CARTA DE ADELINDO KFOURY – CANELANDO NO ANTIGAMENTE

Fiquem avisados os queridos quasenenhum leitores que Mestre Walmir Rosário permitiu-me abrir uma “janelinha” no seu extraordinário site “CIADANOTICIA”, onde vez-por-outra estarei exibindo-me… Já na primeira vez, rendeu-me indagações se Rua do Buri, ao contrário do que referi como antigo trecho da avenida do Cinquentenário, não teria sido a atual Duque de Caxias. Ambas foram assim conhecidas, pela simples razão de que antigamente os “caminhos” eram identificados por determinadas peculiaridades.

Tivemos ruas Jaqueira, Laranjeiras, Taboquinhas, Lama, Areia, Cemitério, Zinco (onde nasci!), Cajueiro, etc. Para melhor compreensão, convido vocês para uma “canelada” (caminhada, como se dizia naquele tempo…) do lugar Conceição de Ferradas até o Morro dos Canecos, indo por um caminho e voltando por outro. Partindo do Pouso das Tropas (perto de Ferradas, onde primeiro morou a família de José Firmino Alves) passamos pelas fazendas dos Coronéis Tertuliano Pinho e Berilo Guimarães; subindo pela direita contornamos o cemitério e descemos pela Rua do Quartel Velho até a beira de cima da lagoa (que separa as ruas do Buri com a da Lama) descemos pelo curral de Jorge Grego até a Praça da Estação e seguindo em frente atravessamos o pontilhão sobre o ribeirão Lava-pés (assim chamado porque os moradores das roças após transitar por caminhos lamacentos, antes de penetrar na cidade lavavam os pés para calçar sapato), entrando pela Rua da Linha (trilhos da Estrada de Ferro Ilhéus Conquista, mas que nunca passaram de Itabuna…) se olharmos para a direita veremos pelas laterais a Rua Salto do Bode e pela esquerda a Rua do Gás; entre as ruas do Triângulo e Caixa D’Água, evitamos o começo da estrada Itabuna-Ilhéus que passa pelo pasto e curral de Seu Zezé seguindo pelo caminho da esquerda (se entrar à direita, rumaremos para o Escondido, Mutuns, etc.) até o alto do Zinco e da porta do Castelo de Maria Beata descendo a ladeira viramos pela Rua do Matadouro (atualmente batizada com o nome deste macróbio) até chegar ao Caldeirão Sem Tampa; daí passando pelas hortas do português Seu Correia e pela frente da casa da Família Loup (onde nasceu D. Cordulina, segunda esposa do Coronel Henrique Alves) mais na frente pelo Campo de Experimentação de Plantas da Prefeitura só precisamos agora subir a ladeira para chegar ao destino. Na volta vamos encompridar mais o caminho, para vocês conhecerem melhor. Descendo, atravessamos a pé o ribeirão onde mulheres lavam tripas de boi e subimos margeando o rio pelo caminho entre o caís e o matadouro de porcos até o fim da Rua de Taboquinhas; virando à direita da praça Silva Jardim (onde está a Padaria Amazonas de meu avô) seguimos pela Rua do Zinco até dobrar a esquerda e margeando o campinho da Fifa (construído e mantido por meu pai) subir pela trilha do Morro de Dr. Caetano no fim da qual está a Marcenaria de Mestre Serapião (um dos artesãos mais honestos desta terra, sobre quem já escrevi!); logo pegamos a Rua da Lasca (de um lado veremos o Colégio Luso-Brasileiro onde estudei com minha saudosa professora Maria Celeste e do outro a residência de Josafá Soares, vizinha da casa onde à porta estará um casal de jovens namorados chamado Eva e Otoni…), descendo a ladeira topamos com a Rua de Areia que nos leva até a praça da Matriz (nosso primeiro campo de futebol); pelo lado direito da primeira Igreja de São José entramos num beco para alcançar a Rua da Lama e seguimos até a parte de baixo da lagoa, quando então por uma nesga à esquerda passamos à Rua das Laranjeiras, percorrendo-a até o fim que é no curral de Coronel Martinho Conceição; então, seguindo direto pela Rua da Jaqueira sempre margeando o rio entramos na Burundanga e pela Rua de Palha chegamos ao destino.

Se desejassem passear mais um pouquinho, ali da Praça da Estação poderíamos subir uma íngreme ladeira à direita rumo oeste até o Pau Caído e de lá descer pelas vielas entre as olarias naquele trecho do melhor barro vermelho com o qual eram feitos os tijolos de nossas primeiras casas; cruzando por dentro de uma área constantemente alagada pela água das chuvas intermitentes tão habituais (daí apelidado de Pontalzinho, numa comparação folclórica com Pontal de Ilhéus) atingindo novamente a margem do ribeirão e, ao leste seguindo seu curso até o rio que poderemos atravessar por um sequeiro e chegar até o bairro da Abissínia, ironicamente conhecido por tal nome em razão das muitas cenas de violência ali registradas, comparando-se com a guerra então travada naquele país. E por mais que diversos historiadores tentem negar, deve-se também a uma abominável discriminação racial de alguns desbravadores sergipanos brancos em relação aos seus primeiros moradores na maioria pessoas de pele escura. E já que estando naquele bairro, poderíamos dar uma pernada boa passando por sobre as três ilhas existentes ali em frente no meio do Rio Cachoeira. A primeira, com extensão de uns 10 hectares, chama-se Ilha do Mutucugê. A segunda pouco menor, medindo uns 3 hectares, tem o nome de Ilha do Sequeiro (junto a qual passamos em nossa caminhada por dentro d’água até o bairro). A mais importante delas é a Marimbeta (por sobre a qual o desbravador Felix Severino atravessou até o local onde começou formar nossa cidade), que pelo tempo afora ganhou mais três nomes: Ilha do Temístocles, Ilha do Capitão e por fim Ilha do Jegue. Prometo aos queridos quasenenhum leitores recontar sua história tim-tim-por-tim-tim, qualquer dia desses.

Creio que por hoje basta, pois vocês devem estar cansados.

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