CARTA DE ADELINDO KFOURY – JORGE DE TODOS NÓS

“Cidade do meu amor, Rainha do Sul, reduto de índios, capitania, porta do cacau aberta ao mundo, porta de entrada ao universo grapiúna, São Jorge dos Ilhéus! Sou teu filho, cresci em tuas ruas, contigo aprendi a liberdade e o futuro, a luta contra a opressão e a miséria, contigo aprendi o amor – minha cidade de Ilhéus, minha pátria bem-amada!” (Jorge Amado, in “Declaração de Amor à cidade de São Jorge dos Ilhéus”- jornal A Tarde, 1981).

Sexta-feira completou oito anos a morte de Jorge Amado, quando faltavam exatos cinco dias para completar 89 anos de idade. Embora mergulhado há mais de 60 anos na pesquisa histórica de minha terra, não sou pai de nenhuma verdade. Apenas tenho a responsabilidade de relatar fatos sobre os quais não me restem quaisquer dúvidas. A mim, interessa mais que o escritor seja brasileiro, que propriamente desta ou daquela cidade da Região Cacaueira.  Sou contra o ridículo bairrismo existente entre Ilhéus e Itabuna, pois entendo que as duas cidades, juntas, representam uma força poderosa no Estado da Bahia e, separadas, não passam simplesmente de dois conglomerados urbanos, paridos do mesmo ventre da Região Cacaueira.

Provavelmente no mês de agosto a mídia haverá de reservar muito espaço sobre a vida e obra desse que foi um dos mais badalados escritores brasileiros. Naturalmente que em nossa aldeia estaremos correndo o risco de novas especulações sobre sua verdadeira cidadania. Afinal, nasceu em Ilhéus ou Itabuna? Tenho em meus arquivos várias publicações de caráter didático, com circulação em todo país e utilizadas até em vestibulares, contendo informações absolutamente erradas sobre isso. O Grande Dicionário Enciclopédico Brasileiro, no seu volume 1, indicava como nascido em “Pirangi, município de Ilhéus”; o Dicionário de Biografias e Literatura, Editora Logos, dizia que nasceu em “Ilhéus-Bahia”; a Enciclopédia Século Vinte, Livraria José Olympio Editora, limitava-se dizer nascido em “Ilhéus”; a Enciclopédia do Estudante, da Abril Cultural, informava “nasceu em Pirangi, no sul do Estado da Bahia”; a Enciclopédia Delta Larousse definia como  “um escritor baiano”; a Enciclopédia Universo, Editora Três (Delta) dava conta de que “nasceu em Ferrados (com “o”)nas proximidades de Ilhéus, Município de Itabuna (!)”. Embora tais publicações fossem oriundas de editoras responsáveis com endereço conhecido, nunca divulgaram qualquer retificação a pedido do biografado ou seus familiares… De minha parte, procurei repor-lhes a verdade através de correspondências prontamente atendidas, pois que em posteriores edições sanaram os equívocos.

Sem querer polemizar, simplesmente afirmo que não devem existir dúvidas, pois o nosso conterrâneo teve seu nascimento registrado nada menos que três vezes! Duas por seu pai João Amado de Faria e uma pelo tio Álvaro Amado de Faria. Também em meus arquivos, guardo as certidões autenticadas. O primeiro registro foi no dia 5 de junho de 1913, no Cartório de Antonio Lopes Oliveira e Silva, em Itabuna, Livro A-4, folhas 54-verso e 55, sob  número 303, dando como “nascido em 10 de agosto de 1912, no Arraial de Ferradas, neste Termo de Itabuna” e foi declarante “seu pai João Amado de Faria, tendo assinado como testemunhas Manuel da Silva e Leopoldo Freire”. Anos mais tarde, ou seja, no dia 25 de maio de 1917, ocorreu o segundo registro, no Cartório de Thadeu Correia da Silva, Livro A-8, folhas 39-verso e 40, sob número 1.359. Foi declarante também o próprio pai que deu o local de nascimento em “Ferradas, deste Termo de Itabuna, tendo como testemunhas Carlos Ramos e Cezar Campos”. O terceiro registro, que talvez tenha ensejado as maiores confusões, foi realizado em 11 de março de 1931, no Cartório de Américo Oliveira Lima, Primeiro Distrito de Paz de Itabuna, Livro 3-1, folha 231 com Termo número 516. A data de nascimento foi a mesma, contudo já o declarante foi Álvaro Amado de Faria, irmão do pai de Jorge. O local do nascimento foi indicado como “neste Município de Itabuna e Fazenda Auricídia. Assinaram como testemunhas Francisco Fontes da Silva Lima e João Baptista Santos”. Diante de tais documentos não deve restar a menor dúvida de que Jorge Amado é itabunense. A quem argumenta que o município ainda pertencia a Ilhéus, desmente-se facilmente com o argumento incontestável de que desde 28 de julho de 1910 Itabuna já estava emancipada.  O que não se poderá esquecer é que ele saiu de Ferradas com alguns meses de vida.

Durante as muitas palestras que dou, surgem indagações sobre autenticidade do tombamento de uma casa em Ferradas, onde teria nascido o grande escritor. Sempre respondo que, em primeiro lugar, não tenho convicção se ainda existe tal imóvel, pois segundo depoimentos que tomei de antigos moradores da Vila, a enchente de 1914 praticamente arrasou aquela área, além do fato de que muitos afirmam ter ocorrido o nascimento na própria Fazenda Auricídia onde residia a Família Amado. Tal fazenda ficava nas imediações de Ferradas. Em segundo lugar, entendo que se deve fazer uma distinção entre o escritor brasileiro Jorge Amado e o itabunense Jorge Amado. Como escritor ele merecer todas as homenagens de qualquer cidade brasileira, pois é um nome de projeção internacional, com acervo de obras que engrandece qualquer povo.  Como filho de Itabuna, faço restrições, pois esta cidade sempre entrou em seus livros como pequeno e inexpressivo acidente geográfico ou complementação cenográfica regional.  Sou favorável, sim, a homenagens ao seu trabalho como escritor de temas regionais propagarem as terras do cacau. Tenho por ele uma grande admiração e confesso que posso ter sofrido sua influência nos meus trabalhos literários. Seria uma felicidade muito grande para mim, como filho de Itabuna, constatar que o grande romancista considerasse esta terra como seu berço natal. Afinal um município cuja história de lutas e sofrimentos engrandece qualquer pessoa, nas alturas onde estiver.  Aceitar o fato consumado de ser filho desta terra, jamais seria constrangedor para ninguém. Mágoas e ressentimentos por fatos desagradáveis ocorridos no passado, no máximo deveriam ficar restritos aos seus protagonistas. À terra, não.

Meu desejo muito sincero é que o escritor Jorge Amado seja considerado um filho de toda a Pátria Grapiúna. Na Carta Régia que criou a Capitania de São Jorge dos Ilhéus, D. João III em certo trecho determinou que “faz-lhe doação para sempre de juro e herdade, e para seus netos e herdeiros e sucessores assim descendentes, como transversais e colaterais das cincoenta legoas de terras…” Nossa Capitania enfrentou os séculos e os homens. Parece que a História a preservou para chegar aos nossos dias, porque a ela estava destinada a glória de gerar e parir a Região Cacaueira. Região que Deus premiou como berço do grande Jorge Amado. Não podemos esquecer que foi da antiga Capitania de Ilhéus que tiramos as nossas cidades, do seu ventre saíram Itabuna, Ibicaraí, Itajuípe, Buerarema, Coaraci e tantas outras, porque foi doado a todos nós “para sempre de juro e herdade e, para filhos e netos e herdeiros e sucessores” que somos eu e todos vocês queridos quasenheum leitores. Assim, entendo que Jorge Amado deva ser considerado filho da Grande Pátria Grapiúna, de todas nossas cidades, porque nem deveriam existir limites territoriais nestas bandas.

 

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Walmir Rosario

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