ATÉ TU, LULA?

Walmir Rosário*

Lembro-me que em agosto do ano passado escrevi, neste mesmo espaço, o artigo “Honrados, mas nem tanto” sobre a corrupção no Partido dos Trabalhadores (PT) e suas ligações incestuosas com o Governo Federal. Nele, usei a seguinte expressão: “Nossos corruptos são mais éticos do que os corruptos dos outros”.

Àquela época, não estava eu fazendo qualquer exercício de futurologia, mas versava sobre a aparente vida de Brasília, as ligações políticas do governo com partidos de ideologias diferentes. Esses relacionamentos sempre foram obscuros e sem qualquer tipo de comunhão filosófica que os unissem. Ao contrário, sempre foram pragmáticas, do tipo: eu tenho o poder e posso facilitar as coisas.

E nesse diapasão o Palácio do Planalto e figuras do Congresso Nacional seguiram convivendo. Uma negociação aqui, um projeto importante ali, até acharem que ficaria melhor negociar em atacado, conforme denunciou o deputado federal e presidente licenciado do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson.

Aos poucos, de réu, Roberto Jefferson vai passando para acusador, guardião dos valores da moralidade republicana, que prefere denunciar tudo agora, para que o próximo governo não utilize do mesmo expediente antiético, imoral. Roberto Jefferson preferiu cortar na própria carne para tirar o Brasil do antro da perdição. Louvável, a atitude do parlamentar carioca, não fosse ele também um dos que perpetuaram essa prática criminosa. Mas como o arrependimento vem no seu tempo certo…

Do outro lado do balcão… Bem, do outro lado, como maus negociantes, os interlocutores petistas não admitem, sob qualquer hipótese, terem participado dessas negociações, apesar das evidências gritantes. Portam-se como se vestais fossem e tentam desacreditar a todos os que apontem novos fatos, novas evidências. E, ainda por cima pedem provas concretas, como se os corrompidos fossem obrigados a dar recibo ou emitir notas fiscais aos corruptores, pagando todos os impostos.

Lá do Planalto, a figura do “rei” aumenta a quantidade de discursos proferidos e, na mesma tonalidade dos déspotas, toma pra si a guarda das chaves da moralidade. Sem ter o que fazer no governo, já que não é afeito a governar, subiu em mais um palanque e disse à Nação: “Ninguém neste País tem mais autoridade moral e ética do que eu”. À sombra de Collor, mesmo afundando no lamaçal criado pelo PT e membros do governo, Lula faz apelos do tipo “Não me deixem só”.

Será que o presidente Lula acredita ser ele o último bastião da moralidade no Brasil? Que estaria acima do bem e do mal? Que todos os outros brasileiros são de quinta categoria? Não, presidente, o senhor está muito enganado. De minha parte posso assegurar nunca ter me envolvido com falcatruas, privadas ou públicas, assim como grande parte das pessoas com quem me relaciono. De outras tantas não digo o mesmo, não coloco minha mão no fogo, inclusive por gente ligada a Vossa Excelência.

Posso garantir, presidente, que durante minhas passagens pela vida pública (administrações públicas municipais e órgão federal, a exemplo da Ceplac) não manchei minha biografia com falcatruas, malversação de dinheiro, desvio de recursos, compra de votos ou outros malfeitos tão comuns hoje em dia. Nas minhas passagens pela iniciativa privada também posso me ufanar do meu procedimento ético e moral, com o testemunho de colegas e dirigentes. Nada mais normal do que isso, presidente Lula. Ser direito é apenas o certo, a obrigação de cada cidadão.

Do jeito que o senhor fala, presidente, fica parecendo que nós brasileiros somos todos “treteiros” e não temos reputação ilibada. De certa forma, relevamos essa verborragia dita por Vossa Excelência, pela sua costumeira forma de se indignar da forma com que seus liderados escondem as bandalheiras cometidas. Sabemos que isso é decorrente da sua inocência de anos mantidos com régio salário do Partido dos Trabalhadores (PT), com a finalidade apenas de fazer discursos para enganar a população brasileira.

Agora, caso Vossa Excelência teime em continuar nos chamando de otários, teremos que tomar uma atitude drástica, excluindo-o da única referência que temos em comum: o gosto pela cachaça. Neste caso, também iniciaremos uma campanha pelos botequins das cidades, no sentido de tornar Vossa Excelência persona non grata entre os biriteiros do Brasil. Passe bem e tenho dito!

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 23-06-2005

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