A FRUSTRADA CIRCUNAVEGAÇÃO PELAS SETE ILHAS

*Walmir Rosário

Quem viver verá! Ainda nesta quinta-feira (8), por ocasião de mais uma assembleia ordinária semanal, estou decidido a solicitar minha desfiliação ao outrora glorioso Clube dos Rolas Cansadas (CRC). E minha decisão é em caráter irrevogável, mesmo sendo obrigado a deixar de conviver, nas manhãs e tardes de quinta-feira com alguns mais diletos amigos que construir ao longo dos anos.

Minha ruptura com os confrades nada tem a ver com rusgas ou brigas de mesa de bar, mas da incapacidade de gestão dos coordenadores dessa ilustre e vetusta agremiação, que tudo prometem e nada cumprem. Parecem a até que foram forjados nas hostes políticas. Mas o problema é outro, de outra monta, coisas que somente a navegação por rios e mares antes navegados poderiam solucionar.

Isso mesmo, e acredito piamente que estou coberto de razão, pois a ninguém é dado o direito de prometer e não cumprir e esse é o verdadeiro móvel do crime de minha – não diria desavença – mas repúdio às promessas não cumpridas. E analisem friamente se por acaso não tenho razão: Há quatro anos a coordenação do CRC vem planejando realizar uma história viagem – circunavegação – pelas sete ilhas canavieirenses e simplesmente, nada.

Durante quatro anos perdemos tempo com a peroração angustiante de planejar a triunfante viagem, que ainda não chegou – e jamais chegará – às vias de fato, por absoluta falta de capacidade técnica dos gestores. Está mais do que provado, haja vista semelhante façanha bem mais recente do grupo Apaixonados por Canavieiras, que desbancou os velhinhos de uma só remada, conforme atestam o Facebook e o Instagram, carregados de fotos e vídeos.

Em apenas uma semana saiu de Canavieiras com destino ao antigo distrito canavieirense de Jacarandá, local próspero de outrora, com vida própria, igreja (de Nossa Senhora do Rosário), comércio forte, e cacauicultura ainda mais. Hoje, mesmo pertencendo a Santa Luzia, não deixa de fazer parte da história, como registraram o grupo apaixonado por Canavieiras.

Quer dizer, volta e meia também tenho minhas dúvidas sobre os verdadeiros empecilhos da histórica circunavegação, diante dos argumentos sobre a fracassada expedição, sempre prometida para o mês entrante. Se dependessem do faturamento da viagem, o competente navegador Gérson da Moreia já teria sucumbido à falência por falta do que fazer, ainda mais gastando seu precioso tempo para jogar conversa fora no Bar Laranjeiras, de Bené, levantando o calendário de marés para todo mês vindouro.

Só mesmo Bacura foi intimado a aparecer no Bar Laranjeiras por dezenas de vezes, com a árdua tarefa de elaborar um suculento cardápio para o sustento dos confrades navegantes, cansados de suas emoções pelos rios e canais. Pelo menos numas oito reuniões foi estabelecida a possibilidade de pernoite, o que aumentaria a responsabilidade de Bacura, que teria que providenciar camas, colchões, cervejas, lanches e guaiamuns devidamente cevados.

Os nossos diligentes assessores – Gérson na navegação e Bacura como hospedeiro – foram derrotados pelo imobilismo dos vetustos senhores, que não se cansam de fazer planos, esmiuçar mapas, traçar melhores roteiros enquanto degustam as mais bem geladas cervejas. Dúvida atroz atormenta o projeto de navegação: Iniciam a expedição singrando pelas águas do rio Patipe e retornam pelo rio Pardo, ou seguem exatamente pelo roteiro inverso?

Essa seria uma dúvida a ser sanada por outro membro do CRC, o experiente navegador Tedesco, mas abortado desde que empreendeu sua última aventura navegando pelos canais do mangue de Canavieiras a Belmonte. Simplesmente deu com os pés na água devido aos cálculos dos horários das marés, acredito que provocado pelos equipamentos de navegação de sua propriedade como astrolábio e quadrante, enferrujados pela falta de utilização.

E nesse chove não molha, o comandante Tyrone Perrucho dispensou, temporariamente os bons serviços de Gérson da Moreia e Bacura, que poderão ser, eventualmente prestados em ocasião incerta e não sabida. Quem sabe daqui até lá a poderosa lancha de Gilbertão passe por uma reforma de casco e casa de máquinas e fique tinindo para enfrentar os augúrios da expedição.

Me recuso a participar de dessa ou de outra qualquer expedição – seja por ar, mar ou terra –, a não ser que seja por bar, visitando os mais reconhecidos estabelecimentos do gênero, mesmo assim, daqui de Canavieiras. E declino desse passeio não por desprezo, pois não sou de afrontar velhos amigos, que não mostraram competência de pagar a visita da entidade coirmã ilheense, o Grupo Rola Cansada, ou RM como que querem os mais acatados.

Dizem os mais velhos que se conselho fosse bom não seria dado, mas vendido e por preço caro, mesmo assim me arriscaria a que o CRC contratasse os bons serviços do comandante Caio Loureiro e sua tripulação, que demonstraram conhecimento e competência no ofício. Não custaria muito entregar esses bons serviços a um marinheiro experiente no leme e na rota, para que, enfim, realizar a tão sonhada navegação pelas 7 ilhas.

Caso meu conselho – melhor seria proposta – seja aceito, quem sabe poderia eu reconsiderar minha decisão em deixar os quadros do CRC e embarcar nessa aventura por rios nunca antes por mim navegados. Do antigo sonho passaríamos à realidade, refazendo os caminhos aquáticos feitos pelos desbravadores em busca de terras férteis para plantar cacau e faiscar diamantes.

Que não se faz por uma boa história!

*Radialista, jornalista e advogado

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Walmir Rosário

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