BODAS DE PRATA REGADA COM MUITA CERVEJA

A boemia do Alto Beco do Fuxico dá um exemplo de como é a cultura de boteco e completa 25 anos em torno da mesa de bar

Walmir Rosário

Mal acostumado, você me deixou mal acostumado… Este trecho da música de Meg Evans e Ray Araújo, interpretada pela Banda Araketu, serve como parâmetro para medir o sucesso e a longevidade do Bar de Ithiel, encastelado no Alto Beco do Fuxico, que completa neste sábado (28-10-06), 25 anos de atividades ininterruptas. Durante um quarto de século, incontáveis amigos ali se reúnem para o bate-papo de fim de tarde, após um cansativo dia de trabalho. Juntos, comentam amenidades, discutem política, futebol, falam da vida alheia (mas com o devido respeito, afinal se trata de gente séria) e bebem. Bebem muitas cervejas entrecortadas por uns tantos goles de destilada da mais pura cana.

Até hoje nenhum sociólogo ou antropólogo se dispôs a pesquisar essa forma gregária alcoológica de ser (recém-incorporada ao nosso dicionário). Acredito que esse desinteresse seja pelo excesso de bares no respeitável Beco do Fuxico, a exemplo do ABC da Noite, fundado há 46 anos pelo Caboclo Alencar e em pleno funcionamento. Para não dizer que existe discriminação, vou logo avisando que os clientes também fazem incursões diárias para experimentar as conceituadas batidas do Caboclo.

Dizem os experts em mercado, que um negócio para ser bem-sucedido precisa ter boa localização, oferecer bons produtos, preço, e clientes dispostos a demandarem. Nada mais adequado do que o Alto Beco do Fuxico, onde os clientes, isto é, a fina flor da boemia, transita diariamente, sempre disposta a beber, principalmente uma cerveja bem gelada. E neste quesito, ninguém melhor do que Ithiel Xavier para satisfazer, fidelizar, encantar o cliente, como dizem os consultores da área de administração.

Cerveja coletiva

Marqueteiro de primeira linha, Ithiel (foto) criou serviços exclusivos e logo se diferenciou da concorrência. Para ele, cerveja supergelada era coisa de rotina, obrigação de qualquer dono de botequim que se preze, e foi além: Criou a cerveja coletiva. Como os frequentadores do bar eram uma só turma, do balcão, Ithiel observava os copos e, à medida que iam sendo esvaziados, logo surgia ele com mais uma cerveja bem gelada, servindo os mais sedentos. Esse artifício tinha dupla serventia: não deixava a cerveja esquentar e não interrompia o bate-papo.

O mais importante nessa jogada de marketing é que os clientes não precisavam se preocupar com a divisão da conta, operação nem sempre recomendável após a ingestão de um ou mais engradados, devidamente acompanhados de quebra-gelo. Neste mister, é bom que se diga que Ithiel dava um banho: Dividia a conta de forma equitativa e proporcional, conforme a hora da chegada e os acompanhantes. As reclamações que porventura surgiam, partiam dos mais exaltados, que exigiam pagar mais, cada um querendo mostrar generosidade.

Outra estratégia utilizada por Ithiel era manter o grupo longe da presença de indesejáveis oportunistas ou bêbados inconvenientes. Para isto, Ithiel somente servia uma pessoa quando conhecida ou apresentada pelos frequentadores contumazes. Sentado num banco alto atrás do balcão, Ithiel tinha o hábito de bater constantemente a chave de abrir garrafa numa tampilha e dizia ao visitante indesejável: “Viaja, viaja, viaja”. Esta mesma expressão era costumeira no bota-fora de sábado à tarde, principalmente quando o Fluminense, seu time do coração jogava.

O boteco evoluiu sem

perder a simplicidade

Com o passar do tempo, novas pessoas foram incorporadas à carteira de clientes, e que passaram a conviver na maior harmonia possível. Nesse ínterim, outros foram deixando de frequentar, seja por ter passado desta para melhor, ou por ter encontrado novas e oportunas paragens. Um bom exemplo desse relacionamento é a perfeita convivência entre botafoguenses (a maioria), vascaínos (2º lugar), flamenguistas e outros de menor torcida.

Despeitados, flamenguistas, vascaínos e fluminenses se uniram para dizer que os botafoguenses eram loucos, ou “julianos”, numa alusão ao médico Juliano Moreira, que tratou com sucesso da loucura. Mas isso nunca abateu Geraldo Sessa e demais torcedores, que ainda por cima ganharam o reforço de Robson Oliveira, Del Rey e Gutemberg Menezes (Paraíba). Até a presente data, todos os recenseamentos confirmam a supremacia da estrela solitária. Num desses jogos do Vasco em Itabuna, Polenga, também vascaíno e então presidente do Itabuna, levou o polêmico cartola Eurico Miranda ao Beco do Fuxico, com direito a experimentar a destilada com angélica (planta medicinal) no bar e mercearia de Alcides, e Brahma gelada em Ithiel.

Ainda por sugestão de um vascaíno, o irrequieto Iram Marques (falecido em 14 de dezembro de 1998), os aniversários passaram a ser comemorados no Alto Beco do Fuxico, com todos os requintes propícios à importante ocasião. Por sugestão de Renan Sílvio Santos, foi confeccionada uma tabela com as datas dos aniversariantes e a data da comemoração. Desta seleta lista participavam pessoas ilustres como Bernadino Sessa, que apesar de não ser um cliente de copo, era frequentador assíduo, principalmente após o Jornal Nacional, quando aparecia para nos dar as mais recentes notícias.

Nestas ocasiões, José Senna atuava na organização do bufê, enquanto Renan era o mestre de cerimônia, proferindo discursos memoráveis, provocando emoções e choros. Que o diga Alberto Menezes.

Outro festeiro incorrigível sempre foi o Polenga, que a cada vitória do seu Vasco da Gama fazia questão de brindar com uma bacalhoada, preparada com esmero por dona Vera. Também por conta das promoções de Polenga, iniciou-se o almoço das sextas-feiras, quando a cada semana havia um patrocinador diferente. O primeiro foi realizado no fatídico dia 23 de outubro de 19. Neste dia, Renan Sílvio Santos sofre uma série de infartos e falece na madrugada do dia 24.

Sob nova direção

Em 12 de setembro de 1998 morre Ithiel Xavier, deixando desorientados os frequentadores do boteco com a possibilidade de acabar a tradição. Sérgio, o único herdeiro de Ithiel, mantém o bar aberto por três meses, apesar de não gostar do ramo, até que, feitas algumas consultas, Iram e José Senna recomendam a transferência para Eduardo Gomes, que passou a tocar o negócio. Em seguida, Eduardo muda o boteco para um ponto ao lado, mais espaçoso e com novos equipamentos.

Vago o antigo boteco, o projeto concebido por José Senna era abrir no local uma cachaçaria no sentido de ampliar a oferta de bebida e tira-gostos, bem como atrair novos clientes. Essa ideia foi encampada por Robson Oliveira, que implantou um bar e cachaçaria com todos os requisitos etílicos possíveis e imagináveis.

Com os dois empreendimentos, o Alto Beco do Fuxico passou a ter nova frequência e hoje os clientes convivem harmonicamente com os dois botecos, frequentando-os ora um, ora outro, ou os dois simultaneamente. O cliente é quem escolhe a especialidade de cada casa, sem, no entanto, misturar copos, garrafas e talheres.

De início não foi tão fácil conviver com os dois botecos separados apenas por uma parede e algumas confusões foram verificadas, mas todas de somenos importância, ou melhor, aumentou, ainda mais, o relacionamento entre os novos clientes. Um fato inusitado aconteceu com um dos clientes mais tradicionais de todo o Beco do Fuxico, o jornalista, professor e escritor Jorge Araujo, num desses sábado em que veio a Itabuna.

Como tínhamos marcado um encontro ao meio-dia no Alto Beco, ele passou por Caboclo Alencar, subiu a ladeira e se abancou no Whiskitório (ex-Ithiel). Eu, como vinha pela Ruffo Galvão, entrei no bar de Eduardo e perguntei se por acaso Jorge Araujo teria chegado. O mesmo fez ele do outro lado da parede. Somente após muitas reclamações um do outro com a falta de pontualidade que descobrimos estar separado apenas por uma parede.

Discussão participativa,

sem brigas ou mágoas

Imagine um bar onde participam pessoas de todas as profissões, gênios e estilo de vida diferentes, acostumadas a discutir ao extremo, porém sem nunca chegar às vias de fato, como se diz no jargão policial. Até hoje, no Bar de Ithiel, o debate é democrático, porém sem organização. Lá se discute de tudo, como em qualquer botequim que se preze, mas com uma diferença: as conversas ultrapassam a mesa e se estendem a outras mesas da forma mais natural possível.

Política e futebol são os assuntos preferidos, embora outros temas relevantes também entrem em cena costumeiramente. O tom de voz depende do clima etílico dos debatedores e da paixão dos envolvidos. Eu mesmo, confesso humildemente, tive (e ainda tenho) alguns arranca-rabos com José D’Almeida Senna, Gilson Babaca, Zé Verdinho, dentre outros, mas tudo coisas de somenos importância, e que serviam apenas para dar o tempero na cerveja.

Que me lembre, outros colegas de bar também não são de deixar uma boa discussão barata e gastam muita saliva e cordas vocais num entrevero, mas coisas que não valem a pena. Fora disto, merece registro um fato inusitado num dos constantes eventos mensais da comemoração dos aniversariantes do mês.

Faruk Kalid, conhecido pela sua verve zombeteira, além de ser um excelente encrenqueiro, tinha lá suas diferenças com Alberto Menezes, conhecido carinhosamente como Alberto Barrão, um dos mais conceituados viajantes da região. Num destes aniversários, lá pelas tantas, resolveu fazer as pazes com Alberto. Para não perder a embocadura, imediatamente iniciou uma quizumba com Carlos Ulisses Dória, terminando no corte de relações entre eles. E aí gozava Faruk: “Será que tive algum lucro fazendo as pazes com Barrão e brigando com Carlucha?”, perguntava.

Quem melhor do que Ithiel para administrar um grupo tão heterogêneo e mantê-los unidos no bate-papo e na cerveja gelada por muitos anos? Ninguém, ou melhor, poucos, principalmente por que o bar oferecia apenas um tipo de bebida, a cerveja, e mesmo assim de uma só marca: Brahma. Tira-gosto? Nem pensar, dava muito trabalho e Ithiel deixou de fazer há tempos. Mas nem sempre foi assim, antes, José Gomes (o Castelo) podia desfrutar do seu whisky e pedia: “Ithiel, por favor, uma dose de Natu Nobillis. Se eu pedir outra não me sirva”, dizia na hora de ir embora.

Para manter o estômago forrado, os fregueses mandavam buscar tira-gostos em bares e restaurantes da redondeza, a exemplo dos gostosos quibes do Sheik, acarajés e abarás, ou queijos vendidos por ambulantes. Para buscar essas encomendas e cigarros (também não vendia), ninguém melhor do que Grilo, um ex-baterista do Grapsons que se transformou em corretor zoológico, hoje conhecido como o mensageiro da sorte.

Não contente com esse tratamento, Walter Fonseca se encarregou de comprar uma churrasqueira elétrica, paga com a tradicional vaquinha feita entre os clientes. Assim, passamos a ter um tratamento vip, com carne assada na hora, apesar dos muxoxos de Ithiel. Pior do que isso foi quando a churrasqueira queimou a resistência e levamos em dois sábados seguidos uma churrasqueira a carvão, pilotada por mim e Pedro Carlos Nunes de Almeida, o Pepê. As broncas veladas de Ithiel eram resolvidas sabiamente pela fleuma de Renan Sílvio Santos.

O clube do Bolinha já fez até casamento

Reduto de boêmios inveterados, o Bar do Ithiel era o protótipo do clube do Bolinha, dada a obrigatória frequência masculina. Honestamente, como gostava de dizer Raleu Baracat, nunca foi proibida a presença de mulheres no ambiente, embora nenhuma delas se aventurasse a adentrar o recinto, no melhor linguajar radiofônico. Nenhuma, não, que o diga Vera Oliveira da Cruz, esposa de Paulo Fernando Nunes da Cruz (Polenga), a primeira a quebrar esse tabu.

Amiga de infância de Iram Marques, foi o grande cupido do amor entre Vera e Polenga e cujo casório foi decidido após as noitadas de cerveja e bate-papo. Depois da queda do último bastião machista, o Alto Beco do Fuxico passou a ser frequentado pelas esposas, noivas e namoradas, provocando uma mudança substancial no linguajar, às vezes com a mudança do vocabulário de última hora. Afinal, a presença de senhoras no recinto merece recato.

Antes dessa incursão, eram reservadas às mulheres somente a presença nos dias de confraternização, realizadas próximas ao Natal, evento também destinado à comemoração do aniversário de Ithiel (20 de dezembro). Festa planejada com todos os requintes gastronômicos de José Senna, considerado Recarey e Ibrahim Sued do Alto Beco. Nestes dias, além da profusão de frios e assados, bebidas à vontade, todas previamente pagas com a famosa vaquinha administrada por Renan Sílvio Santos e que incluía uma trinca de bilhetes da loteria federal, que no máximo, rendia o mesmo valor.

Homenageados

Durante o evento de comemoração dos 25 anos do Bar de Ithiel, será descerrada uma placa alusiva ao evento e homenageados os frequentadores mais assíduos.

João Carlos Mascarenhas Fontes (in memorian)

Iram Marques (in memorian)

Walter Fonseca (in memorian)

Gilberto Careca (in memorian)

Amaro Paulino (in memorian)

João Cândido Torres (in memorian)

Renan Sílvio Santos (in memorian)

Ithiel Xavier (in memorian)

Geraldo Lessa (in memorian)

Raleu Baracat (in memorian)

Osmar Cardoso (in memorian)

Bernadino Sessa (in memorian)

Dirceu Benício

José Sena

Paulo Fernando da Cruz

Oduvaldo Brasil

José Carlos da Silva (verdinho)

Carlos Eduardo (Caxota)

José Gomes (Castelo)

Dudu Rocha

Gilson Sena

Eduardo Brito

Rui Nunes

César Campos

José Jacob dos Santos

Gabriel Nunes

Carlos Ulisses Dória

José Badaró

Walmir Rosário

Geraldo Sessa

Napoleão Guimarães

Del Rey

Robson Oliveira

Eduardo Gomes

Rane Rane

Fernando Cordier

José Emanuel Aquino (Cambão)

Alberto Menezes

Orley

Iraldo

Geraldo

Guilherme Lamonier

José Adervan

Renato Bateria

José Brás

Jeová

Oswaldo Bigobal

Jesuíno da Conceição (Neném)

Eduardo Pirajá

Dorival do Amendoim

Grilo

(O início das operações etílicas do Bar do Ithiel foi em 28 de outubro de 1981)

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