À ESPERA DA PRIMEIRA PEDRA

Walmir Rosário*

Há tempos venho tentando provocar um debate sobre a Ceplac, infelizmente sem nenhum sucesso, e isso me leva a imaginar algumas hipóteses: será que a minha condição de simples jornalista e advogado, sem nenhum daqueles pomposos títulos que cintilam nos currículos dos cientistas da instituição, é o motivo da indiferença que demonstram em relação a um assunto que deveria ser do seu maior interesse? E o que dizer, então, dos políticos, principalmente aqueles que mandam e desmandam na instituição, interferindo diretamente no seu desempenho? O que estará por trás do seu silêncio, já que costumam reagir quase imediatamente a qualquer comentário desfavorável publicado nos jornais? Ou será que a inapetência para debater o tema resulta da falta de interesse da própria sociedade sul baiana, esquecida da formidável contribuição prestada pela Ceplac ao desenvolvimento regional?

Creio também que, na maioria das vezes, as minhas colocações a respeito da instituição têm sido incompreendidas, inclusive pelos servidores da instituição, que não aceitam certas cobranças feitas por mim. Entretanto, posso garantir que todas elas se basearam em atos e fatos reais e não visaram, em momento algum, atingir injustamente este ou aquele dirigente ou funcionário. Para começo de conversa, enfatizo que sempre vi a Ceplac como uma instituição necessária (e até indispensável) ao desenvolvimento regional e, como tal, esperei que permanecesse fiel aos seus objetivos institucionais. Infelizmente, não foi o que ocorreu. É bom que se diga, no entanto, que os eventuais desvios foram e ainda são provocados por gente que destoa do ideário da instituição, coerente e íntegro em essência.

E esse ideário, no entanto, não foi suficiente para evitar que, desde o seu início, a Ceplac enfrentasse ferozes opositores, pessoas apegadas a velhos hábitos e atitudes, incapazes de aceitar o novo. Há, inclusive, o caso de um velho coronel do cacau que consolou outros produtores igualmente incomodados com as novas ideias trazidas pelos técnicos: “Tem nada não… Eles começam a jantar na nossa casa, casam com nossas filhas e daqui a pouco estão iguaizinhos a gente”. Episódios deste tipo mostram que, paradoxalmente, a Ceplac era uma ameaça porque representava mudança, ainda que isso pudesse significar a retomada do envolvimento regional, a volta da produção – desta vez com o uso da tecnologia –, a ocupação dos postos de trabalho e a retomada de novos negócios.

Não era uma preocupação dos agricultores daquela época (com raras exceções) a realização de investimentos para aumentar a produção e a produtividade, por acreditarem ser o cacau uma cultura perene e – vejam só – carente de cuidados apenas nos primeiros anos. Adultas, dependeriam apenas do solo bom, de chuvas contínuas e alternadas com sol, além da proteção contra o frio que trazia o mela, a terrível podridão-parda. A eles só interessava, portanto, a ajuda do governo para recompor as dívidas que se acumulavam como resultado de anos de ínfima produção, agravadas pela seca e baixos preços, além da estrutura perversa de comercialização e da falta de crédito.

Foi contra esse tipo de pensamento que a Ceplac teve de lutar durante décadas. E da simples incumbência de realizar a recomposição das dívidas, ocupando uma sala nos fundos da agência do Banco do Brasil, a instituição foi ganhando musculatura e incorporando funções vitais à recuperação da combalida cacauicultura baiana. Da situação vexatória provocado pelo estado gravoso por que passava a lavoura cacaueira, com queima de cacau em praça pública, a região conseguiu alcançar um longo período de prosperidade.

Apesar dos resultados positivos alcançados pela pesquisa e extensão rural, com o aumento da produção e a produtividade do cacau, o mérito do trabalho da Ceplac não conseguiu reconhecimento unânime e seus técnicos eram vistos com desconfiança pelos cacauicultores. Em alguns casos, foram até proibidos de entrar com seus jipes pretos em determinadas fazendas, por ordens expressas de proprietários, desconfiados das técnicas recomendadas. Esse temor – soube-se depois – era motivado principalmente pelo receio de gastar dinheiro com as práticas agrícolas, como o uso de adubos, defensivos agrícolas e outros insumos.

Mas, aos poucos, a Ceplac foi se consolidando. Há de se ressaltar, inclusive, a perseverança e a tenacidade de José Haroldo de Castro Vieira, cuja liderança transformou a instituição num agente de desenvolvimento regional, garantindo ao cacau e a outros cultivos os benefícios gerados pela pesquisa científica, extensão rural e ensino profissionalizante. Àquela época, a escassez de recursos também era um forte ameaça ao modelo proposto pela Ceplac e a quota de contribuição cambial foi a solução encontrada. Incidindo sobre o valor da exportação de amêndoas e derivados de cacau em percentuais que variaram inicialmente entre 15% e 5%, a quota finalmente foi fixada em 10%. Uma vez mais, a Ceplac foi alvo de críticas por produtores e lideranças regionais que não admitiam pagar um preço que consideravam escorchante por um serviço prestado com inegável eficiência.

Modelo único de instituição prestadora de serviços na agricultura, a Ceplac foi acumulando conhecimentos e promoveu um amplo diagnóstico em toda a região cacaueira, iniciativa que resultou na elaboração de um vitorioso projeto de desenvolvimento integrado. Ainda hoje, as informações disponibilizadas pela instituição sobre solo, clima, economia, geografia, história, hidrologia, cultura e mercado, dentre outros, são pontos básicos para a realização de qualquer empreendimento agropecuário na região. E assim tem sido ao longo das últimas décadas.

Lógico seria, portanto, que as lideranças regionais vissem com inquietação as frequentes críticas feitas ao gigantismo da Ceplac, com propostas esdrúxulas e – por que não dizer? – irresponsáveis de fracionamento da instituição. Como, senão com a manutenção do modelo que aí está, associar e compartilhar tantas informações entre técnicos de diversas especialidades? “Com a ajuda da informática, disponibilizando esses conhecimentos em bancos de dados”, certamente dirão os defensores do esfacelamento, argumento que não se sustenta devido a sua fragilidade. Ao contrário do que acontece com as culturas de ciclo curto, a lavoura de cacau, por ser perene, depende do conhecimento adquirido ao longo do tempo, seja ele fruto da observação do agricultor ou do técnico, validado ou não pela pesquisa científica. E essa prática leva anos para apresentar resultados.

Raciocinemos, então: se até o momento, 50 anos depois de criada a Ceplac, produtores, pesquisadores e extensionistas ainda discutem qual o tempo adequado para a fermentação das amêndoas, como seria esse debate se fosse feito entre diversas instituições? Mais produtivos e ágeis? O bom senso indica que não. Na verdade, por esse e outros motivos, o que produtores precisam não é trocar um órgão de assistência técnica por outro. O que lhes falta é uma representação sindical forte, com capacidade de pressionar as autoridades ligadas ao agronegócio, a exemplo do que acontece com outros segmentos produtivos. Uma representação que lhes dê, principalmente, a condição de interferir na elaboração de políticas adequadas para o cacau, garantindo lucratividade ao seu negócio.

Enquanto não se concentrar no seu real problema – a ausência de organização e de poderio político –, dedicando o seu tempo e energia a iniciativas que só o enfraquecem, como o esfacelamento da Ceplac agora proposto, o produtor rural continuará sendo massa de manobra para a sanha de aproveitadores, os já conhecidos gigolôs do cacau. E quem achar que minto ou exagero no que afirmo, que atire a primeira pedra…

*Radialista, jornalista e advogado.

Publicado no Jornal Agora em 07-09-2007

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