CARTA DE ADELINDO KFOURY – ÍNDIOS FERREIROS E ONÇAS FERRADAS?

No Brasil pelo que vejo, não há mais respeito nem pela mentira. Antigamente as patranhas eram mais bem elaboradas, porém na atualidade acontece uma revolução na história da falta de vergonha. Estamos assistindo um festival de senadores que perdem a ética; deputados que perdem a vergonha; magistrados que perdem a honestidade; passageiros que perdem seus vôos; ministros que perdem ótimas oportunidades de ficarem calados; até balas que perdem seu alvo… mas como política não é minha praia, assim como o humanista pensa na próxima geração e o político na próxima eleição, eu penso mesmo é na veracidade dos fatos que envolvem a História de minha terra.

Nem de leve passaria pela minha cabeça ser dono da verdade, entretanto acho que já está na hora de voltar abordar o assunto, talvez pela enésima vez. Tenho lido, ouvido e assistido pessoas, até mesmo ilustres professores (com carradas de títulos no currículo), afirmarem ter sido frei Luduvico de Livorno o fundador de nossa querida Ferradas só integrada ao território itabunense seis anos após a emancipação do município, assim como devendo seu nome ao fato de ter sido um “local onde eram fabricadas e colocadas ferraduras em animais”… Permissa vênia os doutores, mas será preciso conhecer bem sua história, para poder transmiti-la de forma tão cristalina como água do Mutucugê. Hoje me permito mostrar que Ferradas não foi fundada por Frei Ludovico de Livorno, seu nome não foi em razão de ser ponto onde se ferravam animais, assim como não foi integrada ao Município de Itabuna somente a partir de 1916 (como tentam ensinar alguns neo-historiadores). E aproveito para lembrar ao coleguinha responsável pelo Caderno de Turismo do Jornal A TARDE que Jorge Amado nasceu em Ferradas (que tem nome certo) e não em local tão vago “região cacaueira, sul do Estado” como ele escreveu semana passada.

Em meados de 1553 o sertanista Bruza Espinoza chefiou uma bandeira que saiu da Vila de Nossa Senhora da Escada das Olivenças, também conhecida como Aldeia dos Índios dos Padres (hoje a linda Estância Hidromineral de Olivença) avançando pela selva em direção oeste, com justificativa de procurar ouro e prata que se presumia existir lá para as bandas das minas gerais. Integravam a comitiva os jesuítas Francisco Pires, João Aspilcueta Navarro e Manuel Chaves, liderados pelo Padre Manuel da Nóbrega. Após caminhada batida de dois dias, resolveram acampar na margem direita de um rio cuja água correndo entre enormes pedras escuras formava inúmeras cachoeiras. Graças ao silêncio da hora vésper daquele dia, ouviram Espinoza planejando com seus subordinados capturar índios para venda como escravos. Ali mesmo Nóbrega resolveu abandonar o grupo e começar imediatamente sua missão de atração pacífica para evangelização dos silvícolas. Os religiosos sozinhos naquele ermo, para identificar o local colocaram dentro de uma fogueira pedaços de ferro amarrados em forma de cruz e quando incandescentes descascaram algumas árvores marcando-as com esses improvisados ferrões. Primeiro sinal concreto da conquista pelo homem civilizado, daquele trecho de mataria bruta. Nóbrega retornou para a Capitania de Ilhéus deixando os jesuítas sob o comando de Aspilcueta Navarro, que se tomou de amores pelo lugar passando mais de quatro meses atraindo índios na tentativa de catequização. Nascia um referencial dentro da floresta, conhecido como “Sítio das Árvores Ferradas”, passando a ponto relativamente seguro para expedições que avançavam com destino ao sertão das minas gerais. Mateiros, caçadores de ouro, outros jesuítas e toda uma gama de pessoas foram se fixando. Assim passaram a viver em conjunto índios e brancos, formando famílias cujo meio de sobrevivência era o que a selva lhes oferecia. Tempos depois, tornou-se local de parada dos vaqueiros trazendo gado do sertão para Ilhéus. E por falar nisso, vale lembrar um fato curioso: durante muitos anos Ilhéus foi a única capitania da América que não tinha açougues, simplesmente por não existir aqui nenhuma cabeça de gado…

Nos dois séculos seguintes, a vila teve o amparo e praticamente foi administrada pelos jesuítas. Em 1607 o padre Cristóvão Valente aprendeu a língua aimorética dos tupis, nela fazendo os sermões. A partir de 1752, seus moradores começaram a plantar cacau. Padres como Leonardo Nunes, Luiz Rodrigues, Sebastião Pina, Manuel Gomes, João da Costa, Duarte Morais entre outros, se sucederam no trabalho da catequese dos índios que eram atraídos e recebiam proteção contra as perseguições tanto dos colonos como principalmente dos cruéis Aimorés que não davam trégua em constantes incursões devastadoras. Em fins de 1759, conseqüência de Édito Real expulsando os jesuítas do Reino e Colônias, os padres que trabalhavam em Ferradas foram embora, entrando a vila em terrível decadência. Somente vinte anos depois, um sentimento de esperança tomou conta do lugar, graças a passar por ali o traçado de uma estrada ligando Ilhéus à região de Conquista em demanda a Minas Gerais. Anos depois foi revogado o ato de expulsão dos jesuítas, conseqüentemente permitindo alguns de seus membros retomarem a administração do Sitio das Árvores Ferradas.

Aqui, podemos nos deter sobre o aparecimento de frei Ludovico de Livorno, nascido Giuseppe d’Anton Franco Ghelli na cidade toscana de Livorno em 26 de julho de 1773, filho de Anton Francesco Ghelli e Maria Videdomini, católicos praticantes. Pela influência do padre provincial Michelangelo do Santo Sepulcro, ao completar 21 anos de idade, no dia 8 de outubro de 1794 ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, internando-se no Convento de São Pulciano localizado na aprazível cidade italiana de Montepulciano. Em 14 de dezembro de 1797 aceitou os votos perpétuos como adepto da Ordem, somente a partir de então passando adotar o nome religioso de Frei Ludovico de Livorno. Em 1803, após concluir os estudos, tornou-se apto ao múnus sacerdotal, inclusive assumindo o cargo de mentor para grupos de jovens professores religiosos no Convento de São Lourenço. Irrequieto e corajoso convenceu seus superiores indicá-lo para o exercício missionário em terras do “Novo Mundo” cujas histórias de desbravamento fascinavam-no. Relembrado isso, vamos ao que interessa no momento, inclusive falando um pouco sobre personagem importante para elucidação.

Centenas de biografias de Napoleão Bonaparte já foram divulgadas nos mais diversos países. Já tive oportunidade de ler umas poucas (naturalmente traduzidas para o português…), porém gostaria de fixar-me naquela escrita em 1846 pelo médico baiano Caetano Lopes de Moura que fora Cirurgião-mor da Legião Portuguesa incorporado ao exército do imperador francês, magistralmente comentada pelo escritor Cláudio Vieira em seu livro “Um brasileiro soldado de Napoleão” (São Paulo:Àtica, 1979). Embora muitos autores divirjam sobre a data, é segura a informação quanto à passagem pela Bahia, em sua viagem para Santa Helena, dos navios franceses La Belle Poule e Favorite, sob o comando do Príncipe de Joinville. Desembarcou do Favorite em terras baianas um “frei que serviu como capelão ao exercito de Napoleão” e outro não poderia ser senão Ludovico de Livorno… Aliás, quem se aprofundar no cotejo entre muitos autores, haverá de ficar convencido que os dois navios zarparem da Bahia direto para a Ilha de Santa Helena, onde permaneceram de 28 de agosto até 14 de setembro, quando aí sim, retornaram “à França, numa viagem sem escalas, em rota batida, tendo chegado a Cherbourg a 30 de novembro daquele mesmo ano”. Cumprindo ordens de seus superiores, frei Ludovico veio fixar residência no Sitio das Árvores Ferradas, que a essa altura já gozava da condição de Vila, chegado em 2 de março de 1816. Foi daí que o lugar experimentou uma fase de grande progresso. Esse abnegado religioso desenvolveu extraordinário trabalho, tornando-se verdadeiro líder comunal e os silvícolas o chamavam de pai. Cuidava das crianças, alfabetizando-as. Dava assistência aos doentes, não recusando carinho e afeto a quem precisava. Fez construir fossas nos casebres, ensinou hábitos de higiene, casou quem vivia maritalmente. Índios de toda região convergiam à procura de conselhos e ajuda. Em 1846, frei Ludovico contraiu malária, tendo que deixar seu querido sítio, indo para Salvador onde dois anos depois faleceu. No dia 19 de agosto de 1874, o Governador da Província Dr. Venâncio Lisboa, sancionou a Lei n.1425 criando a Freguesia de D. Pedro Alcântara, como homenagem ao Imperador do Brasil D. Pedro II. Os habitantes, contudo, teimavam em chamar o lugar de Vila das Árvores Ferradas. Até mesmo a classificação através da Lei Municipal da Prefeitura de Itabuna n. 9 de 14/9/1916 transformando-a em distrito de “Conceição de Ferradas”, não vingou. Então, chegou aos nossos dias como FERRADAS, simplificada a denominação original de “árvores ferradas”. Quando ouço dizer que foi o abnegado frei Ludovico seu fundador, aconselho ler história do Brasil e da Bahia, também recorrendo à tabuada do primeiro grau, pois entre 1553 (quando o sítio surgiu), para 1846 (quando frei Ludovico chegou), existe uma distância de “apenas” 293 anos… E porque naqueles tempos aqui só existiam índios e animais ferozes, confesso que nunca vi qualquer gravura de um Pataxó ferreiro ou alguma onça com ferradura nas patas…

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Walmir Rosario

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