ANTÔNIO, JOSÉ E RUY

José Nazal*

Ouve-se afirmar com frequência que, “se existir algo inusitado no mundo, na Bahia tem precedente”. Essa assertiva é atribuída a um dos Mangabeira, Otávio, governador da Bahia, irmão de João, que foi intendente em Ilhéus.

A turma da minha geração e das gerações mais velhas conheceram um ilheense que se chamava José Claudino de Carvalho Dias. Pelo nome de Batismo, com absoluta certeza ninguém identificará, porém, se disser o apelido, fica fácil lembrar: Coló. Cidadão ilheense, bancário, morador de uma das casas mais antigas da “Rua da Linha”, no trecho da rua que quase não tinha passeio. A saída de casa tinha que ser cuidadosa, de modo que não fosse atropelado. Nas suas horas de folga, sobretudo no início das manhãs, Coló passava um bom tempo na janela, com seu tradicional pijama e o cigarro na mão, companheiro de muitos anos.

Funcionário de uma instituição bancária, Coló (foto) era caixa, gabando-se de que nunca faltou um centavo nos seus fechamentos diários. Ao fim do expediente de trabalho, gostava de degustar uma cerveja bem gelada, intermeada vez em quando por uma dose de conhaque ou uma boa destilada. De tradicional rotina, passava no Bar Atlântico, batia um bom papo com amigos e um dos proprietários, Manolo Barral. Saído do bar vizinho ao banco, partia para o Café Silgo, de Zequinha Lago, no térreo da Pensão Vasco, cumprimentava dona Carmem e Pedro (Corró) Duarte, donos da pensão, e enfrentava nova rodada de cerveja, esquentando o dente com outro conhaque.

Cumprido o prazo regulamentar no Café Silgo, subia a Rua Dom Pedro II, cumprimentando na passagem os comerciantes e comerciários que ia encontrando: Omar Rabat e Caetano, na Loja Paulista; Arnaldo Bunchaft e Jair Garcia, nas Casas Arnaldo; João Chaoui, na Paulistana; Elias Ocké, na Loja A Gaúcha; os irmãos Chalhoub, na Loja A Vencedora; José Leite, na Loja A Pérola; Gildo Caldas, na Loja Itart; Ney Melo, na Livraria Nacional; Fraga, na filial da Casa Brasil (no Edifício Rosa). Depois dos cumprimentos oficiais, partia para o Barril (fim de linha para mais umas cervejas e o saboreio de uma boa destilada) encerrando os trabalhos do dia num bom papo com Maynard.

Do Barril, seguia para casa, escolhendo o caminha da avenida, para a saudação diária ao seu velho amigo Antônio, o grande poeta abolicionista. Sim, estou falando de Castro Alves, que tem aqui em Ilhéus uma praça em sua homenagem. Demonstrando grande intimidade com o poeta, Coló só o tratava pelo prenome e, segundo ele, também era chamado de José, privilégio de poucos brasileiros. Sua admiração e amizade com o poeta era proporcional à aversão ao jurista Ruy Barbosa, que também tem uma praça com seu nome, praticamente vizinha à praça Castro Alves. Desafeto de Ruy, discutia com o mesmo, levando os recados desaforados ao amigo poeta, retornando para replicar ao jurista.

Quando passava pela praça Ruy Barbosa, ouvia dele o chamado, dirigia-se ao busto e iniciava a discussão. Tudo o que ouvia de Ruy, levava em seguida ao conhecimento de Antônio, que ouvia pacientemente o amigo. Após transmitir o recado, perguntava se tinha resposta. Ouvia com atenção e voltava ao jurista, levando o dito, acrescentando algumas palavras mais duras, em defesa do amigo.

Como testemunha desses diálogos inusitados, juntamente com outros amigos, passei a admirar Coló. Faço sempre uso das palavras que ele sempre repetia, quando alguém se referia à nossa terra: “Ilhéus é lindo, Ilhéus é bonito! Sou Ilhéus e não abro!!”

Salve Coló, salve a todos que sabem viver a vida!!!

* Vice-prefeito de Ilhéus

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Walmir Rosário

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