CARTA DE ADELINDO KFOURY – COPA DO MUNDO AQUI, SOU CONTRA!

“Quando você perceber que para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho e que as Leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.

Ayan Rand , filósofa russo-norte americana (judia,  fugitiva da Revolução Russa em 1920)

Política partidária e futebol, não costumo tratar nestas maltraçadas, pois em todos veículos para os quais escrevo sobram articulistas de muito maior competência que este macróbio escrevente. Embora voraz consumidor de assuntos midiáticos no seu mais amplo espectro, prefiro enveredar pelas narrativas sobre História de nossa região grapiúna porque a entendo carente de informações concisas. Crescente é o número de e-mail dos queridos quasenheum leitores desejando saber minha opinião sobre realização da Copa do Mundo no Brasil. Seria muito fácil dizer simplesmente que sou contra, porém a responsabilidade de quem trabalha com ferramentas formadoras de opinião, obriga-me espichar esta coluna quinzenária.

O ser humano é um protagonista da Sociedade, que não pode omitir-se quando impõe-se  avaliação isenta de determinadas situações. Por detrás do traçado desse painel diversificado no qual nós brasileiros vivemos,  Eduardo Portela prefaciando gostoso livro do cronista Antonio Callado disse:“…mais do que nunca é possível identificar-se a ética, em nada imperial e sentenciosa, mas dialógica e solidária”. Desde cedo, aprendi que ética é a vitória da indignação sobre a indignidade. Embora enojado de tanta corrupção, não quero aqui reinaugurar o nada. Não estou pregando uma espécie de “descomemoração”, ao que sei existirem muitos adeptos, mas sinceramente não desejo para o futuro repetição de registros históricos do passado, como aqueles sobre o Doutor Guilhotin, nome famoso na Corte Francesa “que para não ser vítima de seu invento mortal acabou a vida como inspetor de vacinação pública” ou a Princesa Izabel “que apenas libertou os brancos da dívida social que tinham com a população negra”… Não posso evitar chegar à minha lembrança, também, cenas explícitas da excrescência de muitos políticos atualmente incrustados ao novo governo (ou à nova “governanta”), quando após a vitória da Revolução de 64 travestiam-se em vivandeiras (palavra original francesa vivandièrre, mulheres que, nas longas guerras de outrora, acompanhavam a tropa, vendendo aos soldados comida e bebida e, naturalmente, vendendo-se a si mesmas).

Sei que estarão perguntando a razão de tanto rodeio e pessimismo explícitos. Vejamos. Um dos únicos três Senadores que considero como tal, chama-se Demóstenes Torres. Dias passados, em pronunciamento muito sério alertou para um (dos muitos…) perigo que estamos expostos: “…o Brasil já isentou a FIFA de impostos, está lhe repassando estádios e cercanias, criou figuras típicas para tornar criminoso até quem assoviar os jingles da entidade sem ter pago royalties”. Em várias oportunidades o parlamentar vem denunciando que pelas tratativas do ex-presidente “Doutor HC” Silva com a FIFA, nas cercanias ou dentro dos estádios nós velhinhos não teremos direito às garantias constitucionais de livre locomoção, prioridade em filas, descontos em ingressos, etc., isso valendo também para deficientes físicos e mulheres grávidas.  Outro ponto focado pelo Senador é que além do Estatuto do Idoso, também poderão ser derrogadas cláusulas do Código de Defesa do Consumidor, tudo para enquadramento à Lei Geral da Copa. Far-se-á degola de alguns Artigos da própria Constituição Federal do Brasil, quando esses colidirem com os interesses da entidade patrocinadora do certame, coisa de sua exclusiva propriedade.

Confesso preocupação em relação ao surto de reformas e construções de estádios, canais de trânsito urbanos, adaptação de aeroportos, etc. Qualquer brasileiro de sã consciência haverá de sentir temor diante das recorrentes denúncias de superfaturamentos. Desgraçadamente testemunhamos nossa pátria como país de poderosos cafajestes dando fortes contributos à desconstrução das instituições que balizam um verdadeiro Estado. Vemos num mesmo cesto obras públicas, administração de autarquias, distribuição de verbas assistenciais etc. em monumental enlace, todos os dias denúncias envolvendo de humildes barnabés a Ministros.

Mas como incurável adepto do historicismo, posso até “aliviar” nossos corruptos atuais, pois que a prática de ações antiéticas remonta aos primórdios desta nação tupiniquim. Desde os tempos coloniais, nossa administração pública padece. O Ouvidor-Geral, Pero Borges e o Provedor-Mor Antonio Cardoso de Barros, integrantes da equipe do primeiro Governador Thomé de Souza, trazidos de Portugal, nem bem pisaram as terras brasilis praticaram alguns “atos administrativos incorretos” associando-se na “guarda” de recursos do Tesouro Régio. Igualmente línguas ferinas daqueles tempos deixaram relatado que nosso primeiro Tribunal de Justiça –o Tribunal da Relação da Bahia- criado em 1609,  “foi fechado em 1626 por graves acusações de corrupção”. Também merecerão serem lembrados os famosos contratadores de impostos devidos a El-Rei, “esquecendo” na algibeira grande parte de tudo que cobravam dos contribuintes.

Sintetizando minha opinião contrária à realização da Copa do Mundo no Brasil: os gastos estratosféricos que estão sendo despendidos na sua preparação, sob severa vigilância do povo deveriam ser dirigidos para a Saúde, Educação e Segurança cujos serviços estão vergonhosamente abaixo do mínimo de eficiência. Um país tão desigual por dentro, que mostrar o quê para fora?

Fique bem claro que respeito o direito dos queridos quasenheum leitores que desejam a Copa no Brasil. Apenas faço um simples apelo: que os responsáveis pelo evento deem-se ao respeito, pelo menos.

Adelindo Kfoury Silveira, Jornalista, Historiador, Escritor, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna. E-mail:a.kfoury@globo.com

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Walmir Rosario

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