A BR DO ESQUECIMENTO

A BR DO ESQUECIMENTO

Walmir Rosário*

Já se tornou comum entre nós as constantes ameaças de fechamento da BR-101. Desde sua inauguração, há 26 anos, a estrada responsável pela integração do litoral brasileiro está relegada ao abandono. Pouquíssimas vezes recebeu tratamento, mesmo assim inadequado, pois os recursos sempre estão tão escassos e nunca são suficientes para uma completa recuperação. Enquanto isso, os motoristas são entregues à própria sorte, sofrendo prejuízos com pneus cortados e peças quebradas nas inúmeras crateras existentes ao longo da rodovia.

A BR-101, pensada na década de 1930, foi sendo construída aos pedaços e somente foi inaugurada em 1973 (no trecho que atravessa o Sul da Bahia), representando o último grande investimento do Governo Federal em nossa região. Talvez por termos sido ricos o bastante para não adotar formas de luta mais radicais, porém o eficiente, fomos nos acostumando com o descaso das autoridades para os nossos problemas e nos contentávamos em falar mal do governo pelas esquinas da vida, um péssimo exemplo a ser seguido.

Hoje, quando não mais estamos ricos (em alguns casos podemos nos considerar miseráveis), começamos a ensaiar tomadas de posição mais severas contra aqueles que não nos representam como esperávamos. Em que pese a timidez de nossas formas de luta, já há um avanço significativo na conscientização de nossa cidadania, fazendo valer nossos direitos, seja através do poder de pressão para que possamos ser atendidos em nossas justas reivindicações, ou pelo tradicional voto, excluindo da vida pública descomprometidos com nossas causas.

As ameaças de paralisação da BR-101 feitas pelo comitê representado pelas mais diversas instituições da sociedade são legítimas e devem ser encaradas por toda a comunidade como um ato essencial para a recuperação da nossa mais importante rodovia. Infelizmente, nossos governantes não se sensibilizam às solicitações educadas, mesmo que esta estejam devidamente fundamentadas e reconhecidas como necessária ao bem-estar comum.

Desta vez o comitê promete usar tática diferente e eficaz, realizando o protesto com o fechamento da BR-101 em data não divulgada, ao contrário da anterior, quando os efeitos não foram os esperados. Não estamos afirmando que os fins justifiquem os meios, porém os benefícios trazidos com a recuperação desta rodovia são mais importantes para a sociedade do que um ou outro interesse que por ventura possa ser prejudicado. É preciso que o Governo Federal possa assumir os compromissos acordados, nem que para isso as formas de luta sejam diferentes das normalmente utilizadas e que não produziram os efeitos positivos necessários.

*Radialista, jornalista e advogado.

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 02-10-1999

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