APRESENTAR CARRO À SOCIEDADE VIRA FEBRE EM CANAVIEIRAS

*Walmir Rosário

Nada como o modernismo! Não tenho nada contra, mas algumas atitudes considero um exagero, excentricidades, me corrigem algumas pessoas com costumes mais refinados, gente ligada da society , com direito a frequência nas colunas sociais. Mesmo que não tenha sido citada em texto e foto nas colunas sociais do Ibrahim Sued ou do Zózimo do Amaral, seja considerado socialite, ou que tenha pretensões para tanto.

Penso que se tornou uma febre, se bem que os cientistas dizem que febre não é doença, mas vem acometendo centenas de pessoas do meu nem tão numeroso convívio, aqui em Canavieiras e outras cidades. Pelo que me lembre, nos meus tempos de infância e juventude se apresentava à sociedade um filho, quando nascia, com uma providencial temperada e uns parcos tira-gostos.

Também era costume a apresentação de um parente – próximo ou longe, não importava – quando deixava Sergipe para vir morar conosco ou na mesma cidade, por ser uma das maneiras mais viáveis de dar conhecimento aos amigos sobre suas qualidades. Nessas apresentações estava implícita solicitar aos proprietários dos açougues, mercearias (bodegas, nome antigo), padarias e bares, a abertura de uma caderneta de fiado.

Hoje, com as modernidades do dinheiro de plástico, o famoso cartão de crédito e débito, nem precisamos mais pedir a caderneta onde se assentavam as compras fiada, garantida apenas na palavra, no fio do bigode, como diriam alguns mais saudosistas. Me recordo, ainda, que se apresentavam – e até hoje continua – os jogadores contratados pelos nossos times amadores, jovens promessas de faturar um possível campeonato.

O que me chamou deveras a atenção na semana passada foi um foguetório – na coluna social de Charles Henri com certeza seria descrito como um brilhante show pirotécnico daqueles de encher os olhos pela beleza multicolorida e sem incomodar os ouvidos pelos estampidos rigorosamente dentro dos padrões dos níveis sonoros recomendados. E espoucados fora dos horários habituais de alvorada.

E o inusitado me despertou a curiosidade, somente satisfeita no dia seguinte pelo confrade Tyrone Perrucho, que detalhou com todos os pormenores a apresentação do carro novo de Valdemar (Broxinha) Araújo. O prestimoso evento teve como palco o Bar Sombra da Tarde, do piloto de ultraleve Manuca, com todos os requintes das assembleias do Clube dos Rolas Cansadas, anfitriã do evento.

Além dos comes e bebes de praxe coordenados por Gilbertão, a surpresa ficou por conta do italiano Alessandro Renzi, hoje já considerado um canavieirense de quatro costados, promotor do belíssimo foguetório. Foram utilizados 10 caixas de rojão de 12 tiros da famosa marca Adrianino, que ecoou por Canavieiras inteira, e vista por todos os curiosos do centro, bairros e zona rural.

Se por acaso naquela ocasião já tivesse trocado seu possante Chevette branco pelo robusto Renault Kwid 2019, por certo Nélson Barbosa teria se juntado a Valdemar Broxinha para promover uma festa de arromba, com um foguetório para se ouvir até a Colônia de Una. O que não se tem notícia se foi uma simples demora da concessionária ou uma inteligente artimanha de Nélson para fazer sua apresentação particular.

Mais esnobe que Valdemar, Nélson Barbosa escolheu um local Vip para fazer o lançamento do seu zero quilômetro no centro da cidade, num dos endereços mais frequentados de Canavieiras, a Confraria d’O Berimbau, em horário de pleno expediente. Sábado de alta frequência dos confrades, ampliado com a presença dos clientes da feira livre, lá se encontrava Nélson Barbosa e seu Kwid novinho em folha.

Captado pelas lentes dos repórteres fotográficos previamente convidados e os populares com seus smartfones, Nélson e seu Kwid foi alvo dos noticiários de redes sociais, ultrapassando as fronteiras do país, se tornando manchetes no noticiário internacional. Em momento de extremada alegria, prometeu aos confrades promover uma nova apresentação em Porto Seguro, com a presença de autoridades civis, militares e religiosas do Arraial d’Ajuda, por ocasião dos festejos consagrados à Santíssima Virgem.

E para cumprir todo o cerimonial da nova apresentação do veículo na Terra Mater Brasilis, Nélson Barbosa deixou de cumprir sua promessa de fazer o percusso Canavieiras a Porto Seguro caminhando, como faz há anos, para seguir em seu próprio carro. De antemão, Nélson nega ter quebrado a promessa à Nossa Senhora d’Ajuda, e com toda a humildade pediu perdão por não confiar seu carrão a qualquer pecador.

Curioso como sou, busquei informações junto aos historiadores e memorialistas sobre a origem desse costume social, com a finalidade de saber se seria uma simples ostentação ou gabolice. Pelo que soube, esse é um costume antigo, creditado aos políticos, que para chamar a atenção do povo soltavam fogos e faziam carretada sempre que compravam carros novos para a Prefeitura.

Me pergunto: será que Valdemar Broxinha e Nélson Barbosa estão treinando para se candidatarem a prefeito?

*Radialista, jornalista e advogado

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Walmir Rosário

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