ASSEPSIA GERAL E IRRESTRITA

Walmir Rosário*

Com certeza, o Brasil nunca mais será o mesmo. Anos atrás, tivemos oportunidade de passar o Brasil a limpo, entretanto, fizemos em parte, não porque fosse de propósito, uma reforma “meia-boca”, como se diz na gíria, talvez por falta de preparo, desacostumados que estávamos com o regime ditatorial que imperou no País por mais de duas décadas.

Em tempos de democracia é assim mesmo. O erro, o crime, não possui o privilégio de ficar escondido, acobertado, em baixo do tapete. Mais dia menos dia vai ter que aparecer, ser exposto à sociedade, que irá avaliá-lo através de suas instituições responsáveis e tomar as medidas cabíveis aos fatos praticados.

O presidente Collor foi o primeiro a provar do remédio mais amargo da democracia: o afastamento do maior cargo da República através de um impeachment, com respaldo do Congresso Nacional. Aliviada, a Nação pensou que, a partir daquele momento histórico, o Brasil estava amadurecido para enfrentar com altivez as crises institucionais.

Entretanto, essa constatação seria mostrada mais tarde como uma meia verdade, uma daquelas frases do genial jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, criador das “coisas dignas do Sobrenatural da Silva”. Mais uma vez a cúpula do poder central, em Brasília, estava metida em outro “mar de lama”, com o escândalo dos “Anões do Orçamento”.

Mais uma vez o Congresso Nacional foi revestido com o manto da justiça e cortou na própria carne (como gosta Lula), decepando a cabeça de vários dos membros. Bem, aí é que mora o perigo! Anos após, vimos que a passada do Congresso a limpo atingiu também pessoas da mais alta honradez, embora tivesse sido execrado em praça pública.

Um deles foi o deputado federal gaúcho Ibsen Pinheiro, hoje reabilitado para uma minoria de privilegiados que tem acesso a informações de jornais e revistas nacionais. Durante muito tempo o ex-deputado Ibsen Pinheiro, considerado um dos parlamentares e constituintes mais brilhantes da Câmara Federal, foi obrigado a viver praticamente escondido dos seus eleitores e da população em geral.

O parlamentar passou do júbilo da corte celeste ao fogo do inferno como num passe de mágica e, em momento algum, sua biografia foi respeitada (como quer o presidente Lula), apesar das constantes demonstrações dadas como político de grande influência nacional. Agora, a situação está novamente posta e o Brasil volta a ser a bola da vez e sofreria uma assepsia sem precedentes.

Realmente, momento mais propício do que este não existe para limpar o País das quadrilhas que se organizaram para corromper e saquear as finanças do Estado, sempre com o beneplácito das autoridades instituídas. Instalou-se o absurdo e quem tinha o dever constitucional de defender o Brasil se transformou em abutre praticando a rapinagem.

Entretanto, pelo andar da carruagem, não acredito que essa comoção social se transforme numa mobilização sem precedentes, capaz de extirpar de vez esse mal que assola o País. Isso porque, em vez de xerifes defensores da ordem e da moralidade, estamos presenciando uma guerra de facções imprevisível dos resultados e danos que poderão causar.

Ao mesmo tempo em que o presidente da República promete investigar “doa em quem doer”, mantém em seu ministério colaboradores aparentemente ligados ao “mar de lama” que devasta o governo. E mais, a condição de que permaneçam apenas pelo seu próprio arbítrio. Outros pecados cometidos são as insinuações sobre corrupções de governos passados, como se essa premissa eximisse a culpa das atuais.

Agora, para evitar um fratricídio, é preciso que os membros das CPMIs ajam com bastante prudência, evitando assim que excessos sejam cometidos contra pessoas de reputação ilibada e livre de acusações. Nem por isso devem diminuir o rigor das investigações e imputar as acusações devidamente comprovadas, para que possam pagar a pena juta pelos crimes cometidos.

Investigar, sim, afrouxar, jamais, mas sempre balizado nos princípios éticos e no compromisso firmado com a Nação. Só assim poderemos ter hoje o Brasil do futuro que sempre sonhamos.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 16-07-2005

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