AS CHUVAS E A CANJICA

O sol inclemente desde novembro de 2018, associado ao calor das queimadas, chega ao fim com as chuvas que começaram a cair em Canavieiras na manhã de quinta-feira (21 de março). Como em todas as áreas do Nordeste brasileiro, a data para a chegada das chuvas é exatamente março, até o dia 19, data consagrada a São José, padroeiro de diversas cidades.

O receio é que as chuvas caiam de forma torrencial, causando mais prejuízos à população, principalmente aquelas que moram à beira de rios e ribeirões, ou áreas que costumam alagar. Antes de dizer que é castigo de Deus, prefiro creditar ao malfeito dos homens na destruição da natureza, ou à música Súplica Cearense, do cantor baiano Gordurinha (Waldeck Artur de Macedo).

Neste hino à religiosidade nordestina, Gordurinha relata as dificuldades do caatingueiro durante o período de seca e as orações, procissões e romarias pedindo chuvas para poder plantar e passar o ano sem depender de esmolas governamentais. Mas quando a chuva chega, vem “a mais da conta do pedido” e deixa os caatingueiros desesperados, mas tementes a Deus, acreditando que não soube pedir direito a chuva na quantidade certa.

E a Súplica Cearense mostra a importância da religiosidade e da resignação do nordestino, que não se abate com miséria pouca e sabe como nenhum outro povo atravessar e vencer as dificuldades. Choveu o suficiente, enxada às costas, sai de casa para a roça, limpa o mato e planta seu milho e feijão, cereais de círculo curto e dos mais utilizados em sua alimentação. Feijão com carne ao meio dia, cuscuz com café pela manhã e à noite.

Mas nem tudo na vida do nordestino são dificuldades, tristeza, lamento e pobreza. Sim o caatingueiro pode ser pobre mas não miserável. Sabe passar seus apertos devido às incertezas climáticas, mas sabe que um dia a chuva chegará trazendo abundância. Basta plantar e colher, pois para isso tem bastante coragem e crê que as águas das chuvas chegam para lavar os pecados cometidos pelo homem. E muita coragem para festejar.

Diz o conhecimento popular, que o milho plantado no dia 19 de março está no ponto certo para fazer a canjica no dia 24 de junho, data consagrada a São João, daí a feliz coincidência da plantação para os nordestinos, que não abrem mão desse tradicional prato. Tanto é assim, que em alguns lugares eles [os nordestinos] rejeitam preparar a iguaria com o milho ainda mole, pois a canjica não chega no ponto certo.

A pequena diferença de dois dias – após São José – não deverá ser empecilho para comermos o milho em espiga cozido ou assado, na forma de bolo, creme, mingau, pamonha, dentre tantas outras iguarias “tiradas” desse cereal. Até para o milho novo o nordestino já encontrou o ponto certo da canjica, mas não lhe ofereça esse tradicional prato com o milho passado, com fibras secas. Seria um insulto.

Tanto é assim, que quando chega à feira livre para comprar o milho para a canjica de São João, o nordestino faz questão de abrir a espiga e conferir se os grãos estão bem formados e macios. Caso contrário, fica boiando, passa a ser artigo de quinta categoria, impossível de ser utilizado para uma iguaria tradicional numa festa tão importante como o São João.

E a importância do Santo é tamanha que o nordestino se orgulha de elaborar pratos e mais pratos, formando uma mesa farta, inclusive de bebidas, capitaneada pelo saboroso licor de jenipapo. Mesa posta no interior da casa, fogueira na porta, forró na vitrola (ou outro equipamento mais moderno), abre, ainda hoje, sua residência para os visitantes – conhecidos ou não – quando perguntado: “São João passou por aqui…”

E o nordestino se esmera para oferecer uma canjica no ponto, daquelas que até São João sai do altar para experimentar um pedacinho. Como estamos nos referindo ao Nordeste, é bom avisar que a canjica nada tem a ver com a homônima preparada no sudeste e sul do Brasil, lá conhecida como curau. Já a canjica do Sul e Sudeste é o mugunzá no Nordeste. Fluminense de nascimento e baiana de coração, minha mulher, Vilma Rosário, faz essa receita para servir cinco pessoas educadas.

INGREDIENTES

– 10 espigas de milho verde

– 1 litro de leite de coco

– ½ litro de leite de vaca

– 2 xícaras de açúcar

– 1 colher de sobremesa de sal

– 2 colheres de sopa de manteiga

– 10 dentes de cravo-da-índia

MODO DE PREPARO

– Lave bem as espigas e retire os milhos do sabugo com uma faca ou rale

– Liquidifique os grãos com a metade do leite de coco

– Passe em uma peneira para deixar só o caldo (creme)

– Leve ao fogo com o sal.

– Mexa até engrossar, colocando o restante do leite de coco até sentir o ponto

– Ao levantar a colher e a massa cair devagar, coloque o açúcar e continue mexendo

– Coloque a manteiga e deixe cozinhar por 30 minutos

– Se necessitar de mais açúcar e sal tempere novamente

– Retire do fogo e com uma concha coloque em travessas ou pratos

– Polvilhe com canela em pó

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