A VOLTA DO PRODEFRUTA

Walmir Rosário*

A Ceplac e o Banco do Brasil voltaram a promover reuniões para retomar o financiamento da lavoura cacaueira, estagnada com o fim do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira e a impossibilidade de qualquer produtor de cacau contratar recursos para custeio e investimentos. O lançamento do Prodefruta, considerado como a salvação da lavoura, até agora não disse pra que veio.

À Ceplac, como órgão do Governo Federal responsável pela cacauicultura, cabe a formulação de uma política para a agricultura do Sul da Bahia, especialmente a cacauicultura, onde detém o monopólio da pesquisa e orientação técnica. Entretanto, até agora se tem portado como um órgão auxiliar do Banco do Brasil quando a questão creditícia é debatida.

Não cabe ao Banco do Brasil a elaboração de programas agrícolas e o fomento à produção, mas sim a operacionalização do crédito, o que está mais do que provado. Não que o Banco do Brasil não possua técnicos capazes para isso, mas por sua natureza, afeita a emprestar recursos e obter lucros, caminharia na contramão da história caso fosse instado a formular projeto de tal monta.

Faltaria ao Banco do Brasil sensibilidade suficiente para tratar as questões da agricultura, no caso da lavoura cacaueira, como uma simples commodities a embarcar nos navios rumo aos países do primeiro mundo. Hoje, troca de cacau por dólares é uma operação complicada para o produtor, que sofre os desafios de sobreviver por mais de uma década ao sabor das intempéries e da boa vontade dos operadores do mercado internacional.

Enquanto não houver tratamento igual, por parte do Governo Federal, da cacauicultura como atividade econômica, com o cuidado que dispensa à soja, pecuária e outras matrizes econômicas do Sul e Sudeste do País, a lavoura de cacau será sempre uma pedra no sapato dos governantes.

O descaso para com a cacauicultura tem efeitos ainda pior no balanço de pagamentos, com os dólares do Tesouro Nacional saindo para pagar o ingresso no Brasil de cacau de terceira qualidade vindos da África e do Oriente. Enquanto isso acontece, o próprio governo causa outro efeito perverso do mercado: aviltamos nosso produto, de qualidade infinitamente superior, com preços inferiores.

Aviltamento aos preços de cacau é que nunca faltou na atividade. Como se não bastassem os efeitos da seca, das pragas e doenças, o cacauicultor sempre lutou desesperadamente contra o mercado de cacau, comandado por três a quatro empresas em todo o mundo, que ditam as regras conforme sua vontade. Tudo isso às barbas do governo, que teima em se livrar do problema quando o assunto não lhe convêm.

Fosse a lavoura de cacau afeita aos banqueiros e outras classes econômicas poderosas, teríamos a questão resolvida dentro de 24 horas, por uma salvadora medida provisória. Enquanto os cacauicultores não se afeiçoam ao poder, ficamos a assistir eternas reuniões entre Ceplac e Banco do Brasil, e ouvindo promessas de que na próxima semana o dinheiro do cacau sairá.

Puro engodo. Mais fácil seria nossas autoridades tratarem de coisas mais palpáveis, como elaborar uma política agrícola consistente, e depois, junto com os técnicos do Banco do Brasil, tentar solucionar os gargalos existentes. Antes disto não há salvação. O banco não se responsabilizará pela possível inadimplência futura, sob pena de responder juridicamente por isso.

É muito fácil maquiar um problema que se arrasta há anos, com falsas esperanças aos cacauicultores, bastante fragilizados diante das exigências descabidas dos projetos mal feitos para a situação. Ao que tudo indica, não será desta vez que poderemos ver Juvenal Mainart, com seu corpinho de bailarino espanhol, trajando um vestido feminino para pagar a aposta feita com o diretor da Ceplac, Gustavo Moura, de que até o dia 30 de junho próximo, não seriam contatados 200 financiamentos pelo Prodefruta.

Nossa vontade seria a de Juvenal pagar a aposta, mas nem a Ceplac nem o Banco do Brasil quiseram pagar pra ver!

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 15-06-2004

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