A ÉTICA NO BANCO DOS RÉUS

Walmir Rosário*

Dar a volta por cima, sem pagar nada do que deve à Nação é o que pretende o Partido dos Trabalhadores (PT) e o presidente Lula. E para defender seus companheiros atolados até o pescoço num mar de lama, sai da defesa partindo para o ataque, inclusive de partidos aliados. É o que pode ser chamado de um tiro no pé, ato falho que tem cometido o PT ao longo dos anos.

Acostumados a se posicionar sempre na defensiva, os petistas não se colocam (ou, pelo menos, se negam) na condição de governo, ou seja, pretendem continuar sendo estilingue, apesar da condição de vidraça. E que vidraça! Desde que chegou ao poder, representantes do PT têm cometido malefícios de toda a ordem, embora não admitam pagar por eles.

O partido guardião da ética e dos bons costumes, a cada dia cai de podre, ressalvando-se grande parte da militância bem-intencionada e que lutou durante anos para o País se livrar do coronelismo oficial. Ledo engano! Ao chegar ao poder, praticaram os mesmos defeitos como se fosse parte da liturgia do cargo cometerem os erros que tanto repudiavam.

O fato que contraria o eleitor que votou em Lula à cata de mudanças profundas, a exemplo de uma reforma política debatida entre as bases, uma reforma econômica e, sobretudo, fiscal, lamentam ter avalizado tamanho destino. As reformas estão sendo postergadas, as promessas feitas durante todos esses anos e mais amiúde durante a campanha são empurradas com a barriga, como se diz popularmente.

E os eleitores não se conformam, principalmente os que hoje estão conscientes do erro cometido. Reclamam do voto dado, se arrependem da decisão tomada – embora tenha sido de boa-fé e na melhor das intenções. Mas não tem mais jeito e só resta chorar o leite derramado, e aguardar uma nova oportunidade de praticar a cidadania nas urnas.

Já outra parte da população não tem muito do que reclamar, afinal, se beneficia da política da esmola praticada pelo Governo Federal, antes chamada de assistencialismo. São os 25% da população menos assistida que recebem o Bolsa Família, programa eminentemente marcado pelo populismo eleitoral, cujo maior mérito é tentar transformar trabalhadores fora do mercado de trabalho em mendigo perene.

Uma outra parcela da população também está bastante satisfeita com a política – ou falta dela – do Governo Federal: são seus filiados, hoje ocupantes dos milhares de cargos públicos criados para abrigá-los em sinecuras federais e estaduais. Junto com eles, desfrutam também dessas benesses, filiados de partidos políticos aliados.

É preciso, entretanto, distinguir quem serve à máquina administrativa de que apenas chegou lá para fazer parte do feudo destinado, repartir o produto do botim, como se faziam nas batalhas conhecidas pela humanidade. Existem os que realmente administram a coisa pública com competência, haja vista certos órgãos quem vêm dando certo e os que servem apenas para o aparelhamento partidário.

Com toda essa sucessão de erros – para não dizer de má-fé –, ainda ouvimos, mais uma vez, os constantes discursos do presidente da República, que se confundindo presidente do PT, derrama elogios à prática da ética pelos companheiros de partido. “Ninguém é mais ético do que o PT”, disse Lula durante o 3º Congresso do PT, em São Paulo.

Esquece o presidente Lula – seja o da República ou o do PT –, na difícil missão de defender seus companheiros, que além de ser honestos, eles também devem parecer honestos (como deveria ser a mulher de César). Esquece o presidente que o Partido dos Trabalhadores se coligou com outros partidos políticos nas últimas eleições, e que são eles, os outros que ele classifica de nem tão honestos, os administradores do Governo Federal.

Do discurso do presidente Lula pode se tirar uma lição (também bem popular): “farinha pouca meu pirão primeiro”. Só que esqueceram de avisar ao presidente Lula que ética não pode ser mensurada através de índices, de graus. Ou se é ético, ou não se é, e isso mostra que não pode existir dubiedade quanto ao conceito.

Comparam alguns que ética é igual à gravidez: ou se está grávida ou não. Afinal, ninguém nunca viu alguém ligeiramente grávida.

*Radialista, jornalista e advogado.

Publicado no Jornal Agora em 04-09-2007

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