CARTA DE ADELINDO KFOURY – A “ITABUNENSE” RACHEL DE  QUEIROZ

A “carta” da quinzena passada sobre Jorge Amado rendeu-me dezenas de e-mails não pela retórica, mas pelo fato que figuras de grande porte midiático sempre alvoroçam os queridos quasenheum leitores. Atendendo alguns pedidos lembrarei outra personagem que, mesmo tendo morado em Itabuna, não será honesto permitir nossa cidade vangloriar-se como sua terra natal.

Uma quarta-feira, 14 de dezembro de 1932, no Sítio do Pici, imediações de Fortaleza, a filha de Daniel e Clotilde Queiroz chamada Rachel, em cerimônia simples casava-se com José Auto da Cruz Oliveira, funcionário do Banco do Brasil recém-transferido para um lugar nos confins do sul da Bahia, onde o casal passaria a morar. Tendo que viajar no dia seguinte, a recém-casada despediu-se dos convidados dizendo:

– Ilhéus já conheço através de Jorge Amado, mas essa Itabuna nunca ouvi falar –.

Logo chegou a Salvador, o casal foi para casa de Agesislau Auto, tio de José e após dois dias de descanso seguiu de navio para Ilhéus sendo ali recebido pessoalmente pelo jovem estudante Jorge Amado. Os nubentes passaram a noite na residência de João Amado. Embora cercados de gentilezas, o funcionário estava sujeito às duríssimas normas do Banco do Brasil e, assim, deveriam rumar para Itabuna imediatamente. Passageiros de primeira classe no trem da Estrada de Ferro Ilhéus-Conquista, às 11 horas do dia 2 de janeiro de 1933, uma segunda-feira, pisaram em Itabuna, cidadezinha calma no coração da Região Cacaueira, com cerca de 12.000 habitantes, distante mais de 400 quilômetros da capital do Estado. José Auto chamou o carregador nº 1, conhecido como “Padre”, confiando-lhe a bagagem e pedindo para ser conduzido até um pequeno sobrado na Rua de Areia, previamente alugado através de colegas do banco.  Antes mesmo de subir o batente da porta, a jovem senhora foi acometida do que nestas bandas se chamava de “entojo”. Quase desmaiada, levaram-na para o quarto. O médico Carlos Cavalcante da Silveira, chamado às pressas, aventou possibilidade de gravidez.

– Doutor, não se poderá imaginar antecipações, porque Zé Auto, até o casamento nunca chegou perto de mim, senão com um simples abraço para dar adeus e chegou ao Ceará três dias antes de nos casarmos! –, gritou a jovem senhora naquela sua característica maneira de contestadora, hábito adquirido através militância política.

Os primeiros dias foram horríveis para a cearense, com sucessivas crises. Segundo depoimento de sua irmã Maria Luiza, nesse tempo o Banco do Brasil adotava um regime “de tirania, pois os funcionários entravam de manhã cedo, saíam no fim da tarde e, freqüentemente, faziam serão à noite”. Embora afetuoso, José Auto se mostrava um marido relativamente ausente.

A moça padecia de enorme solidão, só amainada pelas constantes visitas do amigo Jorge Amado, que muitas vezes até lhe ministrava remédios alcalinos e ácidos que já levava nos bolsos (detalhe: o frasco do alcalino no esquerdo e o ácido no direito). Também um moço e iniciante cultor das letras chamado Adonias Filho, residente numa fazenda das redondezas, tornou-se assíduo interlocutor da escritora, cuja forte amizade existiu enquanto viveram. Só no meio do ano confirmou-se a gravidez e então o pior aconteceu. A gestante foi acometida de impaludismo, doença endêmica da região cujo tratamento só poderia ser feito com quinino e sendo potencialmente abortivo, ela não poderia tomar. Felizmente conseguiu uma empregada doméstica chamada Carmelita (antiga dona de uma pensão de raparigas, já aposentada da profissão). Essa velha dedicou-se à patroa com carinho de mãe. Também a jovem senhora travou relacionamento com uma judia suíça chamada Lena Weber, filha de um comerciante residente na Rua do Zinco, cuja companhia se tornou constante. Nessa altura apareceu por aqui o sertanista Cildo Meireles, irmão do famoso indianista Francisco Meireles, amigo da família, que trouxe da região do Rio Paraguaçu um indiozinho de sete anos, logo batizado como Zé Tiabê, dando-o “de presente” para ajudar nos trabalhos domésticos. Essa criança apegou-se com afeição à sua benfeitora. Certa vez, ela desmaiou no alto da escada e só não morreu porque Tiabê com agilidade dos seus ancestrais “embolou” junto, segurando-lhe a cabeça para não bater nos degraus. Já no sétimo mês de gravidez, a esposa de Zé Auto com apenas 23 anos de idade, tão sacrificada pelo impaludismo e receios de uma recidiva de doença pulmonar que tivera por volta de 1930, sugeriu ao marido pedir transferência para outro lugar, o que ele não conseguia. Infelizmente, em fins de 1933, sentada numa espreguiçadeira, a lona rasgou e na forte queda rompeu a bolsa d’água. Sendo imperiosa sua remoção para cidade com maiores recursos médicos o pai mandou seu irmão Roberto busca-la, ficando Zé Auto para ir tão logo o banco liberasse. Ela e o irmão seguiram de trem para Ilhéus, embarcaram em navio para Salvador e de lá rumaram para Fortaleza.

Como tanto a sua fase “itabunense” e o “episódio” do casamento com o bancário José Augusto praticamente não são focados nas biografias da grande dama de nossa literatura, tomo a iniciativa de fazê-lo nestas maltraçadas de hoje. Até porque só após o segundo matrimônio, com o médico Oyama de Macedo, passou a residir no “Sítio Não Me Deixes”, pedaço de terra desmembrado da Fazenda Arizona, em Lagoa da Parangaba, no Município de Quixadá.

Em agosto de 1982, participando como convidado especial dos organizadores da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira em São Paulo, hospedado no Grande Hotel Ca’Doro fiquei numa suíte (dividida com o jornalista Wily Modesto) vizinha à ocupada pelo grande e saudoso escritor grapiúna Adonias Filho e assim tivemos oportunidade para longas conversas, sendo um dos assuntos prediletos a vida de Rachel de Queiroz em nossa região. Para satisfazer sua curiosidade, tive de contar porque conhecia com tantos detalhes.  Quando Rachel chegou à Itabuna, minha mãe era também uma jovem recém-casada e pela razão de caminhar entre a Rua do Zinco e o centro da cidade ainda com poucos habitantes, passava constantemente pela porta da escritora, sendo natural naqueles tempos a troca de cumprimentos, resultando isso numa forma de aproximação das pessoas. Como minha família pertencia ao Partido Integralista e por Rachel de Queiroz ter chegado com fama de importante ativista do Partido Comunista, minha mãe foi instada a evitar relacionamento mais estreito… Tudo me revelado a viva voz, quando eu ainda criança.  Certamente que este pequeno capítulo sobre a vida da autora de “O Quinze” não se encontrará com facilidade, mesmo nas grandes bibliotecas. Sua extraordinária carreira literária, além da militância arrojada na política, sua projeção internacional etc., tudo isso será facilmente encontrado. Passo para vocês, o que pouquíssimas pessoas sabem: o curto espaço de tampo que viveu em Itabuna RACHEL DE QUEIROZ, primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras.

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Walmir Rosario

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