A BOLSA E O VOTO

Walmir Rosário*

O levantamento do perfil econômico do brasileiro feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chama a atenção para os números alarmantes de pessoas ociosas e que não pretendem voltar à estatística das pessoas economicamente ativas. Pelos números apresentados pelo IBGE, 45,9 milhões de pessoas vivem hoje com os recursos oriundos do Programa Bolsa Família.

Num país onde a população estimada é de 190 milhões de pessoas, os dados apresentados e comemorados pelo Governo Federal, são, antes de mais nada, muito preocupantes, ou melhor, alarmantes. Trocando em miúdos – sem as firulas dos economistas de plantão do Governo Lula –, o quadro é a mais clara demonstração de que o Brasil caminha ladeira abaixo.

Sim. Em vez de comemorar, o Governo Federal deveria se indignar por não conseguir fazer com que a Nação tenha as mesmas oportunidades. Enquanto três quartos da população têm que produzir riquezas, 25 por cento (um quarto) desses brasileiros são obrigados a viver sem dignidade, esperando apenas os parcos recursos que recebem do Bolsa Família.

Há duas análises a serem feitas sobre esta questão: a primeira diz respeito a matar a fome de pessoas que vivem à margem da linha da pobreza, essencialmente no Nordeste, considerada a região mais pobre do País. Somente nesta região existe um contingente de 22,6 milhões de beneficiados pelo programa.

São essas mesmas pessoas que participam da contabilidade do Governo Federal como responsável pelo aumento do PIB nordestino, já que sobrevivem desses recursos. Como recebem os recursos e gastam na mesma localidade, são responsáveis pelo aumento da economia local.

Nada mais justo se essa economia fosse real, participativa e produzisse riquezas. Mas, ao contrário, essas famílias fazem parte de um contingente de desempregados, condenados ao eterno desemprego, já que no programa não existe uma porta de saída honrosa para o trabalho.

Não. A opção é simples: se aumentar a renda, terá de deixar o programa, o que desestimula a busca pelo trabalho, principalmente o formal, pois faz parte da natureza humana não trocar o certo pelo duvidoso. O desempregado de antes – beneficiário de hoje –, teme fazer parte da estatística do contingente de desempregados dos órgãos oficiais. E com justa razão.

A segunda análise a ser feita, a mim parece ser a mais justa, senão vejamos: é obrigação de governo formular políticas públicas, sejam elas temporárias ou permanentes. No caso em discussão, o Bolsa Família não se enquadra em nenhuma delas, por se tratar de um benefício que não estimula o desenvolvimento, seja do País, seja do cidadão. Este, ao contrário, passa a ser apenas um joguete na mão de políticos inescrupulosos, servindo apenas como meros participantes de currais eleitorais, prontos a dar o voto nas eleições.

Hoje, caso o Governo Federal resolvesse elaborar políticas públicas sérias e dignas, poderia, com os mesmos recursos, que este ano chegam aos R$ 10 bilhões, por certo elevaria a produção de riquezas e a conscientização do brasileiro.

Essa esmola dada hoje pelo Governo Lula com interesses meramente eleitoreiros poderia ter uma repercussão geométrica na economia nacional, desde que aplicados com seriedade no setor produtivo. Enganam-se os políticos e técnicos deste governo quando pensam ser a concessão de benefício (neste caso esmola, mesmo) ferramenta capaz de reduzir desigualdades.

Ao contrário, essa política (ou falta dela) produz apenas a subserviência das pessoas diretamente envolvidas, o subdesenvolvimento da Nação, a ineficiência do setor produtivo. Enquanto isso, os brasileiros que produzem riquezas são penalizados pelo governo com cargas crescentes de impostos.

Diante desse quadro, podemos avaliar que estamos sentados numa bomba-relógio prestes a explodir.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 23.08.2007

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