A NOVA CEPLAC

Walmir Rosário*

Não bastassem todas as dificuldades enfrentadas pela economia cacaueira, como as alterações climáticas, os baixos preços do produto no mercado internacional e a vassoura de bruxa, agora técnicos e cacauicultores estão alarmados com a possibilidade de desmonte da Ceplac pelo Governo Federal.

Não estranhem: é isso mesmo e faz parte de um projeto político engendrado pelo atual secretário da Agricultura do Estado, Geraldo Simões. Para quem até agora não entendeu nada, o assunto parece estória de carochinha, mas é verdadeiro e sua execução já está em andamento, para o azar da sociedade sul baiana.

Pessoas que tiveram acesso ao projeto do secretário Geraldo Simões contam que o local ocupado atualmente Ceplac – mais exatamente a Sede Regional, na rodovia BA-415 – será transformado num campus avançado de uma universidade federal, que tanto poderá ser a do Recôncavo ou um prolongamento da centenária Universidade Federal da Bahia.

Disso tudo, no entanto, o que há de mais melancólico e – porque não dizer? – desmoralizante para a própria região é que o desmonte da Ceplac já não inquieta ninguém e, muito menos, mobiliza produtores e lideranças da nossa sociedade. Não falo, evidentemente, daquele tipo de mobilização patrocinada, anos atrás, por certos técnicos agrícolas capitaneados pelo “companheiro” Geraldo Simões, que pintavam rodovias e muros de Itabuna e Ilhéus com a frase “Traidor do Cacau” e manifestavam obsessiva preocupação com o desenvolvimento regional. Pura pirotecnia, como se pôde constatar depois. A real intenção de tudo aquilo era vitaminar um movimento que ganharia ruas e avenidas, atraindo pessoas bem intencionadas (e inocentes úteis também) para as fileiras do PT, um partido ainda sem expressão, mas que, daquele modo, posava de “defensor intransigente” dos interesses populares.

Era o PT de Geraldo Simões, partido que ficou conhecido pela sua organização e capacidade de viabilizar greves por meio de estratégias nada ortodoxas: furando pneus de ônibus, tampando fechaduras com massa Durepox, pressionando quem quisesse abrir sua empresa, ameaçando e vaiando os contrários às suas convicções.

Ainda assim, a impressão que se tinha na época é que Geraldo Simões e seus companheiros do PT, apesar dos exageros (para dizer o mínimo), empunhavam uma bandeira, defendiam uma causa nobre: o engrandecimento da Ceplac, instituição da qual eram funcionários e, como se viu depois, que serviu de berço esplêndido para o recém-nascido petismo regional.

Só para lembrar: quando um dirigente da Ceplac entregou o prédio-sede de Brasília ao Ministério Público Federal e a Patrulha Mecânica ao Derba, o hoje secretário estadual da Agricultura, capitaneando o Conselho das Entidades Representativas dos Funcionários, não deixou por menos: promoveu protestos, greves e outras manifestações região afora.

Anos depois, o mesmo dirigente da Ceplac confidenciou a pessoas mais chegadas que foi obrigado a entregar parte do patrimônio da Ceplac a outros órgãos da União e do Estado da Bahia, deixando evidente que optou pela sábia decisão de “perder alguns anéis para não perder os dedos”. Talvez tenha sido verdade, talvez não.

Mas existem profundas diferenças entre o entreguismo de ontem e o de hoje, a começar pelo momento histórico. A apropriação de parte do patrimônio da Ceplac no governo Collor, que não tinha qualquer compromisso com as nossas instituições, muito menos com a cacauicultura, não poderia jamais ser considerada algo fora de cogitação.

ste, no entanto, não deveria ser o caso do governo Lula, que alardeia “compromisso com o cacau” e supostamente leva em conta os posicionamentos do companheiro-secretário-estadual Geraldo Simões, deputado federal (embora desistente) eleito por uma população que muito tem a perder com o esfacelamento da Ceplac, hoje uma instituição enfraquecida, mas potencialmente capaz de se recompor.

Mas, pensando bem, faz sentido. O Governo Federal ouve, sim, o secretário da Agricultura e vai fazer o que ele pede: o desmonte da Ceplac. E àqueles que ainda não se convenceram completamente do que afirmo, lembro que Geraldo Simões, eleito deputado federal em 1998, não promoveu uma só ação no Parlamento em defesa da cacauicultura e da própria Ceplac.

E, coerente com o seu passado de indiferença com os interesses regionais, Geraldo Simões mantém a velha postura, a começar pelo uso da estrutura da Ceplac em benefício próprio, num aparelhamento institucional que nunca se teve notícia, nem mesmo durante a ditadura militar. Aliás, àquela época, a Ceplac era tida e havida como um paradigma de eficiência e seriedade, porque bem conduzida na maioria das vezes.

O mesmo não se pode dizer da direção atual, comprometida exclusivamente com o beneficiamento político do secretário estadual da Agricultura. Basta saber de um extensionista da instituição qual os meios e ferramentas de que dispõe para prestar assistência técnica aos produtores rurais, notadamente quanto à substituição das plantas decadentes por cacaueiros tolerantes à vassoura de bruxa e de alta produtividade.

Faltam veículos e, caso um escritório os tenha, falta combustível para colocá-los em funcionamento, bem como recursos para sua manutenção (peças e outros insumos essenciais). A escassez crônica de verbas também impede a concessão de diárias para que os técnicos transfiram tecnologia ao homem do campo.

Na área da pesquisa, a situação também é caótica, uma vez que falta tudo. Dos reagentes químicos à viabilização de projetos solicitados pelos cientistas – e isso se dá tanto por falta de dinheiro e condições de trabalho, quanto pelo eficiente trabalho de desmoralização institucional executado pela atual direção da Ceplac. Além disso, o marasmo administrativo que paralisa a instituição ameaça fazer com que todo o conhecimento produzido durante vários anos fique esquecido no fundo de uma gaveta qualquer, sem que jamais possa chegar ao seu destinatário final, o produtor.

E o mais irônico de tudo é que os petistas prometeram à região uma “Nova Ceplac”, tantas vezes citada nos seus discursos e peças de propaganda. É preciso reconhecer que eles cumpriram a sua promessa: hoje existe realmente uma nova Ceplac, só que muito pior do que a de antes e, graças a eles mesmos, fadada ao aniquilamento.

*Radialista, jornalista e advogado.

Publicado no Jornal Agora em 31 de agosto de 2007-09-03

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