ALTO LÁ! CASTRO ALVES É INTOCÁVEL

Antônio Lopes *

Vivemos estranhos tempos em que tudo que tenha algum sinal de intelectualismo e civilidade tem apoio oficial para ser destruído. E a Câmara de Vereadores de Ilhéus, como era de se aguardar, apressa-se em fazer parte da boiada que estourou no País, com seu tropel ecoando em nossos ouvidos.

Eis que um vereador acometido da síndrome da ociosidade, e com destorcida visão de prioridades (não vê o transporte público de baixa qualidade, o lixo que se acumula nas ruas, a invasão do espaço público com carros estacionados nas calçadas, o trânsito anarquizado, ônibus que param na via pública, por falta de “pontos” organizados, montes de entulho, material de construção e masseiras nas calçadas, impedindo o ir e vir dos pedestres), resolve tal vereador propor uma decisão (o projeto de lei nº 44/2019,já aprovado!) segundo qual (art.1º) “fica alterado o nome da Praça Castro Alves, na área central da cidade, passando a denominar-se PRAÇA DA IRENE”

O nobre representante do povo, data vênia, praticou várias agressões, se não de ordem legal, ao menos contra a sensatez, a civilidade o bom senso e, por último, mas igualmente importante, a linguagem. Vejamos sem anestesia, mas sem dor:

Não é sensato que os edis dediquem seu precioso latim a questões desse tipo, enquanto a cidade, pressionada por graves problemas primários, como os mencionados, se derrete a olhos vistos, com sofrimento para os moradores e frustração para os visitantes; é incivilizado “desomenagear” alguém, muito menos quando se trata de uma figura mundialmente reconhecida como um dos maiores poetas da língua portuguesa, um intelectual libertário, engajado na luta em favor dos oprimidos. Não prestar homenagens aos nossos vultos importantes (caso de Castro Alves) é omissão comprometedora; desfazer justa homenagem já feita, como neste caso, é grosseria imperdoável.

Busca-se saber o que motivou a Câmara de Ilhéus (“capitaneada“ – termo em moda! – pelo vereador Nascimento Reis) a trocar o “Poeta dos Escravos” por uma vendedora de iguarias típicas baianas. E encontramos o proponente a dizer, como justificativa de sua estapafúrdia intervenção na história de Ilhéus, “ser mais do que justo (sic) a Homenagem a essa cidadã que, com a sua culinária tradicional na fabricação de acarajés, elevou ainda mais o nome desta cidade”.

Em princípio, nada contra uma pessoa que não conheço, mas de quem tenho notícia de ser trabalhadora honrada; oponho-me, sim, à forma excêntrica como o assunto está posto.

Deixemos claro, sobretudo aos vereadores mais novos, que, no tempos em que o Legislativo ilheense era habitado por Antônio Cruz, Raimundo Sá Barreto, Ariston Cardoso e Ponciano de Novais Miranda, uma proposição desse teor estaria condenada a lata de lixo. O mesmo se poderia dizer da legislatura que contava com Pedro Lima e Jocellin Macedo. E se esquisitices desse tipo escapassem da Câmara, por certo não teriam a sansão de prefeitos como Eusínio Lavigne, Mário Pessoa , Pedro Catalão ou Henrique Cardoso.

Por isso, e por outras coisas já ditas, a praça há de permanecer “Castro Alves”, por lei, por justiça e por bom senso. Fora disso é estupidez que só contribui para colocar nossa cidade no exótico noticiário nacional.

Ainda, creio importante destacar que Praça da Irene é, para a região em que vivemos, apenas um “papagaiar” da linguagem do Sul-Sudeste, coisa de quem aprende português em novela da Globo: aqui, dizemos Irene, Maria, Margarida, Rosa – não a Irene, a Margarida, a Maria, a Rosa. Este falar nomes próprios apenduricalhados de artigos definidos não é coisa nossa. Assim, Praça Irene é a escolha natural; ou, se insistem na preposição, Praça de Irene. Se é para ofender Castro Alves, que o façam em língua portuguesa.

No mais, é aguardar que instituições como a Associação Comercial, a Academia de Letras de Ilhéus (da qual Castro Alves é patrono!), além da OAB e o Ministério Público ponham uma pedra no caminho dessa iniquidade, em benefício do intelectualismo em perseguição, mas que escolheu o viés da resistência. Pela parte que me toca, Castro Alves, símbolo da luta contra um sistema cruel, desumano e perverso que até hoje nos envergonha, é intocável. Por isso tudo, é urgente conter as garras nervosas de predadores que o ameaçam.

*Jornalista

Author Description

Walmir Rosário

No comments yet.

Join the Conversation