A BATIDA DO ABC DA NOITE COMO SALVAÇÃO NACIONAL

Walmir Rosário*

A informática, criada com o intuito de ajudar o homem, já passou dos limites e hoje escraviza os pobres mortais. Muitos do que a olhavam com desconfiança já mudaram de ideia e se empenham em descobrir suas utilidades e encantos. Os últimos bastiões (contrários ao uso do computador) de quem se tinham notícias já caíram, se renderam à grande invenção do século passado, consultando e-mails (em vez de correio eletrônico), não dispensam uma navegação pela Internet e produzem seus textos no Word.

E ainda têm os que se tornaram escravos de carteirinha da cibernética e não saem de casa sem antes olhar o horóscopo em dois ou três sites distintos. O jornalista, professor, escritor e candidato a vice-prefeito de Ilhéus, Jorge Araújo, sertanejo de Baixa Grande, com estágio em Itabuna, Ilhéus, Salvador, Rio de Janeiro (França, Europa e Bahia), não só apresenta o e-mail em seu cartão de visitas, como o divulga em sua coluna de crônicas semanais aqui no Jornal Agora, oferecendo-o para troca de correspondências.

O Caboclo Alencar, figura cantada em prosa e verso no Beco do Fuxico e adjacências, principalmente no meio mais chegado à boemia, se matriculou numa escola de informática, com direito a carteirinha de estudante, daquelas usadas para pagar meia entrada nos cinemas. Não perde uma aula e é o aluno mais aplicado da sala.

Com a globalização da economia, Caboclo (ou cabôco, não sei bem qual a grafia correta) já pensa em se aventurar na expansão do seu negócio, através do e-commerce, que não é nada mais do que venda pelo sistema on-line. Mas aí pensarão os leitores mais chegados a Alencar: “Como é esse negócio de vender batida pela Internet?”. Será que dá certo? Será que nós vamos tomar via computador? Dizem outros.

Pensando nisso, dá até para imaginar o que teria levado o professor Jorge Araújo a se aventurar no mundo cibernético. Mesmo morando em Ilhéus há tempos, nosso escolástico não dispensa uma excursão pelo Beco do Fuxico, com a autoridade de mais de 40 anos de militância naquele trecho, onde sentou praça ainda nos velhos tempos do SB, de Nelito Carvalho. Mas será que Jorge Araújo pretende saborear as batidas do Caboclo Alencar fora do Beco do Fuxico?

Não acredito que Jorge Araújo, por mais ocupação que tenha em sua campanha de candidato a vice-prefeito de Ilhéus, tenha mudado de hábitos, passando a consumir, via delivery, as deliciosas batidas elaboradas cientificamente por Caboclo Alencar. Essas modernidades podem até ajudar o cliente no corre-corre do dia a dia, mas nunca substituirá o bate-papo de pé de balcão, onde se joga conversa fora à vontade.

Dos frequentadores do ABC da Noite, reduto dos apreciadores de uma boa batida, apenas dois estão recalcitrantes, teimam em não aderir de vez o mundo dos computadores. Um deles é o professor, jornalista e advogado, Ricardino Batista, que teima em continuar batendo nas carrapetas de sua Oliveti, modelo 1972, para o desgosto dos diagramadores do Agora, nos dias de quarta e sexta-feira. Mesmo tendo computador em casa, prefere elaborar suas linhas ao modo antigo.

Outro é o comerciário do setor de peça de automóveis, Álvaro, o popular Jacaré, que, apesar de utilizar o computador na sua labuta, ainda não está afeito às modernidades da Internet, aos editores de texto e planilhas de cálculo. Perguntado sobre sua teimosia nesse campo, ele responde de pronto: “Só achei vaga na escola de informática das 18 às 19 horas, horário em que estou muito ocupado no ABC da Noite, aprendendo as lições com o Caboclo Alencar. Se o ABC da Noite passar a vender batida somente pela Internet, então, finalmente, vai sobrar tempo para eu ir à escola”, promete Jacaré.

Diz Jacaré que a chegada do presidente Lula ao poder foi a responsável pela mudança nos usos e costumes do ABC da Noite. Jacaré anda comentando nas rodas de fuxico que a intenção de vender batida pela Internet é uma invenção de Alencar, para continuar servindo ao presidente da República, freguês seu de carteirinha em todas as visitas feitas a Itabuna, trazido pelos companheiros Geraldo Simões e Nerope Martinelli.

Através do e-commerce, Caboclo Alencar pretende servir não só o presidente Lula, mas introduzir o seu cardápio de batidas nas recepções internacionais, servido a chefes de Estado estrangeiros, de acordo a momento e o paladar. Caso numa negociação com os Estados Unidos a discussão esteja acalorada, nada melhor do que uma batida de maracujá; se quisermos fazer cara feia aos gringos, basta servir uma de tamarindo, ou seja, adaptando a carta de batidas com nossa intenção nacionalista.

Com isso, além de economizarmos no balanço de pagamentos, deixando de comprar whisky escocês, campanha francês e outras bebidas alienígenas, passaremos a economizar divisas e exportar um produto made in Beco do Fuxico, para o deleite da comunidade política internacional. Talvez esteja aí uma ótima opção para nos livrarmos da dívida externa. Batida neles, Caboclo.

*Radialista, jornalista e advogado.

Publicado no Jornal Agora em 28-07-2004

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