegavam às 9 hrs da manhã para maquiagem”. Já tive oportunidade de ler um comentário feito por Rui Barbosa, que ferinamente descrevia: “Os ministros escovavam as casacas para o baile dos arrependidos e a Guarda Nacional narcisava ao espelho a bizarria marcial de seus figurinos para a batalha das contradanças”.

Também me permito imaginar que se o brilhante jornalista e competente xerife deste Blog Walmir Rosário também vivesse naquele período, certamente já teria informações seguras do que acontecia àquelas horas no Clube Militar, em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, imediações do Campo de Santana, onde maçons, líderes religiosos, membros de grupos contrários à escravidão e naturalmente muitos militares, reunidos maquinavam a queda do Império. Liderando, estava o então Tenente-Coronel Benjamim Constant, que entre outras coisas disse-lhes: “Mais do que nunca, preciso sejam-me dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e dignidade”, certamente tendo como alvo o Visconde de Ouro Preto, Presidente do Conselho de Ministros, principal mentor daquele suntuoso baile seguramente arquitetado com a intenção de reforçar a posição do Império contra as conspirações republicanas que sabia existirem.

A sequência dos fatos partindo-se daí, qualquer livro de primeira série sobre História do Brasil conta, pois que a 15 de novembro daquele ano, uma sexta-feira, foi proclamada a República consolidada após o embarque noturno do monarca D. Pedro II e a Família Real de volta para Portugal.

Para não encerrar sem um toque de “referência jornalística”, lembrarei que o periódico carioca “O Paiz”, edição do dia 12 seguinte, na sua coluna humorística “Foguetes” publicou que os serviçais da Corte encarregados da limpeza após o baile, encontraram espalhados pelo chão garrafas e copos quebrados, condecorações perdidas, além de enorme quantidade de roupas íntimas femininas, 37 lenços, 24 cartolas e chapéus, 8 raminhos de corpete, 3 coletes de senhoras e 17 cintas-liga.

Espero ter cumprido “as ordens” dos prezados e queridos amigos Walter e Dalva.

*Adelindo Kfoury Silveira é Jornalista, Historiador e Escritor grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Rotary International

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Walmir Rosario

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