CARTA DE ADELINDO KFOURY – “A  CIDADE  ENCANTADA  EXISTIU”?

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Nas duas primeiras edições de “ITABUNA, MINHA TERRA” dediquei o último capítulo a comentários sobre uma fabulosa “Cidade Encantada”, sem contudo considerar o assunto esgotado. Um pensamento de Renè Descartes define perfeitamente o que sinto em relação à história de Itabuna: “Daria tudo que sei em troca do que ignoro”. Creio por mais que estejamos imaginando haver avançado o conhecimento sobre as coisas pelas quais nos interessamos, sempre descobrimos muitos caminhos novos a percorrer e como disse Emilly Paul quando a gente pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda as perguntas”. Sempre tive aguçado minha curiosidade sobre qual a razão da presença nestas bandas de grandes personalidades estrangeiras em séculos passados. Conta-se às centenas os sábios, naturalistas, pesquisadores, arqueólogos, além de membros da realeza européia, assim como grandes aventureiros, que vararam as matas brasílicas. Interessa-me especular sobre aqueles que estiveram fazendo périplos por nossa região quando isto aqui ainda era uma extraordinária floresta tropical, infestada de índios antropófagos, animais ferozes, febres terríveis. Comumente os livros de História dizem que estavam apenas pesquisando costumes indígenas exóticos, fauna e flora exuberantes, assim como prospectando bolsões de ouro e prata. Pouco se fala e quase ninguém imagina, é que tais “desbravadores” buscavam “inocentemente” encontrar e decifrar petróglifos (gravuras rupestres), que lhes poderiam, sim, indicar onde estavam formidáveis riquezas aqui deixadas pelos primeiros povos que habitaram nossa grapiúnica região: provavelmente  gregos e fenícios! Estou falando de cidades com grandes pórticos de ouro maciço, caminhos revestidos em mármores negros, gigantescos templos ornados com pedras preciosas, fontes de águas sulfurosas etc. O escritor romano Diodoro, nos capítulos 19 e 20 do seu quinto livro sobre a História Universal, descreve a primeira viagem que os fenícios fizeram em direção ao local onde hoje é o Brasil “um grande continente a oeste da África do outro lado do mar, seguindo as correntes marítimas, onde existiam lindas praias, rios navegáveis, densas florestas e muitas montanhas”. E mais: os romanos conseguiram descobrir que os fenícios abarrotavam seus navios com ouro e prata levados “de um local do outro lado do oceano atlântico a oeste da África”. Tanto que se atribui ao filósofo Sêneca morto (em 64 a.C.) a frase: “nós romanos, sabemos que existe um país fértil além do oceano e que também lá nasce outro orbe, pois a natureza das coisas em parte alguma desaparece”. A disputa do domínio marítimo entre os fenícios e romanos é muito conhecida, mas pouco se fala sobre as lutas dos primeiros para evitar que os segundos descobrissem a rota para o território que hoje é o Brasil. O escritor americano Charles Berlitz, sempre lembrou lendas sinistras referindo-se aos navegadores romanos dispostos a enfrentar monstros e abismos que engoliam frotas inteiras daqueles que se atreviam tomar o rumo oeste buscando a África (ou seja, o atual território do Brasil) quando não eram abordados e postos a pique pelos fenícios. Também se conta que por diversas vezes espertos navegadores romanos tentaram seguir naus fenícias que se dirigiam para estas bandas, mas testemunharam que os comandantes fenícios preferiam afundar as próprias naus a ter que revelar suas rotas. Roma em terra era imbatível, mas no mar a superioridade dos fenícios ninguém poderia contestar. Conta a História que “nossos” colonizadores romanos só conseguiram chegar até estas terras, após se apoderarem de navios fenícios e assim copiarem seus formatos, construindo frotas absolutamente idênticas em relação a navegação. São longos, os relatos dessa disputa e não vem ao caso comentar. Para encurtar a conversa, bastará citar que só por volta do ano 120 a.C. os primeiros romanos conseguiram desembarcar em nossas terras, já sabedores que os melhores locais, embora muito distantes entre si separados por toda sorte de obstáculos naturais como grandes rios, montanhas, florestas etc., eram aqueles perto das grandes jazidas de ouro e prata, ou seja, onde atualmente é a Chapada Diamantina (na Bahia), Serra do Caparaó (na divisa de Minas e Espírito Santo), Serra do Cachimbo (no sul do Pará) e Serra do Paraíma (Roraima). Logo construíram dois grandes portos, um na atual Ilha de Marajó e outro onde hoje é a cidade de Belmonte no sul da Bahia, assim podendo encostar grandes navios de 5 velas, que segundo os historiadores Plínio e Heródoto, eram especialmente construídos na cidade de Carpássio em Chipre. Tais embarcações com capacidade para transportar 800 tripulantes retornavam abarrotadas de ouro, prata, madeiras de lei etc. além de grandes tonéis de água que lhes garantiam o que beber na longa travessia do Atlântico. Por volta de 300 d.C. o Império Romano passou a ser atacado por hordas de inimigos, necessitando apressar o retorno das suas legiões à Europa. Estima-se que só em 450 d.C. quase todos os romanos deixaram o Brasil, preocupados em defender seu país e em 456 d.C. o Império é destruído, ficando suas colônias na região do Brasil, assim como em outras terras como, por exemplo, a Grã-Bretanha  povoadas apenas por mulheres, crianças e alguns líderes religiosos, que foram desaparecendo.

Nem os mais ingênuos historiadores discordam que o Brasil já teria sido descoberto antes da viagem de Cabral. O incompreensível, porém, é ser nosso país um dos locais do mundo menos estudado em termos de arqueologia e história antiga, embora se registrem freqüentes referências sobre muitas inscrições em rochas, como as encontradas no atual Estado da Paraíba por volta de 1598 compostas por letras latinas. Posteriormente, começaram surgir mais notícias da presença de letras latinas e gregas, muitas formando palavras cuja sucessão resultavam em frases. Também se tem notícia do encontro de cerâmicas em estilo grego romano, além de moedas cunhadas por volta de 200 d.C. A Imprensa Oficial do Rio de Janeiro em 1938, editou um livro escrito por Bernardo Ramos, que passou mais de 30 anos pelo interior do Brasil pesquisando inscrições em rochas, onde prova ter encontrado “frases e que as cerâmicas apresentadas pertenciam ao estilo grego e que foram produzidas por mão humana hábil”, tendo assim o Instituto Histórico de Manaus concluído como verdadeiras tais afirmações, admitindo a possível existência em época remota de uma civilização clássica grego-romana no atual território brasileiro. O impressionante nisso, a meu ver, é que também foi dada conta de terem sido encontradas muitas ruínas de antigas metrópoles romanas, sendo a mais impressionante uma achada em 1753 por uma bandeira no interior da Bahia. Como nos interessa de perto, melhor explicitar. Os bandeirantes estavam buscando ouro e prata quando descobriram importantes vestígios de uma milenar cidade romana e disso foi enviado relatório ao então Vice-Rei (esse documento arquivado na Biblioteca da Corte já foi publicado na primeira Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil). Quem pesquisar a História haverá de encontrar referência a estátua de um cavalheiro romano existente numa ilha no arquipélago dos Açores, que foi destruída por ordem do Rei D. Manuel porque apontava o dedo indicador da sua mão direita em direção ao Brasil e o monarca, então em pleno curso das discussões  do Tratado de Madrid, no qual ficava estabelecido “quem provasse que estava de posse da terra seria seu legítimo dono” procurou apagar qualquer vestígio sobre a possível colonização romana do Brasil cuja propriedade já lhe estava assegurada. É crível que o Império Romano na época de expansão graças a sua extraordinária frota naval poderia, sim, ter atingido o Brasil e aqui instalado núcleos habitacionais.

Não desejo considerar esses fatos como algo definitivo, pois entendo que ainda há muito o que se descobrir e esclarecer. Gastei muitos anos pesquisando e aqui está um pouco do muito que consegui acessar, optando por abordar em forma de crônica para evitar longas e demoradas explicações que tornariam a leitura cansativa, se não até pernóstica.

Na verdade, tentei fazer reconstituição de fatos históricos que reconheço serem provavelmente diferentes dos livros modernos, mas posso assegurar que tudo relatado pode ser encontrado em manuscritos seculares: Cartas Régias de doações, autores da antiguidade clássica etc. Só mesmo com paciência e perseverança, pude amealhar o volume de dados que, mercê de Deus, agora possuo. As dezenas de visitas a Bibliotecas oficiais, sobretudo no Rio de Janeiro, São Paulo, Belém, Manaus, Salvador etc. forneceram-me material tão abundante que ultrapassa minha limitada capacidade para discernir. Resta-me, entretanto, a convicção de que assim como a História não pode ser mudada, o que aconteceu possa eternamente ser ocultado. Por enquanto, fico a imaginar que se o Império Romano não tivesse caído como caiu, ou então os mouros não tivessem invadido a península ibérica, a história do Brasil seria outra. E, quem sabe, a desta região também…

Adelindo Kfoury Silveira- Historiador, Jornalista e Escritor grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador da Fundação Jupará

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Walmir Rosario

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