A UTOPIA E AS ARTIMANHAS

Walmir Rosário*

O esfacelamento da Ceplac, proposto pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e executado pelo secretário da Agricultura da Bahia, Geraldo Simões, não vem encontrando a reação que merece, apesar dos prejuízos incalculáveis que causará à economia regional. O canto da sereia, repetido exaustivamente ao longo dos anos ainda ecoa nos ouvidos da sociedade sul baiana, que o via como o mocinho que vem salvar a inocente jovem neste filme, a Ceplac.

Das dezenas uma centena, talvez de sindicatos rurais cuja criação ou reativação se deu por obra e graça da estrutura corporativa que tinha como ápice da pirâmide o Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau (CCPC), praticamente apenas o de Ilhéus se manifestou solidário à permanência da Ceplac. Esse descaso com nossas instituições é parte da vocação iconoclasta grapiúna, forjada no atávico individualismo da lavoura de cacau.

Contrariando a inteligência e o bom senso, parte dos produtores de cacau é indiferente e omissa quanto à perda de instituições e bens construídos com seus próprios recursos. Exemplo disso foi a comemoração da decisão judicial que desalojou a Central Nacional dos Produtores de Cacau (CNPC) do seu prédio, local de lutas e conquistas da cacauicultura sul baiana. Contrariando a máxima popular, muitos preferem perder os anéis e os dedos a encetar qualquer ação em sua própria defesa.

Evitam o bom combate em favor da região, preferindo espalhar boa-tos nas esquinas ou, comodamente protegidos em listas de discussões na Internet, falar mal dos adversários. Como iconoclastas que são, têm prazer em criar seus deuses, a quem delegam a missão de defendê-los, sem ao menos saber de que forma o farão.

Exceções existem, claro. Do alto de sua sabedoria e experiência, o cacauicultor, advogado e ex-presidente do (à época) CCPC, Humberto Salomão Mafuz, não obstante o peso dos anos, não se verga aos poderosos de plantão e mantém incólume a sua capacidade de se indignar à primeira tentativa de achincalhe à instituição Ceplac, de reconhecida competência, eficácia na promoção do desenvolvimento regional.

E Mafuz, hoje sem púlpito ou tribuna, não se rende à insanidade dominante e faz ecoar seu grito de resistência, tal e qual um general de pijamas – e por que não dizer? -, um Dom Quixote a lutar contra os moinhos da ignorância e da insensibilidade de quase toda uma região. Não se pode profetizar que arrebanhará adeptos, qual o fiel escudeiro Sancho Pança, a segui-lo e orientá-lo nesta difícil empreitada.

O presidente Salomão Mafuz, que soube exercer o poder a ele conferido pela então exuberante economia cacaueira, ainda se considera com forças suficientes para clamar contra os traidores do cacau. Inconformado com as atitudes tomadas pelo Governo Federal contra a Ceplac, luta com todas as forças para demonstrar a sua indignação.

Incapaz de esmorecer, ele diz que o governo ainda não se saciou com a perseguição causada à Ceplac, primeiro tomando o prédio-sede em Brasília para doá-lo à Procuradoria Geral da República, depois o prédio da CNPC e agora, adotando o firme propósito de destruí-la por simples capricho.

O ex-presidente do CCPC relembra a atenção dispensada à Ceplac pelos governos que possuíam uma visão desenvolvimentista do Brasil de Juscelino Kubitscheck a João Figueiredo , que mantinham um acordo de cavalheiros com a instituição. Pelo acerto, mesmo que a cota de contribuição cambial cobrada sobre o cacau não atingisse o valor do orçamento, a diferença entre esses recursos era repassada pelo Tesouro Nacional para garantir a assistência aos cacauicultores, a realização de obras de infraestrutura e os convênios. No ano seguinte, caso a contribuição fosse maior do que o orçamento, a conta se equilibrava e evitava-se a descontinuidade da programação estabelecida para aquele ano.

Com a redemocratização do País, esperava-se que as instituições verdadeiras fortalezas nos regimes onde prevalece o estado de direito fossem reforçadas pelo poder público, sobrepujando-se sobre as pessoas. Entretanto, não foi o que aconteceu e, cada vez mais, são tratadas pelas autoridades como um instrumento de dominação política, aumentando ou diminuindo de importância de acordo com o proveito que poderá acrescentar ao seu projeto pessoal.

Passados os anos, a cacauicultura continua a mesma, guardadas as devidas proporções e as mudanças tecnológicas que vieram. Certas lideranças regionais continuam com o individualismo de sempre, só que agora passaram a agir com mais refinamento.

Os tempos são outros, mas o histórico regional permanece tal e qual o fim do século XIX e o começo do século XX, quando a cacauicultura começou a ganhar importância econômica. Valia a pena todo o sacrifício do homem que se embrenhava pelas matas para escolher as melhores terras e plantar as sementes dos frutos de ouro. Os dias e meses que passavam nas matas os tornavam mais embrutecidos, porém, senhores de terras e roças de cacau, seu prestígio era medido pela quantidade de arrobas entregues nos armazéns dos exportadores. O ter e haver cediam lugar ao ser, conseguido com a compra de patentes de capitão ou coronel da extinta Guarda Nacional. Era o máximo do poder, aumentado com uma boa jagunçada.

Hoje, os métodos utilizados, embora igualmente tortos, são bem mais sofisticados. O poder político é demarcado não pela quantidade de jagunços, mas pelo volume de recursos financeiros ou materiais disponíveis. E os maus políticos (maioria, infelizmente), por sua vez, utilizam o seu estoque de artimanhas para destruir o que foi construído com o sangue e suor.

Mas é preciso resistir à deprimente realidade e, para isso, qualquer sacrifício faz sentido. Afinal, uma vida não vale a pena ser vivida sem sonhos e tentativas de concretizá-los. E Humberto Salomão Mafuz, do alto de sua experiência e hombridade, demonstra que a utopia é intrínseca ao ser humano.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 29-09-2007

Author Description

admin

No comments yet.

Join the Conversation