BRAVATAS NÃO DESCOLAM NÁDEGAS

Walmir Rosário*

O produtor rural brasileiro, cansado de ameaças feitas pelos bancos, agora assiste, impassível, a mais uma, só que da lavra do próprio Presidente da República. Como se sempre fora um homem bem-sucedido pelo seu passado empresarial, Luís Inácio Lula da Silva deitou falação a respeito da imobilidade do brasileiro, que “não levanta a bunda” da cadeira para procurar bancos com taxas de juros menores.

Não acredito que existam dados na biografia do presidente Lula dando conta de algum ato administrativo seu no comércio, indústria ou prestação de serviço. Pelo que se sabe, ele é um homem bem-sucedido, sim, com posses, todas adquiridas sem que se desse ao trabalho de tomar determinadas atitudes como a que acaba de recomendar.

Quando ainda no chão da fábrica, dizem que ele não procurava nem mesmo um bar da esquina onde a cerveja era mais barata. Na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sua luta foi outra, corporativa e digna na busca da recomposição dos salários dos metalúrgicos, embora soubesse (será?) que aumento de salários alimente a inflação. Talvez por isso não permita tal comportamento na economia de hoje, acertadamente, dizem seus ministros.

E agora, o que pensarão os produtores rurais a respeito dos ensinamentos dados pelo presidente Lula, ao vivo e em cores para todo o Brasil? Devem estar se sentindo uns idiotas, incapazes e irresponsáveis por não ter a coragem de ir às agências do Banco do Brasil, Nordeste, Amazônia e outros tantos que trabalham com crédito agrícola, e passar uma descompostura no funcionário da carteira agrícola e no seu gerente.

Sim, isso mesmo, ir lá e dizer com todas as letras que não aceita mais esse tipo de comportamento argentário assumido por eles num país democrático, capitalista, de economia aberta e que se fortalece frente à economia internacional. Caso o gerente do seu banco não se sensibilize com sua justa reivindicação, se invista de fiscal de Lula (basta lembrar dos fiscais do Sarney), feche a agência bancária e prenda o gerente pela prática da usura, conforme está prevista na legislação brasileira.

Feito isso, vá a outro estabelecimento bancário, faça um relato minucioso do seu patriótico feito e alerte ao gerente das penalidades que ele pode estar incurso caso adote o mesmo procedimento. O gerente não se sensibilizou e nem aceitou? Não esmoreça, faça tudo de novo, invoque o discurso do presidente Lula e se invista dos mesmos poderes.

Realmente, bem que você pensava que nada disso daria certo, que seria uma loucura seguir aos conselhos de quem não tem a mínima experiência empresarial. Logo você que passou anos e anos trabalhando sob sol e chuva, acreditar num político sem grandes conhecimentos e que vive nababescamente a serviço de um partido político dirigido por experientes intelectuais da ciência política.

Mas não se aflija, pois desde que os políticos mandam no mundo isso acontece com frequência, mudando-se apenas os métodos e os interlocutores. Faça de conta que nosso governante estava apenas “mareado” com as constantes mudanças de fuso horário, pressões diferentes de altitude, além das chatas, mas institucionais recepções com comes e bebes a que é obrigado a participar nesta vida dura de presidente.

Lembre-se do passado e imagine do que teria sido se você, por acaso, tivesse acatado todos os ensinamentos dados pelos economistas que servem aos mais variados governos. Não estaria mais aqui para contar história. Melhor do que isso só participar de seminários motivacionais, ouvindo estórias e realização de consultores de mercado sobre as possibilidades de seu sucesso, caso siga, palavra por palavra os seus ensinamentos.

Somente pela verborragia presidencial, acredito que o produtor rural deve desgrudar suas nádegas da espreguiçadeira e cobrar dos políticos em que votou um basta no festival de besteiras ditas pelo presidente. Na verdade, partindo isso de quem tem a obrigação de regular os juros, não sei se suas palavras são apenas besteiras colocadas da boca pra fora, ou fazem parte de uma estratégia do Palácio do Planalto de partir para o ataque antes que os brasileiros o façam.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 30-04-2005

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