BAHIA AGRÍCOLA – O CACAU

João Santana*

Durante aproximadamente 100 anos o cacau foi o mais importante dos nossos produtos agrícolas, atingindo uma contribuição anual de 60% dos impostos arrecadados pelo Estado.

Para que se tenha ideia dessa importância, houve ano na década de 70 que a lavoura do cacau gerou receita de 950 milhões de dólares, fato auspicioso pela circulação da riqueza na zona cacaueira, por sua participação na construção da Bahia, e, para o Brasil, pela geração de divisas através da exportação.

Esses esforços envolveram sempre cerca de 2,5 milhões de habitantes em 96 municípios que compõem a macrorregião cacaueira da Bahia.

Para realizar a pesquisa, a extensão rural e a assistência técnica da lavoura, o governo federal criou a Ceplac, a ser mantida inicialmente com 15% e posteriormente com 10% tirados dos produtores no ato da comercialização do cacau. E, como se não bastasse, o Estado da Bahia criou o Instituto do Cacau, a ser mantido com 1% também tirado dos produtores rurais.

Todas essas vultosas verbas manipuladas pela Ceplac não geraram mais que modestíssimos resultados. Não conseguimos ultrapassar a ridícula média de 40 arrobas por hectare, apesar de alguns produtores isoladamente, em algumas roças especiais, ultrapassarem 100 arrobas.

No que diz respeito à defesa fitossanitária, nem a Ceplac nem o Estado trataram a atividade com a seriedade que o problema exigia.

O resultado aí está, com a vassoura de bruxa dizimando a cultura. Uma lavoura que representou 36% do PIB das lavouras em 1986, caiu para 13% em 1992, para 5,4% em 2000 e hoje, com 16 arrobas por hectare, infectada pela vassoura de bruxa e endividada, está vagando à espera de lideranças que conduzam a problemática do cacau com a dignidade que o caso requer.

Não seria este o papel do governo do estado? Afinal, são 300 mil trabalhadores rurais na “rua da amargura”. É um comércio regional estagnado quanto ao seu crescimento e com forte redução nas suas operações de vendas normais. É a economia de uma região onde 2,5 milhões de habitantes são dependentes de modo direto e/ou indireto da existência da lavoura cacaueira.

E, como resultado negativo mais profundo da crise, surge o endividamento dos produtores de cacau e, por ironia do destino, depois de terem concorrido com tantos resultados positivos para a Região, o Estado e o País.

Por acaso foram eles os responsáveis pela inexistência da defesa fitossanitária capaz de evitar a vassoura de bruxa? Por acaso eles plantaram cacau com financiamento dos bancos oficiais sem o aval técnico da Ceplac?

Mas, diante da existência da vassoura de bruxa, a recuperação do crédito passa também pela recuperação da lavoura. Qualquer proposta que não leve em conta esse fato, não terá sucesso. A propósito, como contribuição, informo que reduzir e congelar a dívida, ao par de pelo menos 10 anos de carência e pagamento com base em percentual da produção após o período de carência, já seria um bom “começo de conversa.”

Finalmente, pelo que representa social e economicamente a cultura do cacau e respeitando o seu valor histórico na vida da Bahia, o Governo do Estado precisa definir objetivamente o seu papel diante dos percalços que atingem a Economia Agrícola do Estado da Bahia.

*Ex-ministro da Integração Nacional

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Walmir Rosario

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