GAJÉ, 79 ANOS E MAIS DE 300 GOLS NO FUTEBOL BAIANO

José Américo Castro*

No último dia 19 de maio, o ex-jogador Gajé, que brilhou no futebol baiano, comemorou 79 anos de vida. Ele foi batizado com o nome Antônio Everaldino Venâncio dos Passos, mas pescando um pequeno caranguejo de água doce ganhou o apelido com o qual ficou definitivamente conhecido: Gajé.

O caranguejo gajé (Trichodactylus é um gênero de caranguejos de água doce da família Trichodactylidae) é uma espécie ameaçada de extinção, assim como o ponta-direita nato que teve entre seus representantes históricos o craque homônimo e o fenomenal Mané Garrincha.

Ambos tinham um jeito tímido, descendência indígena, dribles desconcertantes e uma incrível capacidade de fazer gols. Gajé também atuou em outras posições, inclusive a de centroavante.

“Se me lembro bem, fiz mais de 300 gols durante o tempo em que joguei bola. Somente em uma partida, no Estádio Pedro Caetano, em Ipiaú, marquei 11, deixando o goleiro de um ‘catado’ de Ubatã, cansado de tanto buscar a bola no fundo da rede”, recorda o craque.

No Esporte Clube Bahia ele fez 24 gols em duas temporadas, e mais quatro pelo time do Leônico, Campeão Baiano de 1966. “Jogando nas equipes de Itabuna e Ipiaú, fiz muitos, perdi a conta… Eu nasci pra fazer gols”, conclui o voluntarioso atacante.

A história oficial do atleta Gajé foi iniciada no time dos Alfaiates em Ibicaraí, onde também jogou pelo Flamengo de Boca Rica. O desportista Zequinha Carmo ficou admirado com sua habilidade e não hesitou em levar-lhe, com apenas 15 anos, para o futebol de Itabuna, de onde foi projetado para o cenário estadual.

DE ITABUNA A IPIAÚ

A poderosa Seleção de Itabuna foi hexacampeã do Intermunicipal, nos anos 50/60. Gajé se destacou na conquista do campeonato de 1962. Naquele fabuloso time jogavam Chicão, Humberto, Ronaldo, Zé Davi, Fernando Riela, Leto, Lua, Carlos Riela, Santinho, Zé Reis, Itajaí, Abiezer, Caxinguelê, Tombinho, Ronaldo e os goleiros Plínio, Luiz Carlos e Betinho.

O craque estava em Itororó quando Jaime Cobrinha, o mais astuto dos cartolas ipiaúenses, lhe chamou para jogar no Independente Esporte e Cultura, um time ultra-afinado que chegou a ser comparado a uma orquestra e que também contava em seu harmonioso elenco o incrível Betinho, um goleraço que chegou a atuar no lendário time do Santos de Pelé e esteve com Gajé na Seleção de Itabuna.

Ídolo da torcida do Independente, Gajé ampliou sua coleção com dois títulos consecutivos (1965/66) e muitos gols. Além disso, criou uma relação de amor por Ipiaú.

No Independente, Gajé teve oportunidade de atuar com Bueirinho, Zé Plínio, Tanajura, Dilermando, Gino, Davi Cara de Jegue, Jorge Campos e outros atletas extraordinários. Na campanha do bicampeonato, em 1966, o Independente contou com Betinho, Dí, Everaldo Barbosa, Gaso da Serraria, Jasson, João Grilo, Américo Pintor (o massagista) e o dirigente Jaime Cobrinha (em pé). Caribé, Denancí, Gagé, Daniel Macêdo, Gino, Orlindo Lopes e Lourival Paneli (agachados).

TITULO INÉDITO DO LEÔNICO

Gajé pretendia ficar em Ipiaú, onde montou uma alfaiataria e fez muitos amigos, porém foi seduzido pelos cartolas do Leônico que reforçaram a equipe para disputar o segundo turno do Campeonato Baiano. Fez bonito na Fonte Nova e ganhou seu primeiro título no futebol profissional.

De tanto aprontar com os adversários, o Leônico foi apelidado de “Moleque Travesso”. Nesse time, campeão baiano de 1966, Gajé reencontrou seu amigo Zé Reis. Os dois atuaram juntos na Seleção de Itabuna e repetiram alegres façanhas em Salvador.

O Leônico campeão esteve assim constituído: Gomes, Nelson Cazumbá, Bell, Biguá, Petrônio; Bolinha e Careca; Gajé, Zé Reis, Geraldo e Armandinho.

NO BAHIA

Osório Villas-Boas, o todo poderoso presidente do Bahia, quis Gajé no seu time e assim foi feito. No clube mais querido do estado o veloz atacante ficou até o final dos anos 60 e participou de competições nacionais e até internacionais.

Titular absoluto na temporada de 1968, ele teve uma boa atuação na Taça Brasil e até fez um gol olímpico no Beira Rio, em Porto Alegre, contra o Internacional.

Na ocasião, o elenco do Bahia era formado por Jurandir, Dário, Ailton, Jaime, Souza, Luiz Ditão, Caetano, Adaurí, Gajé, Amorim e Canhoteiro.

Gajé também vestiu a camisa do Fluminense de Feira e do Itabuna Esporte Clube, entretanto, desistiu do futebol profissional, retornou a Ipiaú e continuou jogando no Independente.

NOVAMENTE NO INTERMUNIPAL

Gajé esteve diversas vezes na Seleção de Ipiaú, conquistou mais um título pelo Campeonato Intermunicipal. Foi no ano de 1977, numa decisão contra a Seleção de São Félix com um gol de Jorge Pato.

Nessa decisão, Ipiaú sagrou-se bicampeão do Intermunicipal. Roberto, Litinho, Pedrito, Sapatão, Boca de Pia, João Velho, Carlinhos, Dadá, Jorge Pato, Cesar Véi e Gajé, foram os atletas da campanha vitoriosa.

Não saiu mais de Ipiaú. Instalou uma granja e a cada frango que vendia lembrava dos goleiros que não conseguiram segurar seus fortes chutes.

Ao final do expediente ia bater baba no areião do Arara, às margens do rio das Contas, e continuava driblando, correndo muito e fazendo gols.

Na ocasião do seu aniversário foi visitado por um grupo de amigos, em sua residência na Vilma Palma, Bairro Dois de Dezembro, e não conteve as lágrimas da emoção ao relembrar as grandes jogadas, os momentos felizes, desde criança junto aos seus pais José Guilherme e Petrina Venâncio, os mergulhos no Rio Salgado e as vitórias nos gramados baianos.

Ficou feliz ao saber que o vereador Jô da AABB vai propor à Câmara Municipal de Ipiaú que lhe conceda a Medalha do Mérito Esportivo e tornou a repetir a frase: Eu nasci pra fazer gols”.

*Jornalista, poeta e escritor

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