BOTAFOGO É MAIORIA NO ALTO BECO DO FUXICO

A história verdadeira de como os botafoguenses, entre um gole e outro, tomaram de assalto o bar de um torcedor do Fluminense, fincaram pé, bandeira e de lá nunca mais saíram

Walmir Rosário*

Tem coisas que somente acontecem com o Botafogo, frase dita por um botafoguense irado e transformado em ditado popular ao longo dos anos. É certo que as coisas ruins, as derrotas inesperadas para adversários considerados fáceis e as dificuldades internas todos sabem. Mas nem sempre as coisas boas, positivas chegam aos ouvidos dos próprios torcedores, quem dirá dos empedernidos adversários. Nesse meio estão incluídos flamenguistas, vascaínos e outros torcedores de times menores.

Mas vamos deixar a vida dos outros de lado e nos ater ao que interessa. É bom que se torne público para que não pairem dúvidas sobre a suprema e esmagadora maioria da torcida botafoguense que frequenta as mesas dos bares do Alto Beco do Fuxico. Claro que eles também, democraticamente, dividem as mesmas garrafas com torcedores que não tiveram a mesma sorte de torcer para o Glorioso de General Severiano, onde as superstições ajudam a ganhar uma partida. Mas isso são apenas detalhes.

Renan Sílvio Santos

Neste sagrado ano de 2005, quando o Bar de Ithyel completa 25 anos de fundado, é bom que se deixe registrado na história de Itabuna, de como o bar deste torcedor do Fluminense se transformou num abrigo dos botafoguenses. Flamenguistas mais exaltados do naipe dos saudosos Renan Sílvio Santos e Amaro Paulino dos Santos, ou de José d’Almeida Senna e Eduardo Brito, ou vascaínos cri cris do tipo Pedro Carlos Nunes de Almeida, Jacozinho, Raleu Baracat, o saudoso Iram Marques, Carlos Ulisses Dórea, Paulo Fernando Nunes da Cruz (Polenga), dentre outros, não conseguiam se conformar.

Torcedores de vários times no Alto Beco

Periodicamente, com ares de pesquisador científico, Renan Sílvio Santos subtraia uma folha do caderno de anotações de fiado de Ithyel para aferir os números. De caneta em riste, tal e qual um professor em sala de aula a fazer a chamada dos alunos, conferia: Walter Fonseca, Geraldão (Geraldo Lessa), Dirceu Benício, Gilson Babaca, Dudu Rocha, Osmar, João Barbeiro, Beto do Alicate, Walmir Rosário, e seguia com a chamada, mesmo inconformado diante do resultado.

Ao fazer a lista dos flamenguistas, volta e meia tentava colocar entre os torcedores, frequentadores de outros bares, freguesias diferentes, e o mesmo acontecia quando chegava a vez dos vascaínos, para o desespero da torcida. E Renan não se fazia de rogado e continuava: “Raleu Baracat”? “Sou vascaíno, honestamente!”. Terminada a sabatina, chegava a hora de contabilizar o resultado da pesquisa, divulgar o apurado, inclusive com a devida afixação no quadro de avisos e eventos.

Por conta do resultado, vamos então beber as cervejas das apostas feitas. Apostas, realizadas com a cláusula de “bico molhado”, precaução tomada para não menosprezar os perdedores, já angustiados por serem apontados como minoria e, ainda por cima, com a obrigação de se acertar com no departamento financeiro do Bar de Ithyel. Ao final da comemoração, o vascaíno José Ribeiro não se continha: “Esses ‘queijos’! Aqui é a única colônia de ‘julianos’”, bradava numa alusão aos internos do Nosocômio Juliano Moreira, em Salvador, que homiziava os deficientes do juízo.

Uma coisa quero deixar bastante claro: Para conseguir a maioria, os botafoguenses nunca utilizaram de expedientes escusos, a exemplo dos métodos nem sempre claros, transparentes ou de difícil explicação, próprios de alguns torcedores do Fluminense, do tipo de Napoleão Guimarães. Ao menor sinal de realizar um recenseamento esportivo, lá estava ele cercado de convidados, frequentadores bissextos, por coincidência todos admiradores da equipe “pó de arroz”.

Despreocupados e convictos da nossa privilegiada maioria, nunca ficamos na euforia em buscar reforços no Bar de Batutinha ou no ABC da Noite, onde alguns dos botafoguenses históricos davam uma passadinha estratégica antes de se recolher ao convívio do doce lar. Mesmo com a disponibilidade dos botafoguenses Joel Filho e Raimundo Nogueira, convictos frequentadores dos bares itabunenses, também sequer buscamos o reforço de Botininha, ou da “República da Abssínia” (bairro da Conceição), solo fértil para a proliferação de botafoguenses, contaminados pela paixão desenfreada de Rodrigo Antônio Figueiredo (Rodrigo Bocão), conhecido na Desportiva Itabunense pela potência dos seus pulmões e gritos. Sem esquecer do advogado José Oliveira Santana (Zito Baú), torcedor do Vasco da Gama, mas eterno zeloso técnico do Botafogo juvenil do bairro da Conceição.

Aos poucos, alguns botafoguenses deixam de frequentar o Alto Beco do Fuxico por motivos alheios à vontade, a exemplo de Walter Fonseca e João Barbeiro, que deixaram esse mundo, ou como Dudu Rocha, que resolveu desfrutar dos ares salitrosos ilheenses. Mas essas mudanças de nada influenciaram a quantidade de botafoguenses por metro quadrado no Alto Beco do Fuxico, com a chegada de Bira, Renato da Bateria, Manoel Melo, Edgar Sá (in memoriam), José Roberto, dentre outros.

Só para confirmar a supremacia, Ithyel, torcedor de quatro costados do Fluminense, faleceu e hoje seu estabelecimento foi adquirido por Robson Oliveira, um botafoguense de carteirinha. Para completar, Robson é assessorado por ninguém menos que Gutemberg, um paraibano fanático pelo Botafogo da Paraíba, bem como o do Rio de Janeiro e o do bairro da Conceição. Paraíba é o proprietário de um vasto guarda-roupas, com mais de 20 camisas variadas do Botafogo, traje usado diariamente.

Como bem observa o leitor, essa história de que o Flamengo tem a maior torcida do Brasil é pura fantasia, fanfarronice. Ou quem sabe, numa biboca qualquer do Brasil.

Obs: Em público, sou obrigado a pedir perdão aos outros botafoguenses e frequentadores do Alto Beco do Fuxico, cujos nomes não foram citados. Minhas sinceras desculpas!

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado originalmente no Jornal Agora em 28 de julho de 2005

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