BOTAFOGUENSE TORCENDO PELO FLAMENGO…SÓ EM CANAVIEIRAS

Walmir Rosário*

Tem coisas que somente acontecem com o Botafogo! Essa assertiva, que creditam a autoria ao “filósofo” Neném Prancha, serve para explicar muitos dos absurdos cometidos contra o Glorioso Clube da Estrela Solitária desde os bons tempos de General Severiano. E eu, como bom botafoguense, acrescentaria que os absurdos também acontecem, ou melhor, são cometidos também pelos torcedores do clube.

E sem rebuscar a memória, lembro-me bem de Dudu Rocha, botafoguense de boa cepa, filho, neto e sobrinho de torcedores do Fogão, que num momento de desespero chegou a delirar e afirmou em alto e bom som que passaria a torcer pelo Flamengo. Vade retro, satanás, disse eu assim que tomei conhecimento da notícia, me enviada por ele, inclusive com uma faixa de campeão dentro do envelope onde mandou a missiva.

Também do Alto Beco do Fuxico, em Itabuna, local em que até hoje os botafoguenses são maioria absoluta – para o desespero de José D’Almeida Senna – aconteceu uma quase segunda defecção. Num momento de excesso de bebida, eis que o botafoguense Robson Oliveira, caixeiro viajante (ou representante comercial, como queiram) e dono de botequim, também sofreu acessos de loucura e sacramentou uma aposta, na qual torceria para o Flamengo se o Botafogo perdesse. E o Botafogo perdeu, mas foi roubado.

Volta e meia surge alguma conversa mole de botafoguenses que se bandearam para o time da Gávea, mas notícias que não merecem veracidade, daí que nem me preocupo em relatá-las. De antemão, acredito que o cabra deve ter tido um momento de loucura ou foi embriagado com muita cachaça para torcer pelo Flamengo, time que o Botafogo submeteu a muitas derrotas acachapantes, verdadeiros vexames.

Mas desta vez o portador da notícia foi nada menos do que o jornalista aposentado Tyrone Perrucho, que atualmente se dedica aos prazeres da mesa – de bar, que fique bem entendido. Num dos muitos telefonemas que trocamos, eu em Joinville, procuro saber quais as novidades em Canavieiras, quando ele me responde na lata: “Você perdeu, Du Baião ajudou financeiramente a comemoração da vitória do Flamengo sobre o River”.

Minha reação não poderia ter sido outra: “Você está bêbado uma hora dessas (como se tivesse horário para tal) ou perdeu o juízo? Du Baião é botafoguense de quatro costados e não cometeria tal sacrilégio”, respondi. Com a calma que lhe é peculiar, de forma didática, Tyrone me explica que continua sem beber sua sagrada cerveja e que toda Canavieiras estava perplexa com o fato, pra lá de verdadeiro e que poderia ser facilmente atestado.

E disse mais: O Danilo da Brasília [padaria] fechou a rua 13 com um minitrio elétrico e um telão na equina com a Rio Branco e, junto com outros flamenguistas, armaram um paredão de som do outro lado, interditando o tráfego, transformando o local em reduto do time que tem como mascote um urubu. O problema é que as despesas tinham que ser bancadas pela turma, nem sempre disposta a coçar os bolsos.

Com a grana curta, o jeito era calar o minitrio, pois o tanque de combustível do equipamento de som já se encontrava sem o óleo diesel para continuar fazendo o barulho do jeito que os flamenguistas queriam. Mas eis que se apresenta o botafoguense Du Baião e, com todos os requintes de prodigalidade, se oferece para contribuir financeiramente com os festejos.

E antes que a galera flamenguista questionasse sobre a veracidade da boa vontade de Du Baião, ele mais que depressa confirma sua disposição em contribuir com 10 litros de óleo diesel para continuar o fovoco. Como também possui carro que utiliza diesel como combustível, tirou os recursos já contados da carteira, e diante da incredulidade dos organizadores ainda comentou: “Aí dá pra tocar mais umas quatro horas”.

Como ninguém acreditou no que viu, passaram a investigar o gesto de desprendimento do botafoguense. De início pensaram que ele tivera alguma rixa com algum argentino torcedor do River Plate, o que foi descartado de pronto. Quem sabe, teria ele se bandeado para o Flamengo? Também não acreditaram, até porque ele não gosta de muito barulho, demonstrado anos a fio durante os carnavais.

Em pouco tempo o quebra-cabeças foi resolvido por um seu amigo próximo, que revelou a causa da benevolência de um dos financiadores da comemoração. Pelo que se soube pelo amigo, Du Baião se encontrava muito chateado com o barulho feito pela vizinhança, especialmente por um templo protestante que funcionava diuturnamente causando bastante barulho, que nem de trio elétrico precisava, daí a ideia de oferecer o óleo diesel para o minitrio.

Diante do arrazoado, fiz ver ao jornalista Tyrone Perrucho que sua informação procedia apenas em parte, pois nunca passou pela cabeça de Du Baião tão tresloucado gesto de trocar o Botafogo pelo Flamengo. É por isso que nessas horas é preciso muita prudência para analisar as causas e não partir diretamente para dar nota diretamente nos efeitos. Ele simplesmente usou sua inteligência para fazer com que os torcedores adversários resolvessem seus problemas. Dito e feito, notícia sem fake news.

*Radialista, jornalista e advogado.

Author Description

Walmir Rosário

No comments yet.

Join the Conversation