CARTA DE ADELINDO KFOURY – A  “12” E  A  “14”,  NUNCA  MAIS…

Preparava-me para digitar (que saudade da palavra “escrever”!…) estas maltraçadas, quando recebo e-mail (que saudade de “carta”!…) enviado pelo itabunense Gustavo, meu-neto-por-afinidade-com-o-irmão MM. Eliés Haum, contendo fotos que teve o cuidado de tirar nas obras para ampliação da avenida Amélia Amado, acreditando serem antigos trilhos de nossa estrada de ferro destruída pelo Governo Federal “em nome do progresso”… Mesmo apenas o suporte para uma pequena ponte, destinada a pedestres ali construída no Governo Alcântara, comoveu-me a sensibilidade desse jovem conterrâneo ao buscar preservar para nossos pósteros, provas do que imaginou uma relíquia com inestimável valor histórico. E mais, revelando preocupação sobre o destino que autoridades possivelmente insensíveis poderiam dar-lhe…

A ele, dedico o assunto desta quinzena.

No fim da tarde de 21 de setembro de 1911 chegou a Itabuna em viagem experimental  nosso primeiro trem de ferro: locomotiva puxando apenas um vagão carregado de lenha. A cidade era pequena e bucólica. Dizem que as cidades quando são pequenas e bucólicas, são que nem gente de carne e osso. E a estrada de ferro passou a ser coisa viva e palpitante da cidadezinha, com alma e tudo, inclusive nascimento, vida e morte. Na verdade era a concretização do projeto iniciado pelo capitalista Bento Berilo de Oliveira desde o ano de 1904, quando, em razão do Decreto n 228 de 28 de dezembro, conseguiu autorização do Governo Estadual para “construção, uzo e gôzo” (sic) de uma via férrea ligando Ilhéus a Vitória da Conquista. Posteriormente o Decreto nº332 de 19 de setembro de 1905, autorizava transferência à firma Oliveira, Carvalho & Cia., que logo vendeu seu controle para a empresa inglesa The State of Bahia South Western Railway Limited, ou seja, entregava-se para estrangeiros a primeira via férrea da região cacaueira. Essa mania brasileira de desnacionalização vem de longe…

Já de olho na importante zona banhada pelos rios Almada (em Água Preta) e Mucambo (em Sequeiro de Espinho), assim desejando atrair a simpatia de poderosos Coronéis que ali tinham fazendas de cacau, os espertos ingleses conseguiram do Governo através do Decreto nº871 de 25 de fevereiro de 1911 autorização para construir o ramal Almada e sub-ramal do Mucambo, ambos com extensão de 35 quilômetros, cujos estudos dos primeiros 25 foram aprovados pelo Decreto nº952 de 20 de setembro naquele mesmo ano. Um detalhe a ser destacado foi o desprendimento do Coronel José Firmino Alves, que ao contrário da maioria dos fazendeiros regionais e unicamente visando o progresso de Itabuna permitiu a passagem dessa estrada por dentro de sua fazenda “Boa Lembrança”, sem exigir qualquer indenização financeira pelo grande número de cacaueiros cortados e destruídos.

A inauguração do trecho efetivamente construído, num percurso de 59 quilômetros começando por Ilhéus e terminando em Itabuna, ocorreu no dia 14 de agosto de 1913, porém oficializada sete dias depois com a entrega ao público da estação de passageiros no local onde existe hoje o prédio da Faculdade de Ciências e Tecnologia na praça José Bastos, que naquele tempo passou a ser conhecida como praça da Estação”. O primeiro bilhete-passagem expedido, escrito em papel comum de bloco, custou doze mil réis ao histórico passageiro, tendo o seguinte teor: “The State of Bahia South Western Railway Co.Ltd.-Dep.Contrução: permite para o Cel. Aníbal Amorim e família, uma viagem de Ilhéus a Água Preta, no dia 17 de setembro, voltando no dia que quizer. (as.) D.W.Hull-Eng.Chefe.A Co. não se responsabiliza por acidente qualquer e não garante que haverá trem no dia marcado. Deve haver trem amanhã, dia 17 de setembro, partindo às 6 horas e voltando à tarde. Favor trazer cadeiras para as senhoras”.

O comboio inaugural tinha três classes para passageiros, um vagão de carga e outro para a lenha consumida pela locomotiva que ostentava na frente um medalhão de bronze com o número “12” pintado em vermelho.

A partir de então os negócios, os encontros, assim como a vida de minha cidade passaram a ser regulados pelos apitos do trem. O primeiro quinze para as nove e o outro nove em ponto. Às onze, o apito anunciando a primeira chegada. Depois do almoço, um de aviso treze e quarenta e cinco, sendo o de partida, quatorze. O da segunda chegada, dezessete horas. Aos sábados o movimento da feira livre intensificava ou diminuía de acordo com a chegada e saída do trem. A azáfama nos horários de partida era sempre a mesma, com ambulantes a gritarem mercando beiju de Água Branca, cocada e mingau em copos de boca fechada com papel colado. Os carregadores –quem daquele tempo não lembra!- Padre, Prego, Belarmino e tantos outros, a colocarem apressadamente malas e pacotes pelas janelas dos vagões, reservando os melhores bancos para seus fregueses. Padre era o preferido da minha família. O Chefe do Trem, Seu Zé Passos, vestindo roupa de brim grosso esverdeado, ultimando providências; o Chefe da Estação, Seu Teodoro, constantemente segurando calhamaços de papéis carbonados e conhecimentos de frete, óculos sobre a testa, ditando ordens!… Nos regressos, invariavelmente a mesma confusão e gritos de vendedores ambulantes recebendo caçuás de peixe, caju e coco verde oriundos de Ilhéus após baldeação no Rio do Braço. Os mesmos carregadores recebendo malas e embrulhos pelas janelas. Carroceiros e “carros de praça” disputando fretes e passageiros misturando-se na beira da calçada, frente à praça.

E as locomotivas? Ah! As locomotivas logo passaram ser carinhosamente chamadas de “máquinas”. Possuíam seus admiradores e, por que não dizer, seus fanáticos. Havia quem reconhecesse a “12” pelo resfolegar. A “14” pelo apito. Discussões apaixonadas travavam-se nos bares e na porta das residências quando a noite os vizinhos se reuniam para conversar. Cada um chama a “sua” melhor, mais moderna (pobres monstros, rangentes e lerdos…).

O nome inglês da Empresa soava estranho para os grapiúnas, até que passou oficialmente para Estrada de Ferro Ilhéus a Conquista. Esse, todos gostamos. Mesmo os partidários da “12” e da “14” nisso eram concordes. Um gaiato, certa noite, embaixo da sigla de metal na lateral de um dos vagões (que era EFIC) escreveu Estrada de Ferro Impossível Continuar”, criticando o fato de que, saindo de Ilhéus, ela ficava aqui mesmo em Itabuna, pois jamais foi concluído o trecho planejado até Conquista. “Foi brincadeira” diziam os adeptos da “12” e da “14” que tinham no coração o desejo em ver, algum dia “sua” locomotiva puxar o primeiro comboio até a bela cidade de Vitória da Conquista.

A cidade cresceu e foi esquecendo sua estrada de ferro. O que durante tanto tempo se constituía em motivo de orgulho, passou a ser trambolho. Diziam que os trilhos enfeavam as ruas. A simples e modesta “Rua da Linha”, ganhou o pomposo nome de Avenida Ilhéus. No espaço onde existia um triângulo de trilhos onde as locomotivas faziam complicada operação de recolocação da frente para retorno, por isso mesmo batizado de “Triângulo”, atualmente existe a Igreja de São Judas Tadeu. Mais adiante, uma enorme caixa de água suspensa sobre quatro colunas de jequitibá e que servia para abastecer as locomotivas, emprestou seu nome ao pequeno arruado com casinhas de taipa como Bairro da Caixa d’Água”.

Na década de 50 os burocratas do Governo Federal cumpriram sua sentença de morte. Já velha e doente teve o ramal para Itabuna amputado, qual parte sem serventia de um corpo. A “12” e a  “14” foram levadas pêra Ilhéus e nunca mais voltaram.

A “12” por muitos anos virou estátua. Morta, imóvel, fria, colocada em frente ao Estádio Municipal. A “14” com a ferrugem e o salitre destruindo-lhe as vísceras de ferro, definhou no velho pátio da estação, que também acabou. Se como no mágico imaginário de um povo simples elas tiveram alma, certamente sofreram muito com as recordações dos bons tempos em que foram admiradas e cortejadas como “rainhas”…

Não posso jamais esquecer o orgulho de um dia ter pertencido ao grupo dos admiradores da “12” !

A cidade cresceu e talvez nem tenha sentido a morte de sua estrada de ferro. Pena que tenha perdido suas locomotivas.

E sua alma simples.

Adelindo Kfoury Silveira é Historiador, Escritor e Jornalista grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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